O senhor Valéry andava sempre a pé. Muito rápido, com passinhos pequeninos. (Neste particular era parecido com o sr. Sommer, um vizinho).
Um dia o senhor Valéry precisou de se deslocar a um ponto afastado da cidade.
A pé demoraria dez horas. De comboio apenas vinte minutos.
Depois de muito pensar o senhor Valéry decidiu ir a pé. O senhor Valéry explicava:
- Quem me garante que o sítio onde chego após dez horas é o mesmo do que aquele que chego em vinte minutos?
E com mais convicção dizia:
- É evidente que não é o mesmo sítio.
E o senhor Valéry desenhou, então, duas setas de comprimento muito diferente
E exclamou:
- Só um louco diria que o ponto final das duas setas é o mesmo.
Ganhando balanço o senhor Valéry continuou:
- E mesmo se eu for de comboio e esperar parado, no destino, 9 horas e 40 minutos, esse meu destino não será o mesmo daquele a que eu chego em dez horas de caminho a pé; já que eu estive lá, nesse sítio, mesmo que parado, 9 horas e 40 minutos a modificá-lo.
E começou, então, a andar, pois a decisão estava tomada.
Ao fim de vinte minutos de caminhada o senhor Valéry olhou para o relógio e pensou, de modo algo confuso:
- Se eu me encontrasse já no meu destino, este momento exacto seria o sítio onde eu chegaria.
Olhou à sua volta e disse:
- Porém, este não é ainda o meu destino.
Continuou, assim, a andar.
Mais tarde, contente, exclamou, ainda para si próprio:
- Ainda não cheguei, mas eu vou para outro sítio.
E como faltavam ainda cerca de 9 horas para chegar onde queria, o senhor Valéry continuou a andar, contente e feliz com os seus raciocínios, um pé a seguir ao outro, sempre ao mesmo ritmo, a andar em direcção ao seu destino.
- A mim ninguém me engana - murmurava o senhor Valéry, já a suar muito.
(O Senhor Valéry – Gonçalo M. Tavares)




