A PACIENTE

Publicado em Contos, José Roldão, Literatura, Relatos with tags , , , , , às Maio 4, 2008 por José Roldão

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O médico toca com os dedos a barriga da mulher grávida. Seus olhos cruzam com os da paciente por alguns instantes. Ela parece estar bem de saúde; e também o bebê. A mulher segura a mão do médico, separa-lhe os dedos e entrelaça com os seus: «Doutor, uma vida quer rebentar de dentro de mim».

INVERSÃO DE PAPÉIS

Publicado em Diário Fantástico, José Roldão, Literatura, Relatos with tags , , , , às Maio 4, 2008 por José Roldão

Deep Freeze

Dor de cabeça. Uma dor que foge, correndo em círculos dentro do claustrofóbico espaço craniano. Tenho dó dessa dor. Coitada! Presa, batendo desesperada, procurando uma saída! Decido não interferir. Isso quer dizer que sou pior que a dor de cabeça: vou deixá-la lá dentro, prisioneira, sofrendo. É bom inverter os papéis de vez em quando.

O MAPA

Publicado em José Roldão, Literatura, Poesias às Maio 4, 2008 por José Roldão

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Saber onde está o tesouro não basta!

É preciso encontrar o caminho.

Tem que pisar no caminho.

Tem que ter os pés descalços,

Pois é preciso endurecer a pele!

É bom ter também os punhos fechados,

Pois é preciso também ser forte!

Ajuda muito ter os olhos bem abertos,

Pois o tempo insiste em fechá-los.

 

Um dia seremos todos vencidos,

Cansaremos as pálpebras

E um último bocejo se encarregará do resto.

 

Saber onde está o tesouro não basta.

É do mapa que mais precisamos.

DOSTOIÉVSKI - ORADORES PATÉTICOS

Publicado em De Outros Autores, Dostoiévski, Fragmentos, Literatura, Literatura Russa, Romance with tags , , , , , , às Abril 17, 2008 por José Roldão

dostoievski1 “Ficou tudo em silêncio às primeiras palavras do célebre advogado. A sala inteira tinha os olhos fixos nele. Começou com uma simplicidade persuasiva, mas sem a menor jactância. Nenhuma pretensão à eloqüência e ao patético. Era um homem que conversava na intimidade de um círculo de amigos. Tinha uma bela voz, forte, agradável, em que ressoava algo de sincero, de simples. Mas cada qual sentiu logo que o orador podia elevar-se ao verdadeiro patético, e tocar os corações com uma força desconhecida“‘.

[ in Fiódor M. Dostoiévski - Obra Completa, Volume IV, pág. 1.061. Os Irmãos Karamázovi – IV parte – L. XII. Editora Nova Aguilar S.A., 1995. ]

KAFKA - O LAÇO DIANTE DO ROSTO

Publicado em De Outros Autores, Fragmentos, Kafka, Literatura às Abril 16, 2008 por José Roldão

“É como quando alguém será enforcado. Se ele realmente é enforcado, morre e acaba tudo. Mas se tem de presenciar todos os preparativos para o enforcamento e só fica sabendo do indulto quando o laço pende diante de seu rosto, nesse caso ele talvez venha a sofrer a vida inteira por causa disso”.

[ Kafka – Carta ao Pai ]

GONÇALO M. TAVARES - UMA VIAGEM A PÉ

Publicado em Contos, De Outros Autores, Fragmentos, Gonçalo M. Tavares, Literatura, Literatura Portuguesa às Abril 12, 2008 por José Roldão

Capa Sr Valéry

O senhor Valéry andava sempre a pé. Muito rápido, com passinhos pequeninos. (Neste particular era parecido com o sr. Sommer, um vizinho).

Um dia o senhor Valéry precisou de se deslocar a um ponto afastado da cidade.

A pé demoraria dez horas. De comboio apenas vinte minutos.

Depois de muito pensar o senhor Valéry decidiu ir a pé. O senhor Valéry explicava:

- Quem me garante que o sítio onde chego após dez horas é o mesmo do que aquele que chego em vinte minutos?

E com mais convicção dizia:

- É evidente que não é o mesmo sítio.

E o senhor Valéry desenhou, então, duas setas de comprimento muito diferente

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E exclamou:

- Só um louco diria que o ponto final das duas setas é o mesmo.

Ganhando balanço o senhor Valéry continuou:

- E mesmo se eu for de comboio e esperar parado, no destino, 9 horas e 40 minutos, esse meu destino não será o mesmo daquele a que eu chego em dez horas de caminho a pé; já que eu estive lá, nesse sítio, mesmo que parado, 9 horas e 40 minutos a modificá-lo.

E começou, então, a andar, pois a decisão estava tomada.

Ao fim de vinte minutos de caminhada o senhor Valéry olhou para o relógio e pensou, de modo algo confuso:

- Se eu me encontrasse já no meu destino, este momento exacto seria o sítio onde eu chegaria.

Olhou à sua volta e disse:

- Porém, este não é ainda o meu destino.

Continuou, assim, a andar.

Mais tarde, contente, exclamou, ainda para si próprio:

- Ainda não cheguei, mas eu vou para outro sítio.

E como faltavam ainda cerca de 9 horas para chegar onde queria, o senhor Valéry continuou a andar, contente e feliz com os seus raciocínios, um pé a seguir ao outro, sempre ao mesmo ritmo, a andar em direcção ao seu destino.

- A mim ninguém me engana - murmurava o senhor Valéry, já a suar muito.

(O Senhor Valéry – Gonçalo M. Tavares)

VIRGÍNIA WOOLF - PERDER AMIGOS

Publicado em De Outros Autores, Fragmentos, Literatura, Literatura Inglesa, Virgínia Woolf with tags , , , às Abril 10, 2008 por José Roldão

VirginiaWoolf2 “As coisas se desprenderam de mim. Eu prolonguei certos desejos; eu perdi amigos, alguns para a morte… outros pela incapacidade de atravessar a rua.”

[ Virginia Woolf ]

FERNANDO PESSOA - NUVENS

Publicado em De Outros Autores, Fernando Pessoa, Fragmentos, Literatura, Literatura Portuguesa with tags , , às Abril 7, 2008 por José Roldão

“Nuvens… Hoje tenho consciência do céu, pois há dias em que não o olho mas sinto, vivendo na cidade e não na natureza que a inclui. Nuvens… São elas hoje a principal realidade, e preocupam-me como se o velar do céu fosse um dos grandes perigos de meu destino. Nuvens… Passam da barra para o Castelo, de Ocidente para Oriente, num tumulto disperso e despido, branco às vezes, se vão esfarrapadas na vanguarda de não sei o quê; meio-negro outras, se, mais lentas, tardam em ser varridas pelo vento audível; negras de um branco sujo, se, como se quisessem ficar, enegrecem mais da vinda que da sombra o que as ruas abrem de falso espaço entre as linhas fechadoras da casaria”.

(Fernando Pessoa – Livro do Desassossego – por Bernardo Soares)

DESERTO

Publicado em José Roldão, Literatura, Poesias with tags , , , às Abril 2, 2008 por José Roldão

Tenho um choro retido na garganta

Desses que ficam gritando encarcerados

Não cedo as chaves nem descanso os olhos

Que vigiam atentos qualquer tentativa de fuga

Tenho um nó apertado na lembrança

Desses que, se puxam, ficam mais apertados

Não cedo atenção nem dilato os poros

Que engelham a pele sentindo dor alguma

Sinto como se o tempo escoasse

Ralo abaixo de minha vida aberto

Secando toda reserva que em mim exista

Melhor mesmo que seque ‘inda que resista

Assim do cárcere e do laço me liberto

E não haveria dor nem fuga que me alcançasse

DILÚVIO

Publicado em José Roldão, Literatura, Poesias with tags , , , , , , às Março 28, 2008 por José Roldão

Turba-me a vista aquela paisagem

Há tanto guardada na arca da memória

Não foi bastante aquele dilúvio

Pois, de par e par, todos os meus instintos

Fechados comigo sofrendo a tempestade

Debateram-se nas histórias, sem escrúpulos

Algumas - invenções à flor-da-pele

Outras – memórias, realidades; quase nada

Por quarenta dias, arderam-me absurdos

Por quarenta noites, fingi que sonhava alucinado

Com quem aperta os olhos em apuros

Tendo por dentro o coração convulsionado

FERNANDO NAMORA - RETALHOS

Publicado em Fernando Namora, Fragmentos, Literatura Portuguesa, Romance with tags , , , , às Março 20, 2008 por José Roldão

“Há dias em que a melancolia chove dentro de nós como num pátio interior, atapetado de jornais velhos. Não se ouve, não se sente - mas rebrilha na sujidade densa. Eu estava num desses dias quando afastei a cortina e olhei pela janela a tarde que se ofuscara de repente, com pressa de se evadir da atmosfera enfastiada e, sobretudo, de um cenário sem alegria…”. (…)

“Mas em fechando a cortina tudo isso desaparecia: eis-me de novo isolado no gabinete fofo, de paredes que, a partir de certo momento, me davam a sensação irrespirável de uma espessura acolchoada onde tudo ficava retido: a fadiga, o silêncio…

(…)

[Fernando Namora - Retalhos da Vida de Um Médico - Segunda Série - excertos, pág 305; 14ª Edição. Livraria Bertrand]

FERNANDO PESSOA - SER POETA

Publicado em De Outros Autores, Literatura, Literatura Portuguesa, Poesias with tags , , , , , , às Março 19, 2008 por José Roldão

“Ser poeta não é uma ambição minha

É a minha maneira de estar sozinho”

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[ Fernando Pessoa - O Guardador de Rebanhos ]

novo blog: cidade solitária

Publicado em Avisos, Blogs, Contos, José Roldão, Literatura, Notícias, Poesias, Relatos, Religião with tags , , , , , , , às Março 12, 2008 por José Roldão

Estou com mais um blog, chamado: CIDADE SOLITÁRIA, neste link:

http://jroldao.wordpress.com/

O título, como alguns devem perceber, é inspirado na obra do escritor-médico-português Fernando Namora; uma coleção de narrativas que tem o mesmo nome. Aliás, Fernando Namora é um de meus autores preferidíssimos.

Qual o motivo para criar outro blog? Não sei mesmo porque, mas o Fragmentos de Tempo sempre me aprisiona para determinados assuntos. Tipo, não consigo publicar aqui - trava-me as mãos e os olhos - determinadas coisas; quase sempre coisas que sejam mais pessoais e diretas, opiniões minhas e observações cotidianas. No novo blog pretendo justamente me expor mais - sem, no entanto, descobrir-me muito - e publicar percepções mais cruas e diretas que possam ocorrer em meu cotidiano.

Certamente - muito, muito certamente mesmo (aliás, já ocorreu no primeiro relato) - é impossível pra mim não ficcionalizar algumas coisas, mesmo as mais triviais. Não sei se isso é dom ou cadeia invisível, mas até que me dá bastante prazer realizar tais distorções ou reparos.

Convido-os todos a assinarem o Cidade Solitária, seja para receberem via email ou RSS, e os aguardo com muita alegria nas visitas constantes que possam me conceder!

Bons Ventos!

José Roldão

FERNANDO PESSOA - QUANDO ELA PASSA

Publicado em De Outros Autores, Fernando Pessoa, Literatura, Literatura Portuguesa, Poesias with tags , , , às Fevereiro 25, 2008 por José Roldão

Quando eu me sento à janela

P’los vidros qu’a neve embaça

Vejo a doce imagem d’elia

Quando passa… passa…. passa…

Lançou-me a mágoa seu véu:

Menos um ser n’este mundo

E mais um anjo no céu.

Quando eu me sento à janela

P’los vidros qu’a neve embaça

Julgo ver imagem dela

Que já não passa… não passa. (1)

5.5.1902

(1) – João Gaspar Simões aventa que esta poesia escrita por Fernando Pessoa, aos 13 anos, em Durban ou nos Açores por ocasião da viagem então feita à terceira, terá sido inspirada pela morte recente de sua meia-irmã Madalena. Vida e Obra de Fernando Pessoa, ed. Livraria Bertrand, Lisboa, 2ª edição. Sem data, p. 74