HOJE, lembrei-me de uma coisa ridícula: vergonha de pão com manteiga, embrulhado em papel de padaria.
Estudei por dez anos em uma escola classe média-alta, a mais cotada daquela época. Uma escola católica, método franciscano de ensino, com as adicionais aulas de religião, música, coral, artes e educação para o lar, isto é, aulas de bons modos, etiqueta. Escola cujas mensalidades eram de alto-custo.
Eu tinha vergonha de levar merenda de casa. Minha mãe costumava preparar um pão com manteiga e o embrulhava no próprio papel que vinha da padaria. O embrulho sempre ficava um pouco engordurado.
A imensa maioria dos alunos levava dinheiro para comprar o «Pão Alemão», que era feito na própria cantina da escola.
Creio que o nome do pãozinho tem a ver com as freiras que dirigiam o colégio, pois eram todas de origem alemã. As irmãs apenas comandavam a escola, pois todos os professores eram contratados, eram professores que tinham, em sua maioria, estudado na própria escola quando crianças. Muitos desses professores eram até mesmo filhos de ex-alunos do local, ou seja, existia uma espécie de tradição ou sentido de família bem evidente.
Quando chegava a hora do recreio, eu procurava descer sempre afastado dos colegas de sala. Ia eu com meu embrulho do pão com manteiga (engordurado), escondido ou apertado em uma das mãos. Procurava um canto mais afastado do pátio imenso e com diversos «ambientes» e comia quase reprimido em um canto qualquer. Cheguei mesmo, algumas vezes, a passar o recreio inteiro sem comer o pão, por não ter encontrado oportunidade para me ocultar ou me perder na multidão dos alunos. Em outras, retornava com o pão escondido para a sala e, discretamente, o colocava de volta na pasta. Era uma coisa que me perturbava imensamente e, certos dias, chegava mesmo a ser doloroso.
Revivendo essas cenas e os meus sentimentos durante esses acontecimentos, que vieram à superfície espontaneamente, senti asco, desprezo, repulsa por, sem motivos, ter sido tão vaidoso ou soberbo em um assunto de tão pequena monta, tão insignificante diante de todos os privilégios que tive e dos valores sob os quais eu fui criado.
Essas coisas ficaram escondidas em mim por todos esses anos, nunca me havia lembrado disso. Resolvi confessá-los para purgar um pouco essa vergonha mesquinha e inusitada.
Posso finalizar com o seguinte: como eu era ridículo!
[ José Roldão ]





Vc não era ridículo . Tb senti a mesma vergonha no Ginásio MOdelo em Salvador, colégio de meninas ricas. Eu filha de uma uma viúva, levava pão com manteiga e morria de vergonha de comer ”a seco”, pois enquanto minhas colegas tomavam coca cola, o pão descia arranhando minha garganta.
naquela época o único sentimento que podíamos ter era mesmo vergonha.
Hj sabemos que éramos privilegiados pq nossas mães tinham o carinho de preparar nosso lanche e eu demorei mais tempo evitando esa droga, a coca cola.
Enfim, superamos essa bobagem…
É mesmo, você tem razão. Éramos ridículos, mas precisamos do olhar de hoje para percebê-lo.
Talvez não fôssemos… Talvez sejamos mais ridículos agora. *rs
Bons Ventos!