Fragmentos de Tempo

Ficcionar é tornar o mundo artisticamente aceitável

Archive for Julho 2008

As Tardes de Nuno Mendes

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Nuno passava as tardes brincando quieto, em silêncio. Seus pais sempre dormiam após o almoço e ele ficava sozinho pela casa imensa. Quando somos pequenos todas as coisas parecem enormes. Ou será que vão encolhendo na medida em que crescemos? É de conhecimento público que nós é que crescemos, e na medida em que isso acontece os espaços vão-nos escasseando. No final das contas, as casas são mesmo menores. Vemos que são assim. Pontos de vista…

«Qual será a medida certa das coisas?», perguntamo-nos.

[ José Roldão ]

Escrito por José Roldão

Julho 30, 2008 em 12:02 am

Os Livros e a Viagem

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Estava agora, neste instante (e não escrevo no passado, mas sim neste eterno presente), observando os livros em minha frente. Vertiginosamente atacaram-me pensamentos não tão absurdos quanto os que me acometem em sonhos – e o leitor deve acreditar que meus sonhos são mundos completos, inclusivos, e podem tanto alegrar quanto me agarrar em seus labirintos.

Perdi-me nas possibilidades infinitas dentro de cada um dos volumes e meticulosamente sondei-os através de meus pensamentos, que atravessaram capas e autores. Vi o universo. Margeei estrelas e senti o fluxo incessante que corre nas entrelinhas. Desmanchei-me em pontos luminosos de conhecimento – aqueles que encontramos nas asas das mariposas – e fui atingido em cheio pela percepção completa e indizível desse instante.

Não me recordo como retornei a este mundo. Posso mesmo ainda estar sonhando, talvez. Mas não importa, pois, desde que me deixei levar naquelas asas, certamente nunca serei o mesmo. E se não fui, posto que agora eu sou novamente, nada há para recordar. Deve existir apenas o viver, de agora em diante.

[ José Roldão ]

Escrito por José Roldão

Julho 29, 2008 em 11:55 pm

Banho, Chuva e Café na Janela

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Fim de tarde. A chave gira na fechadura. Chega a casa após mais um dia de trabalho e não pensa em outra coisa a não ser o banho. Depois: um café na janela. Sempre preferiu os dias chuvosos, aquela chuvinha fina que não passa.

O banho. Sente a água morna cair sobre a cabeça e faz uma rápida e simples analogia com a chuva lá fora. Nenhuma imagem ou quadro mental aprimorado, apenas um pensamento passageiro, sem sentimentos – uma ponte.

Água na chaleira. Um. Dois minutos… Colherinha girando na xícara: sentido horário. Não liga para superstições, o sentido é apenas um hábito, reflexo de tantas vezes já ter olhado para o relógio durante o dia. Sentidos? Coloca uma cadeira rente à janela, apóia os braços e finge descobrir que já escureceu, enfim! Nenhuma outra satisfação programada além de tomar um café debruçado na janela e sentir o vento úmido da noite.

Leva a xícara até a boca bem devagar, olhando fixamente para a espuma marrom grudada nas bordas – neste momento a boca relaxa. “Um bom café solúvel”, ele pensa. Pensamentos? Não. Apenas pontes.

[ José Roldão ]

Escrito por José Roldão

Julho 29, 2008 em 11:48 pm

Albert Camus – Sobre o Exílio

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«Sim, era realmente o sentimento do exílio esse vazio que trazíamos constantemente em nós, essa emoção precisa, o desejo irracional de voltar atrás ou pelo contrário, de acelerar a marcha do tempo, essas flechas ardentes da memória»

«Experimentava assim o sofrimento profundo de todos os prisioneiros e de todos os exilados, ou seja, viver com uma memória que não serve pra nada»

[ Albert Camus - A Peste. Págs. 66, 67 e 68 - 12ª Edição 1999, Editora Record ]

Escrito por José Roldão

Julho 27, 2008 em 1:55 am

Juan Ramón Jiménez – A Viagem Definitiva

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Ir-me-ei embora. E ficarão os pássaros
Cantando.
E ficará o meu jardim com sua árvore verde
E o seu poço branco.

Todas as tardes o céu será azul e plácido,
E tocarão, como esta tarde estão tocando,
Os sinos do campanário.

Morrerão os que me amaram
E a aldeia se renovará todos os anos.
E longe do bulício distinto, surdo, raro
Do domingo acabado,
Da diligência das cinco, das sestas do banho,
No recanto secreto de meu jardim florido e caiado
Meu espírito de hoje errará nostálgico…
E ir-me-ei embora, e serei outro, sem lar, sem árvore
Verde, sem poço branco,
Sem céu azul e plácido…
E os pássaros ficarão cantando.

[ Juan Ramón Jiménez ]

Escrito por José Roldão

Julho 25, 2008 em 3:39 am

Confissões: Vergonha do Pão Com Manteiga na Escola

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HOJE, lembrei-me de uma coisa ridícula: vergonha de pão com manteiga, embrulhado em papel de padaria.

Estudei por dez anos em uma escola classe média-alta, a mais cotada daquela época. Uma escola católica, método franciscano de ensino, com as adicionais aulas de religião, música, coral, artes e educação para o lar, isto é,  aulas de bons modos, etiqueta. Escola cujas mensalidades eram de alto-custo.

Eu tinha vergonha de levar merenda de casa. Minha mãe costumava preparar um pão com manteiga e o embrulhava no próprio papel que vinha da padaria. O embrulho sempre ficava um pouco engordurado.

A imensa maioria dos alunos levava dinheiro para comprar o «Pão Alemão», que era feito na própria cantina da escola.

Creio que o nome do pãozinho tem a ver com as freiras que dirigiam o colégio, pois eram todas de origem alemã. As irmãs apenas comandavam a escola, pois todos os professores eram contratados, eram professores que tinham, em sua maioria, estudado na própria escola quando crianças. Muitos desses professores eram até mesmo filhos de ex-alunos do local, ou seja, existia uma espécie de tradição ou sentido de família bem evidente.

Quando chegava a hora do recreio, eu procurava descer sempre afastado dos colegas de sala. Ia eu com meu embrulho do pão com manteiga (engordurado), escondido ou apertado em uma das mãos. Procurava um canto mais afastado do pátio imenso e com diversos «ambientes» e comia quase reprimido em um canto qualquer. Cheguei mesmo,  algumas vezes, a passar o recreio inteiro sem comer o pão, por não ter encontrado oportunidade para me ocultar ou me perder na multidão dos alunos. Em outras, retornava com o pão escondido para a sala e, discretamente, o colocava de volta na pasta. Era uma coisa que me perturbava imensamente e, certos dias, chegava mesmo a ser doloroso.

Revivendo essas cenas e os meus sentimentos durante esses acontecimentos, que vieram à superfície espontaneamente, senti asco, desprezo, repulsa por, sem motivos, ter sido tão vaidoso ou soberbo em um assunto de tão pequena monta, tão insignificante diante de todos os privilégios que tive e dos valores sob os quais eu fui criado.

Essas coisas ficaram escondidas em mim por todos esses anos, nunca me havia lembrado disso. Resolvi confessá-los para purgar um pouco essa vergonha mesquinha e inusitada.

Posso finalizar com o seguinte: como eu era ridículo!

[ José Roldão ]

Escrito por José Roldão

Julho 25, 2008 em 2:25 am

MATEMATICAMENTE FALANDO…

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Sentimo-nos exaustos. São muitos os dias se contarmos desde o início de cada um. Junte-se os dois e a matemática do tempo particular exaspera-se. Por isso equacionamos as duas vidas. Não se sabe mais ao certo para que lado fica a saída do labirinto, pois rompeu-se o Fio de Ariadne.

Com o pedaço que nos sobrou nas mãos, pensamos seriamente enlaçar os dedos. Porém o Minotauro ainda nos assusta. Estamos a ver se ele existe, de fato.

[ José Roldão ]

Escrito por José Roldão

Julho 23, 2008 em 1:07 am

DOIS GATOS

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Fui dar aulas. No caminho de ida, perto de casa ainda, olhei para a rua e vi dois gatinhos comendo os restos de algum animal que havia sido atropelado. Naquela rua passam muitos veículos, pois é passagem dos carros que saem da Rod. Presid. Dutra e vão pegar o viaduto, afim de fazer o retorno. Estranhei que os gatinhos estivessem em meio a rua, tranquilamente comendo aqueles restos, e ainda estivessem vivos. Parei e fiquei observando. Em minutos vem um carro e desvia por pouco. Os gatos nem esboçaram qualquer movimento, ficaram ali, como se nada existisse à volta.

Mais um pouco e vem um caminhão. O motorista tenta passar sobre os gatos, mas de uma maneira que não os atropelasse, passando com o meio do caminhão. Quando já havia passado a metade do veículo, eis que os gatos se assustam e voltam pra calçada. Um deles consegue chegar ileso, o outro, porém, atravessa e é atropleado. Duas rodas duplas do caminhão passam por cima dele: nem um ruído, nem um miado. Apenas isso e fica o gato estendido, destroçado em parte.

Atravessei e fui ver de perto. Estava vivo segundos antes, agora era como os restos que há pouco comia. Segui adiante. Procurei o gato sobrevivente, mas nem sinal. Andei mais um pouco e tornei a olhar para trás: lá estava o sobrevivente indo para o mesmo lugar onde o outro jazia atropelado. Burro! Era como se nada houvesse acontecido, muito menos parecia fazer alguma diferença o outro ali estendido e vazado junto aos restos de antes. Eu havia visto algumas vísceras do atropelado espalhadas ao redor, e agora imaginava que o outro, provavelmente seu irmão, poderia estar comendo carne de sua carne. Por pouco tempo, pois, se ali estava agora, daqui há pouco teria a mesma sorte do outro gatinho.

Hoje, depois de dois dias, passei novamente pelo mesmo local. Não havia nada além de uma mancha no asfalto. Fico pensando que um dos gatos, porque eu o havia visto morrer, estava de fato morto; o outro, aquele sobrevivente que insistia em abusar da pouca sorte, esse eu não vi morrer, apesar de ser bem provável que tenha ocorrido, contudo, nunca saberei se de fato acabou tendo o mesmo fim. Pode parecer coisa boba, mas, sinceramente, gostaria muito de saber do destino daquele gato que, por não o ter visto salvar-se ou não, permanece em minha memória, suspenso.

[ José Roldão ]

Escrito por José Roldão

Julho 23, 2008 em 1:04 am

O Silêncio do Mundo e o Nosso Barulho

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Estava pesquisando sobre Thomas Merton e me deparei com um blog muito interessante, o «Reflexões de Thomas Merton», do qual tomei a liberdade de copiar este excerto:

O silêncio do mundo e o nosso barulho

“Os que amam o ruído que fazem são impacientes com o resto. Desafiam constantemente o silêncio das florestas, das montanhas e do mar. Passeiam com suas máquinas pela floresta silenciosa, em todas as direções, cheios de medo de que um mundo calmo os acuse de vazios. A pressa da sua velocidade, a pretexto de um fim, simula ignorar a tranqüilidade da natureza. O avião ruidoso, por sua trajetória, por seu estrondo, por sua força aparente, por um momento parece negar a realidade das nuvens e do céu. Vai-se o avião, fica o silêncio do céu. Afasta-se ele, a tranqüilidade das nuvens permanece. O silêncio do mundo é que é real. O nosso barulho, os nossos negócios, os nosso planos e todas as nossas fátuas explicações sobre o nosso barulho, negócios e planos, tudo isso é ilusão.”

No Man is an Island, de Thomas Merton
(Harcourt Brace Jovanovich, Publishers, New York), 1955. p. 257

No Brasil: Homem algum é uma ilha, (Verus Editora, Campinas), 2003. p. 216

Escrito por José Roldão

Julho 23, 2008 em 12:00 am

PLANÍCIES

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Planícies. Cúmulo do estar sozinho. Existe maior sentimento de solidão do que estar em meio à planície?

Todos os lados são paredes móveis de vento; é onde o céu adquire seu maior peso. Ao mesmo tempo, não existe céu mais belo, nem sol tão visível, nem lua mais presente, nem nuvens mais deslumbrantes.

Pode-se imaginar um escritor sozinho, em uma planície, sentado em frente ao seu computador escrevendo. Acontece em todo lugar que ele escreve. Todo escritor deve carregar sua planície particular. E lá que ele escreve: na planície. Se observá-lo de longe, pelo que escreve, sem perturbá-lo, certamente ele vai deixar escapar um sorriso de lado nos lábios. Assim…

[ José Roldão ]

Escrito por José Roldão

Julho 6, 2008 em 2:10 am