Archive for Maio 2008
MUITA FUMAÇA ENTRE O POR DO SOL E EU
Muita fumaça entre o por do sol e eu
Ele quase que já se foi
Eu forço a vista como quem range os olhos
Muita fumaça entre o por do sol e eu
As luzes de um avião me encaram
Está escuro aqui
É difícil de me ver escondido dentro de uma janela
Ao horizonte tudo vermelho
O sol fere e sangra a noite que insiste
Todos sabem que não há como vencer
O sol insiste todos os dias
Melhor que os homens
Nós enchemos o céu com fumaça
Depois temos de engelhar o rosto
Mas não mostramos os dentes
Temos culpa espalhada na pele
Temos um sorriso discreto
E um céu da boca carregado
O avião já se foi
Foi difícil de me ver aqui escondido
Uma janela é boa coisa de se ter
Quando se quer ficar oculto
Agora todas as luzes da cidade estão acesas
São como estrelas caídas
Mais estrelas pelas ruas do que no céu
Penduradas em postes
Dentro das casas
Um isqueiro que se acende na esquina
O cigarro numa boca que se distancia
Estrela cadente que vai
Na boca de um homem
Muita fumaça entre o mundo e eu
E a noite venceu mais uma vez
Todos sabem que não há como vencer
Mas o sol insiste todos os dias
Melhor que os homens
[ José Roldão ]
POLONAISE, DE CHOPIN
Ouvindo Chopin. É possível imaginar uma biblioteca escura, uma única janela ao fundo, um homem sentado de frente para essa mesma janela, e nós a olharmos, observando-o ao fundo, vendo apenas suas costas. Não parece bem um homem, mas apenas a sombra de um homem que pensa e sente além, que se deixa levar pela obra do exímio pianista. Certamente o piano de Chopin preenche todo o ambiente, com suficiente e eficaz volume.
E eu fico aqui, observando essa cena, também me deixando levar, ouvindo Polonaise, de Chopin.
[ José Roldão ]
Posted in CIDADE SOLITÁRIA
A PACIENTE
O médico toca com os dedos a barriga da mulher grávida. Seus olhos cruzam com os da paciente por alguns instantes. Ela parece estar bem de saúde; e também o bebê. A mulher segura a mão do médico, separa-lhe os dedos e entrelaça com os seus: «Doutor, uma vida quer rebentar de dentro de mim».
[ José Roldão ]
INVERSÃO DE PAPÉIS
Dor de cabeça. Uma dor que foge, correndo em círculos dentro do claustrofóbico espaço craniano. Tenho dó dessa dor. Coitada! Presa, batendo desesperada, procurando uma saída! Decido não interferir. Isso quer dizer que sou pior que a dor de cabeça: vou deixá-la lá dentro, prisioneira, sofrendo. É bom inverter os papéis de vez em quando.
[ José Roldão ]
O MAPA
Saber onde está o tesouro não basta!
É preciso encontrar o caminho.
Tem que pisar no caminho.
Tem que ter os pés descalços,
Pois é preciso endurecer a pele!
É bom ter também os punhos fechados,
Pois é preciso também ser forte!
Ajuda muito ter os olhos bem abertos,
Pois o tempo insiste em fechá-los.
Um dia seremos todos vencidos,
Cansaremos as pálpebras
E um último bocejo se encarregará do resto.
Saber onde está o tesouro não basta.
É do mapa que mais precisamos.
[ José Roldão ]




