Enfim, o Outono mete as mãos de vento a forçar passagem por entre janelas e portas, a invadir cozinhas e salas. Acendemos o lume. Entre as esfregas das mãos, a visão da lenha a arder provoca-nos suspiros sobre as promessas de verão não cumpridas [...]
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Muitos olhos. Eu tenho muitos olhos. Dois deles trago sempre comigo e os outros deixo-os guardados, pois já estão cheios de imagens, cansados, em repouso dentro da gaveta de um guarda-fatos, na memória.
Em algumas noites vou até lá, retiro os que estão em uso e meto uns a sorte para ver se ainda estão a funcionar perfeitamente. É preciso certo ritual antes de o fazer…
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Abro um saco repleto de fotografias como quem dá o primeiro passo para dentro de um túnel do tempo. Paredes apertadas, escuras (não vejo a luz, enganaram-me os relatos de quase-morte) e eu não sinto cheiro algum.
Seguro a primeira foto e percebo que o meu passado não me pesa nada: lembranças leves de fim de tarde numa casa colorida pelo sol quase a se pôr, móveis cor de cerejeira, tapetes com desenhos sem lógica em tons de vinho, branco e amarelo escuro, umas sandálias apertadas e meias brancas até os joelhos. Olho-me de cima a baixo e revejo o desenho da roupa bege com detalhes em castanho (lembra-me sempre o uniforme de um piloto de avião, excepto pela cor) e reparo na minha expressão desgastada por ter de fazer pose para sair bem no retrato: cabelo húmido para o lado, bochechas cheias de raiva e os olhos apertados de inquietação e ansiedade, os braços pendentes ao lado do corpo (meus brinquedos a espera e eu ali a ser posterizado numa impaciência suprema sem sentido algum), tudo a reflectir com perfeição os anos oitenta: uma espécie de fidelidade estética generalizada que nunca mais ocorreu nas décadas posteriores.
Uma vida assim resumida e um futuro a ser destilado no conta-gotas dos anos (as fotografias uns pedaços de silêncio que não me pesam quase nada, eu já disse?). Expressões faciais, objectos, luzes, imagens de um mutismo absoluto a sustentarem uma autoridade mnemónica incontestável (os retratos nos fazem calar como as pessoas que só de por os olhos em nós silenciam-nos, já repararam?)…
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Eu gastando tantas letras e a pensar que deve haver um limite no Infinito, visto que no infinito não há tempo e as coisas por lá todas terminadas, em sua forma definitiva. Jogassem-me lá e eu perguntava
— Olha, quantas letras eu escrevi?
No entanto, depois de voltar ao presente, se eu ainda vivo, com certeza mais angustiado, anotando letra por letra, uma cifra a crescer e eu com os dedos disciplinados, deixando passar apenas as palavras necessárias e indispensáveis, procurando resumir sentenças e nas sentenças capítulos inteiros, palavras curtas, sentidos longos, eu a encher as palavras como quem força a quantidade de coisas dentro de um saco pequeno quase a rebentar, cada saco um livro e eu todo cuidados a entregar aos leitores
— Perdoem-me, são apenas poesias
que a poesia deve ter sido inventada por alguém que de certeza andou pelo infinito e de lá para cá todo preocupado e mais inteligente que eu, mais habilidoso, a inventar a poesia para economizar as letras e ampliar os sentidos até não mais poder…
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Disse a minha mãe, agora ao almoço
— Lembro-me perfeitamente do gosto de um queijo que eu comi há quarenta anos na Igreja
então passei a lembrar dos gostos e cheiros que também guardo perfeitamente, dos quais basta uma palavra para que retornem ao nariz e à boca, ela continua
— Era um queijo que vinha em uma lata. Na época parecia-me que a lata levava cinco quilos de queijo, hoje não sei, devia ser um quilo, mas eu era pequena, hoje não sei…
Fiquei a pensar nessa questão da quantidade e do peso das coisas versus nosso tamanho e força que aumentam com o tempo, coisas que eu…
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Qual a idade do tempo? Qual não seria a alegria de assistir ao primeiro segundo de sua existência? E nós seres humanos, cativos do tempo, sem poder imaginar como seria antes desse primeiro segundo, o que havia, o que haveria de estar em semente na mente do Logos,
O Logos ali
(sempre o imaginei em um lugar sublimemente alto, inalcançável ainda, pois que antes do Verbo se fazer carne Ele só espírito e eu sem saber como situá-lo visto que o espírito é um não sei o quê que não se mede)
do imensuravelmente alto
— Fiat Lux
a imaginar como pode ter dito a célebre frase se para dizê-la leva-se algum tempo, pensando para com a minha consciência…
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Matei o meu marido sim senhor, e daí? Andava já ressequida pela vida, abandonada junto aos móveis da casa e
(casa? isto não se parece com uma)
já não esperava nada de ti Pedro Afonso, nada, pois só ouvia-te a chamar-me pelo nome quando chegavas bêbado já tarde da noite e não era bem tu que chamavas-me, era a fome ou algo dentro da tua barriga, um bicho que rosnava para mim
— Sónia
e se por acaso demorava-me por estar fazendo algo aos fundos da casa
(insisto que não se parece com uma)
vinhas-me já a berrar
(não tu, algo que vinha de dentro de ti, da tua barriga)
a bater-me, eu a correr e aqueles passos rápidos que custavam-me visto que sem vontade de atender-te, de olhar-te, de querer-te menos que aos móveis que não eram móveis, a sala que não era sala dentro de uma casa que não se parecia com uma: a minha vida contigo não dava nem uma frase de pôr naqueles pratos de pendurar em paredes de cozinha
(tão feios, tão cafonas)
daqueles que esquecemos a encherem-se de gordura para dar com eles anos depois caídos atrás da…
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“É preciso lembrarmo-nos de que, como a Europa é um todo (…), assim a literatura europeia é um todo, de que os diversos membros não podem florescer se a mesma corrente sanguínea não circular através de todo o corpo. A corrente sanguínea da literatura europeia é latina e grega – não como dois sistemas circulatórios, mas como um só, pois é através de Roma que deve reconstituir-se a nossa ascendência grega. Que medida comum de excelência temos em literatura, entre as nossas diversas línguas, que não seja a medida clássica.”
[T. S. Eliot, “O que é um clássico? (1944)” in Ensaios Escolhidos, Lisboa, Cotovia, 1992]
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Meu pai ensinou-me a jogar damas quando eu era ainda bem pequeno. Ganhou todas as partidas por anos a fio. Fui crescendo; no entanto não o vencia. Fiquei tão bom no jogo de damas que ninguém da minha rua queria mais jogar comigo, pois ganhava a todos. Só ao meu pai que não.
Certa noite, depois de jantarmos, ainda na copa
— Anda cá rapaz, vamos ver se me ganhas
Minha mãe lavava a louça na cozinha ao lado e o meu irmão com ela (…)
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Sozinho, durante a madrugada, olhando as casas e as ruas da minha janela, eu fico imaginando as pessoas dormindo. Olho para os postes, pontos de luz que deixam os caminhos em sépia (…)
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Ando cá fechado em minha torre, meio isolado do mundo em um momento de transição, daqueles em que são estendidas no varal notas de solidão querida, desejada, como se a única coisa que importasse fosse ruminar a vida em silêncio.
Há roupa para lavar, mas finjo que me esqueço; há-de haver um tempo certo para cada coisa, um momento específico, exato, então passo os dias tentando alcançá-lo, ruminando, e lembrei-me do sonho que tive faz algumas semanas, um sonho bom nas formas, nos cheiros, nas lembranças. E talvez ruminar a vida seja isto.
Voltava ao tempo de minha adolescência, mas era a consciência e a minha forma de hoje que lá estavam; ali ao lado (…)
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Chegar à aldeia (capital do mundo) e encontrar os amigos enevoados por causa do tempo e da distância, desanuviar as feições, forçar a rouquidão que é a rusga da pressa no falar e logo todas as vozes em uníssono saindo pela boca do Miguel
— Parece que foi ontem, pá
enquanto o outro que leva o mesmo nome que eu
— Pega o violão que já perdemos foi tempo
e que é fruto da mesma infância que a minha (apenas dos domingos na casa da tia Celeste, o que é quase o mesmo) a abrir os ouvidos ao passado, os acordes que ainda ecoavam pelas ruas de Trancoso
— Lembras-te?
(…)
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Acho que os cães entediam-se em certas madrugadas e põem-se a latir, resmungando para outros cães. Pode ser que exista uma linguagem (de certo que há) e percebo que eles se comunicam a outros mais distantes (ou se desentendem?) em alguma disputa indecifrável para nós, humanos.
Estão lá os cães a latir…
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— O que importa o lugar, Dane-se! Cale-se!, pois trago todo o peso do mundo comigo, minha filha está morta, se fosse viva dois mundos apoiavam-se em meus ombros mais a minha filhinha a bater-me, a gritar-me, jogando coisas e deixando marcas de suor nas paredes, os dedos dela a perfurarem o abdômen ferido e eu a cuidar inventando mil remédios, e eu forte, e eu mais feliz, a brigar com o tempo e a esquecer da morte (…)
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Existem pontes
São tantas
E o problema de existirem assim
Tantas
É que ficamos parados
(nos momentos decisivos)
A olhar para cada uma delas
Os olhos bem abertos
Às diversas possibilidades
E o problema de existirem assim
Tantas
É que ficamos perdidos
(e nos esquecemos das pontes, por instantes)
A pensar em cada uma delas
Depois
É preciso que alguém nos chame
De longe
(será que ouvimos?)
Pois já estaremos sozinhos
Às voltas com as idéias
(tantas!)
No labirinto que inventamos
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Caros amigos,
Estou agora com um domínio próprio e todo o conteúdo deste blog já foi transplantado para o mesmo. De agora em diante, vou publicar naquele endereço e só esporadicamente copiarei algo delá prá cá, a nível de manter este blog e nome, e também para que ninguém se perca no meio do caminho.
Gostaria muito que todos vocês continuassem a visitar este que vos escreve no novo blog.
Aos que não forem, deixo aqui meu imenso abraço e meu sincero agradecimento pelas vezes que visitaram este local, que é tão caro para mim.
http://cidadesolitaria.blogspot.com
Bons Ventos!
José Roldão.
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Nuno passava as tardes brincando quieto, em silêncio. Seus pais sempre dormiam após o almoço e ele ficava sozinho pela casa imensa. Quando somos pequenos todas as coisas parecem enormes. Ou será que vão encolhendo na medida em que crescemos? É de conhecimento público que nós é que crescemos, e na proporção em que isso acontece os espaços vão-nos escasseando. No final das contas, as casas são mesmo menores. Vemos que são assim. Pontos de vista… “Qual será a medida certa das coisas?”, perguntamo-nos.
Para Nuno, dormir à tarde era castigo. Não gostava. Quando entendiam que fazia alguma coisa errada (os adultos têm erros para tudo), levavam-no para deitar entre os dois, pai e mãe, e para quem visse a cena de um ponto de vista aéreo ficava parecendo uma pintura de uma família perfeita, um quadro. A menos que reparassem nos olhos úmidos do menino. “Em famílias perfeitas podem existir crianças com os olhos úmidos?”. Claro que pode! Não existem famílias perfeitas! Então, Nuno ficava assim quando o levavam para o meio deles na cama: com um brilho molhado e triste nos olhos. Deixemos bem claro que, para ele, sua família era perfeita, apesar do que acabamos de concluir agora há pouco. Nuno dava-se esse direito, mesmo sem pensar nisso.
Ele brincava de muitas coisas durante essas tardes. Desenhava (Nuno desenhava muito bem. Certa vez a mãe de um amigo seu da escola havia sugerido para a sua que o colocasse em aulas de desenho. Mas não o colocaram, não.) histórias de monstros vindos de outros planetas e naves espaciais que os combatiam. Era engraçado de se ver. Nuno fazia baixinho aquele barulho de explosões, de vôos rasantes e rabiscava aquele monstrengo pouco a pouco, até que todo ele estivesse escondido atrás de muitos rabiscos: era o fim do monstro. As naves também ficavam um pouco rabiscadas, mas era para dar veracidade às histórias. Outras vezes ele brincava com seus bonequinhos: dinossauros verdes, índios amarelos, robôs azuis e vermelhos. Aqui se faz necessária uma pequena descrição. Dentre todos eles, o que Nuno mais gostava de brincar era um robô que havia achado na rua. Não tinha mais nem pernas nem braços, apenas o tronco azul e a cabeça vermelha. Mas o quê? Era justo isso que o havia fascinado! Um robô já ferido de tantas batalhas! Aliás, esse robozinho (devia ter entre uns três a cinco centímetros de altura) também o havia ajudado. Depois de ter encontrado esse robô na rua, sempre que tinha de ficar deitado durante toda uma tarde de castigo o levava escondido em uma das mãos fechadas. Quando os pais dormiam (ele mantendo a força, numa grande batalha silenciosa, os olhos abertos para não ser vencido!) pegava o robô e criava histórias debaixo dos travesseiros. Eram cavernas escuras e frias (o ar-condicionado sempre estava ligado)! Também mexia nos lençóis, criando caminhos difíceis por onde sempre surgiam monstros invisíveis, muito mais difíceis de vencer. Quase invencíveis! Como podemos vencer os monstros que não vemos? “E se os vencêssemos todos? Como a batalha haveria de continuar?”. Ora! Quem disse que um dia todos os monstros serão vencidos? Para cada necessidade criamos um novo monstro! E muitas vezes os criamos assim: invisíveis! Existem batalhas que duram toda uma vida. “Como podemos vencer os monstros que não vemos?”.
E Nuno passava aquelas tardes que tinha de ficar preso à cama, brincando com o robô, como vínhamos contando. Temos de deixar bem claro que nem sempre saía vencedor das batalhas: algumas vezes acabava caindo no sono. Quem o visse assim, de olhos fechados e boca entreaberta, sem movimentos, e virasse um pouco mais os olhos e encontrasse um robô sem braços e pernas, soterrado por um imenso travesseiro, certamente acordaria a todos, mais que depressa. Só que, nas brincadeiras, sempre podemos recomeçar intactos, renovamos, como se alguma mágica poderosíssima nos fizesse abrir os olhos para nos dar a vida inúmeras vezes. Quando não estava de castigo (e ficava de castigo pouquíssimas vezes), brincava sobre o tapete da sala de jantar. Cada linha reta era uma estrada, cada desenho era um porto ou uma estação espacial, os pés da mesa eram obstáculos que davam graça aos vôos difíceis, que exigiam sempre manobras aprimoradas e perigosas, enfim, todo um mundo surgia nessa pequena gênese diária para que chegasse ao fim dos tempos assim que seus pais acordassem. E quando eles acordavam, ligavam a televisão. Sua mãe preparava um copo de café com leite (bem escuro, pois Nuno não gostava do leite) e um pãozinho com manteiga, para que ele pudesse comer enquanto assistia aos desenhos animados. “Mas não era Nuno que criava as histórias?”. Sim, era, mas só quando estava sozinho. Quando o vento do fim da tarde invadia a casa, quando sua mãe vinha lhe trazer o prato com os dedos brilhantes de manteiga e quando ligavam a televisão, não era preciso criar suas batalhas. Agora era o momento de aquele herói descansar, e assistir as batalhas e os monstros dos outros.
05/04/2008 – 15:56h.
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“Era uma livraria que vendia um único livro. Havia 100 mil exemplares numerados do mesmo livro. Como em qualquer outra livraria os compradores demoravam-se, hesitando no número a escolher”.
(Gonçalo M. Tavares – O Senhor Brecht, Editora Casa da Palavra, 1ª Edição)
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Só percebemos o momento
quando o buscamos no passado.
O presente à nossa volta entorpece-nos,
turva-nos os pensamentos.
É preciso pressa; agora.
Mais tarde,
quando tudo se tornar memória,
somos ainda capazes de retocar os acontecimentos.
Pegamo-los para nós; arrancamo-los do tempo.
Os que fazem isto com arte chamam-se poetas.
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e ele, que era duro, endureceu mais.
Informou da existência do cadáver
como quem relembra um pormenor.
Amava o pai, mas o coração é assim
(a lei da sobrevivência):
esconde-se quando o querem matar.
( 1 – Gonçalo M. Tavares, Editora Bertrand Brasil 2005)
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Uma insignificante sombra pousou sobre a mesa cor de tabaco. Quase não pude perceber a nuance, uma gradiente, que saltava de um lado para o outro, fugindo sistematicamente da minha mão incansável. Mentira. Cansava-se ao mesmo tempo em que meu braço: descansavam juntos, em uma trégua amigável e sem receios de que qualquer um dos lados quebrasse a regra improvisada. Ficaram assim até que o dia amanheceu e a sombra partisse imperceptivelmente, deixando minha mão solitariamente iluminada.
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Todos estavam reunidos no quarto-sala: aniversário. Como em toda reunião em que já não se tem muito o que dizer, logo iniciam-se as recordações de aventuras do tempo de criança. O mais curioso é que são contadas as mesmas histórias, sempre. Escangalhavam-se de rir…
Eu, sentado ao chão, prestando certa atenção dividida para ver se algum pormenor seria acrescentado nas repetições, comecei a ouvir outros relatos e considerações vindos do grupo vizinho de conversas: as mulheres. Uso aqui o termo mulheres, mas tanto estas quantos os homens eram todos muito novos, nos inícios dos vinte anos. Elas falavam de bolsas, novidades, espantos, e vez ou outra interferiam nas lembranças dos rapazes; riam-se, e depois fechavam-se em seu grupo novamente. Havia no ar a mistura das vozes altas dos dois grupos, causando-me certo entorpecimento.
Foi uma noite repetida. A mesma de outras reuniões com esse mesmo grupo. Deu-ma cá uma sensação de estar suspenso no tempo: era como voltar o vídeo alternando apenas o ambiente, mas mantendo as falas e os personagens.
Não ter memória é o máximo da solidão. Possuir memórias não compartilhadas, diferentes do grupo do qual se está participando, é como estar numa ilha cercado de impressões alheias por todos os lados. Fica-se a olhar o mar, pronto para acenar ao primeiro navio que o atrevesse.
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E o silêncio rompeu-se: foi levada para a UTI. Não se sabe se de lá retorna (e por isso julgo aquelas cenas de morte previamente anunciada, sentida), mas bem pode ser, quem sabe? Minha mãe, ao telefone internacional, disse-me: «Eu estava já tão triste! Na UTI, mesmo que mal, ainda há esperança…». A vizinha contou-me: «Não morreu ainda, mas antes de ser internada já estava por demais agressiva…».
A mulher sofre de Mal de Alzheimer, uma doença degenerativa do cérebro, e que causa perda da memória episódica. É certo, já não se recordava de quase ninguém e, julgo eu, possa se dever a isto que se tenha tornado agressiva. Será que sem memória conseguiríamos ser bons para com os outros? Que outros? Não ter memória é o máximo da solidão…
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Paris, 11 Nov (Lusa) – Gonçalo M. Tavares assinou um contrato com a editora francesa Viviane Hamy para a publicação de “sete ou oito livros”, entre os quais “uma tetralogia de romances”, disse o escritor à Lusa.
A editora Viviane Hamy, que publicou o romance “Jerusalém” e “O Senhor Valery”, parece ter uma especial queda para as letras portuguesas ou relacionadas, tendo editado “O incêndio do Chiado”, de François Vallejo, passado na capital portuguesa.
Lisboa, aliás, será o cenário de algumas dessas obras, revelou Gonçalo M. Tavares à Lusa. “Lisboa é uma cidade extraordinária. Tenho um projecto de fazer uma ficção inspirada em Lisboa”, disse o escritor sobre o próximo trabalho que, possivelmente, incluirá também as cidades de Estocolmo, Helsínquia, Nova Iorque e Buenos Aires.
Gonçalo M. Tavares, apontado pela crítica francesa como “a revelação portuguesa”, exprimiu o desejo de falar sobre as suas obras recentemente traduzidas para francês, “Jérusalem” e “O Senhor Valéry”, para dar “a conhecer diferentes mundos e linhas de escrita diferentes”.
LEIA NA ÍNTEGRA AQUI!
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Esta semana olhei pela janela de manhã e vi que uma ambulância estava parada à porta da casa do outro lado da rua. Eu sabia de antemão que a mulher estava doente e já não reconhecia aos amigos. Não houve suspense, apenas a constatação serena dos fatos.
Um assistente pegou uma maca e a levou embaixo do braço; entrou na casa. Até esse instante não havia aparecido ninguém lá de dentro, apesar da porta já estar aberta. Coloquei-me logo atrás dos vidros fumês da janela e a meias cortinas, aguardando. Alguns momentos e vejo o corpo da mulher que vem amarrado na maca. Corpo amarelo, mole, com todas as características aguardadas. Que a morte é a ausência da vida, todos sabem; mas só percebemos o alcance desta afirmativa quando nos deparamos com um morto de fato. Parece-me impossível não distinguir um ser vivo de outro já sem vida. Redundantemente: falta-lhe algo.
Pois a mulher foi colocada ambulância à dentro como se fosse uma coisa já sem sentido. A partir de então, reparei que a filha dirigia-se à cabine do motorista, chorando; e por fim tomava assento. O marido, que tantos cuidados e dedicação havia dispensado à esposa doente por tanto tempo, chorava junto à porta com um lenço branco que às vezes ia à boca e noutras aos olhos.
A ambulância começou a sair e o homem, tantos anos casado com a morta, ficou olhando o carro distanciar-se lentamente. Depois entrou muito devagar e de cabeça baixa, fechando o portão atrás de si. Vi, momentos antes em seus olhos, a certeza de que estava sozinho; que, enquanto a ambulância saía devagar e virava a esquina, ele já sabia que não veria mais a mulher e que nunca mais ela entraria naquela casa; na qual ele, a partir de agora, ficava só. Vi tudo isto como se fosse um filme triste; todas as cenas ensaiadas à perfeição, aquela perfeição que só é alcançada quando se contracena com o surgimento da vida ou com a morte.
Abri novamente as janelas, as cortinas e uma fresta na lembrança, por onde entram vez ou outra estas cenas. O resto foi silêncio.
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Existem diversas explicações para o que seria o ofício de escrever, mas aqui, nesta entrevista com José Saramago, no Jornal de Notícias, encontrei um trecho que me chamou a atenção, justo por conter também um pouco da relação deste ofício com a vida. A analogia é bem interessante.
Então, para si, escrever é um ofício que se confunde com a vida…
A literatura, como trabalho que é, enquanto se pode fazer, faz-se. Acabando-se a vida, acaba-se o trabalho. E, se esse trabalho tem a ver com literatura, é cortado nesse momento. No fundo, é como uma ave que é abatida em pleno voo. Vai voando e julga que vai chegar àquela árvore, onde quer pousar, mas, de repente, há um tiro de um caçador que a deita abaixo. A vida é isto.
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Este vento frio e úmido traz-me saudades das pedras geladas e cobertas de musgos das aldeias de Portugal. Quando eu passava as mãos sobre o verde incrustado por entre as pedras, sentia como se me aplainasse a pele, como se o tempo roçasse devagar brincando com meus poros, estes que me arrepiam agora, neste exato instante, numa prece de retorno.
Lembro-me bem da neblina descolorindo as casas, e gostava de atravessá-la como quem dispensa as pontes, pois aprendeu a voar, assim, de repente, como em uma dança de sonho.
Caíram agora à minha frente, por um fio desenrolado da memória, algumas folhas de eucalipto que lembro ter posto sob o travesseiro para que me purificassem a noite do extremo silêncio da ausência urbana; porém, noite esta, que trazia as conversas de animais obscuros, cortadas ao meio pelo som de uma moto a riscar com as unhas a auto-estrada, desfazendo todo o encanto, para que o silêncio mais uma vez arrebentasse em seguida, numa espécie de ciclo inevitável.
É deste silêncio que escrevo. Um silêncio de saudade relutante, inesquecível.
[ José Roldão ]
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Pedro insistia em bater com sua cabeça na parede, ou melhor, no muro à sua frente. Pedro, que aqui quer dizer também ‘pedra’, era insistente, porém o muro resistia. E ficava ali: batendo e se machucando, ferindo o rosto e reabrindo as feridas de outros dias. Algumas vezes identificava-se com Sísifo, mas o tempo passava…
Seria mais fácil saltar ou dar a volta àquele muro (sempre é mais fácil fazer assim) e seguir adiante sem dor nem cicatrizes. Na verdade, esse é um procedimento padrão: saltar os muros, quando os mesmos se apresentam no caminho, ou fazer um caminho mais longo, solitário, dando a volta e seguindo por outra estrada.
Seu medo maior era que o muro o vencesse. O cansaço poderia fazer com que Sísifo viesse a ser esmagado, quando estivesse para chegar mais uma vez ao topo. Mas ele não era Sísifo (muito menos o queria ser), era Pedro. O que quer dizer: pedra.
[ José Roldão ]
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