Archive for the ‘Contos’ Category
Mudança e novo endereço!
Caros amigos,
Estou agora com um domínio próprio e todo o conteúdo deste blog já foi transplantado para o mesmo. De agora em diante, vou publicar naquele endereço e só esporadicamente copiarei algo delá prá cá, a nível de manter este blog e nome, e também para que ninguém se perca no meio do caminho.
Gostaria muito que todos vocês continuassem a visitar este que vos escreve no novo blog.
Aos que não forem, deixo aqui meu imenso abraço e meu sincero agradecimento pelas vezes que visitaram este local, que é tão caro para mim.
Bons Ventos!
José Roldão.
As tardes de Nuno Mendes
Nuno passava as tardes brincando quieto, em silêncio. Seus pais sempre dormiam após o almoço e ele ficava sozinho pela casa imensa. Quando somos pequenos todas as coisas parecem enormes. Ou será que vão encolhendo na medida em que crescemos? É de conhecimento público que nós é que crescemos, e na proporção em que isso acontece os espaços vão-nos escasseando. No final das contas, as casas são mesmo menores. Vemos que são assim. Pontos de vista… “Qual será a medida certa das coisas?”, perguntamo-nos.
Para Nuno, dormir à tarde era castigo. Não gostava. Quando entendiam que fazia alguma coisa errada (os adultos têm erros para tudo), levavam-no para deitar entre os dois, pai e mãe, e para quem visse a cena de um ponto de vista aéreo ficava parecendo uma pintura de uma família perfeita, um quadro. A menos que reparassem nos olhos úmidos do menino. “Em famílias perfeitas podem existir crianças com os olhos úmidos?”. Claro que pode! Não existem famílias perfeitas! Então, Nuno ficava assim quando o levavam para o meio deles na cama: com um brilho molhado e triste nos olhos. Deixemos bem claro que, para ele, sua família era perfeita, apesar do que acabamos de concluir agora há pouco. Nuno dava-se esse direito, mesmo sem pensar nisso.
Ele brincava de muitas coisas durante essas tardes. Desenhava (Nuno desenhava muito bem. Certa vez a mãe de um amigo seu da escola havia sugerido para a sua que o colocasse em aulas de desenho. Mas não o colocaram, não.) histórias de monstros vindos de outros planetas e naves espaciais que os combatiam. Era engraçado de se ver. Nuno fazia baixinho aquele barulho de explosões, de vôos rasantes e rabiscava aquele monstrengo pouco a pouco, até que todo ele estivesse escondido atrás de muitos rabiscos: era o fim do monstro. As naves também ficavam um pouco rabiscadas, mas era para dar veracidade às histórias. Outras vezes ele brincava com seus bonequinhos: dinossauros verdes, índios amarelos, robôs azuis e vermelhos. Aqui se faz necessária uma pequena descrição. Dentre todos eles, o que Nuno mais gostava de brincar era um robô que havia achado na rua. Não tinha mais nem pernas nem braços, apenas o tronco azul e a cabeça vermelha. Mas o quê? Era justo isso que o havia fascinado! Um robô já ferido de tantas batalhas! Aliás, esse robozinho (devia ter entre uns três a cinco centímetros de altura) também o havia ajudado. Depois de ter encontrado esse robô na rua, sempre que tinha de ficar deitado durante toda uma tarde de castigo o levava escondido em uma das mãos fechadas. Quando os pais dormiam (ele mantendo a força, numa grande batalha silenciosa, os olhos abertos para não ser vencido!) pegava o robô e criava histórias debaixo dos travesseiros. Eram cavernas escuras e frias (o ar-condicionado sempre estava ligado)! Também mexia nos lençóis, criando caminhos difíceis por onde sempre surgiam monstros invisíveis, muito mais difíceis de vencer. Quase invencíveis! Como podemos vencer os monstros que não vemos? “E se os vencêssemos todos? Como a batalha haveria de continuar?”. Ora! Quem disse que um dia todos os monstros serão vencidos? Para cada necessidade criamos um novo monstro! E muitas vezes os criamos assim: invisíveis! Existem batalhas que duram toda uma vida. “Como podemos vencer os monstros que não vemos?”.
E Nuno passava aquelas tardes que tinha de ficar preso à cama, brincando com o robô, como vínhamos contando. Temos de deixar bem claro que nem sempre saía vencedor das batalhas: algumas vezes acabava caindo no sono. Quem o visse assim, de olhos fechados e boca entreaberta, sem movimentos, e virasse um pouco mais os olhos e encontrasse um robô sem braços e pernas, soterrado por um imenso travesseiro, certamente acordaria a todos, mais que depressa. Só que, nas brincadeiras, sempre podemos recomeçar intactos, renovamos, como se alguma mágica poderosíssima nos fizesse abrir os olhos para nos dar a vida inúmeras vezes. Quando não estava de castigo (e ficava de castigo pouquíssimas vezes), brincava sobre o tapete da sala de jantar. Cada linha reta era uma estrada, cada desenho era um porto ou uma estação espacial, os pés da mesa eram obstáculos que davam graça aos vôos difíceis, que exigiam sempre manobras aprimoradas e perigosas, enfim, todo um mundo surgia nessa pequena gênese diária para que chegasse ao fim dos tempos assim que seus pais acordassem. E quando eles acordavam, ligavam a televisão. Sua mãe preparava um copo de café com leite (bem escuro, pois Nuno não gostava do leite) e um pãozinho com manteiga, para que ele pudesse comer enquanto assistia aos desenhos animados. “Mas não era Nuno que criava as histórias?”. Sim, era, mas só quando estava sozinho. Quando o vento do fim da tarde invadia a casa, quando sua mãe vinha lhe trazer o prato com os dedos brilhantes de manteiga e quando ligavam a televisão, não era preciso criar suas batalhas. Agora era o momento de aquele herói descansar, e assistir as batalhas e os monstros dos outros.
05/04/2008 – 15:56h.
A sombra
Uma insignificante sombra pousou sobre a mesa cor de tabaco. Quase não pude perceber a nuance, uma gradiente, que saltava de um lado para o outro, fugindo sistematicamente da minha mão incansável. Mentira. Cansava-se ao mesmo tempo em que meu braço: descansavam juntos, em uma trégua amigável e sem receios de que qualquer um dos lados quebrasse a regra improvisada. Ficaram assim até que o dia amanheceu e a sombra partisse imperceptivelmente, deixando minha mão solitariamente iluminada.
PEDRO E SÍSIFO
Pedro insistia em bater com sua cabeça na parede, ou melhor, no muro à sua frente. Pedro, que aqui quer dizer também ‘pedra’, era insistente, porém o muro resistia. E ficava ali: batendo e se machucando, ferindo o rosto e reabrindo as feridas de outros dias. Algumas vezes identificava-se com Sísifo, mas o tempo passava…
Seria mais fácil saltar ou dar a volta àquele muro (sempre é mais fácil fazer assim) e seguir adiante sem dor nem cicatrizes. Na verdade, esse é um procedimento padrão: saltar os muros, quando os mesmos se apresentam no caminho, ou fazer um caminho mais longo, solitário, dando a volta e seguindo por outra estrada.
Seu medo maior era que o muro o vencesse. O cansaço poderia fazer com que Sísifo viesse a ser esmagado, quando estivesse para chegar mais uma vez ao topo. Mas ele não era Sísifo (muito menos o queria ser), era Pedro. O que quer dizer: pedra.
[ José Roldão ]
As Tardes de Nuno Mendes
Nuno passava as tardes brincando quieto, em silêncio. Seus pais sempre dormiam após o almoço e ele ficava sozinho pela casa imensa. Quando somos pequenos todas as coisas parecem enormes. Ou será que vão encolhendo na medida em que crescemos? É de conhecimento público que nós é que crescemos, e na medida em que isso acontece os espaços vão-nos escasseando. No final das contas, as casas são mesmo menores. Vemos que são assim. Pontos de vista…
«Qual será a medida certa das coisas?», perguntamo-nos.
[ José Roldão ]
Os Livros e a Viagem
Estava agora, neste instante (e não escrevo no passado, mas sim neste eterno presente), observando os livros em minha frente. Vertiginosamente atacaram-me pensamentos não tão absurdos quanto os que me acometem em sonhos – e o leitor deve acreditar que meus sonhos são mundos completos, inclusivos, e podem tanto alegrar quanto me agarrar em seus labirintos.
Perdi-me nas possibilidades infinitas dentro de cada um dos volumes e meticulosamente sondei-os através de meus pensamentos, que atravessaram capas e autores. Vi o universo. Margeei estrelas e senti o fluxo incessante que corre nas entrelinhas. Desmanchei-me em pontos luminosos de conhecimento – aqueles que encontramos nas asas das mariposas – e fui atingido em cheio pela percepção completa e indizível desse instante.
Não me recordo como retornei a este mundo. Posso mesmo ainda estar sonhando, talvez. Mas não importa, pois, desde que me deixei levar naquelas asas, certamente nunca serei o mesmo. E se não fui, posto que agora eu sou novamente, nada há para recordar. Deve existir apenas o viver, de agora em diante.
[ José Roldão ]
Banho, Chuva e Café na Janela
Fim de tarde. A chave gira na fechadura. Chega a casa após mais um dia de trabalho e não pensa em outra coisa a não ser o banho. Depois: um café na janela. Sempre preferiu os dias chuvosos, aquela chuvinha fina que não passa.
O banho. Sente a água morna cair sobre a cabeça e faz uma rápida e simples analogia com a chuva lá fora. Nenhuma imagem ou quadro mental aprimorado, apenas um pensamento passageiro, sem sentimentos – uma ponte.
Água na chaleira. Um. Dois minutos… Colherinha girando na xícara: sentido horário. Não liga para superstições, o sentido é apenas um hábito, reflexo de tantas vezes já ter olhado para o relógio durante o dia. Sentidos? Coloca uma cadeira rente à janela, apóia os braços e finge descobrir que já escureceu, enfim! Nenhuma outra satisfação programada além de tomar um café debruçado na janela e sentir o vento úmido da noite.
Leva a xícara até a boca bem devagar, olhando fixamente para a espuma marrom grudada nas bordas – neste momento a boca relaxa. “Um bom café solúvel”, ele pensa. Pensamentos? Não. Apenas pontes.
[ José Roldão ]
A PACIENTE
O médico toca com os dedos a barriga da mulher grávida. Seus olhos cruzam com os da paciente por alguns instantes. Ela parece estar bem de saúde; e também o bebê. A mulher segura a mão do médico, separa-lhe os dedos e entrelaça com os seus: «Doutor, uma vida quer rebentar de dentro de mim».
[ José Roldão ]
GONÇALO M. TAVARES – UMA VIAGEM A PÉ
O senhor Valéry andava sempre a pé. Muito rápido, com passinhos pequeninos. (Neste particular era parecido com o sr. Sommer, um vizinho).
Um dia o senhor Valéry precisou de se deslocar a um ponto afastado da cidade.
A pé demoraria dez horas. De comboio apenas vinte minutos.
Depois de muito pensar o senhor Valéry decidiu ir a pé. O senhor Valéry explicava:
- Quem me garante que o sítio onde chego após dez horas é o mesmo do que aquele que chego em vinte minutos?
E com mais convicção dizia:
- É evidente que não é o mesmo sítio.
E o senhor Valéry desenhou, então, duas setas de comprimento muito diferente
E exclamou:
- Só um louco diria que o ponto final das duas setas é o mesmo.
Ganhando balanço o senhor Valéry continuou:
- E mesmo se eu for de comboio e esperar parado, no destino, 9 horas e 40 minutos, esse meu destino não será o mesmo daquele a que eu chego em dez horas de caminho a pé; já que eu estive lá, nesse sítio, mesmo que parado, 9 horas e 40 minutos a modificá-lo.
E começou, então, a andar, pois a decisão estava tomada.
Ao fim de vinte minutos de caminhada o senhor Valéry olhou para o relógio e pensou, de modo algo confuso:
- Se eu me encontrasse já no meu destino, este momento exacto seria o sítio onde eu chegaria.
Olhou à sua volta e disse:
- Porém, este não é ainda o meu destino.
Continuou, assim, a andar.
Mais tarde, contente, exclamou, ainda para si próprio:
- Ainda não cheguei, mas eu vou para outro sítio.
E como faltavam ainda cerca de 9 horas para chegar onde queria, o senhor Valéry continuou a andar, contente e feliz com os seus raciocínios, um pé a seguir ao outro, sempre ao mesmo ritmo, a andar em direcção ao seu destino.
- A mim ninguém me engana – murmurava o senhor Valéry, já a suar muito.
(O Senhor Valéry – Gonçalo M. Tavares)
novo blog: cidade solitária
Estou com mais um blog, chamado: CIDADE SOLITÁRIA, neste link:
http://jroldao.wordpress.com/
O título, como alguns devem perceber, é inspirado na obra do escritor-médico-português Fernando Namora; uma coleção de narrativas que tem o mesmo nome. Aliás, Fernando Namora é um de meus autores preferidíssimos.
Qual o motivo para criar outro blog? Não sei mesmo porque, mas o Fragmentos de Tempo sempre me aprisiona para determinados assuntos. Tipo, não consigo publicar aqui – trava-me as mãos e os olhos – determinadas coisas; quase sempre coisas que sejam mais pessoais e diretas, opiniões minhas e observações cotidianas. No novo blog pretendo justamente me expor mais – sem, no entanto, descobrir-me muito – e publicar percepções mais cruas e diretas que possam ocorrer em meu cotidiano.
Certamente – muito, muito certamente mesmo (aliás, já ocorreu no primeiro relato) – é impossível pra mim não ficcionalizar algumas coisas, mesmo as mais triviais. Não sei se isso é dom ou cadeia invisível, mas até que me dá bastante prazer realizar tais distorções ou reparos.
Convido-os todos a assinarem o Cidade Solitária, seja para receberem via email ou RSS, e os aguardo com muita alegria nas visitas constantes que possam me conceder!
Bons Ventos!
José Roldão
KAFKA – FÁBULA CURTA
Franz Kafka
Tradução de Torrieri Guimarães
“Ai de mim!”, disse o rato, “o mundo vai ficando dia a dia mais estreito”.
“Outrora, tão grande era que ganhei medo e corri, corri até que finalmente fiquei contente por ver aparecerem muros de ambos os lados do horizonte, mas estes altos muros correm tão rapidamente um ao encontro do outro que eis-me já no fim do percurso, vendo ao fundo a ratoeira em que irei cair”.
“Mas o que tens a fazer é mudar de direção”, disse o gato, devorando-o.
PLACEBO
O dia hoje estava diferente. Acordei sentindo que outra pessoa sentava ao meu lado na cama. A cama cedeu com o peso de mais um outro corpo. Pensei que era ela. Senti alguém se esticando por cima de mim e apoiando uma das mãos na frente de minha barriga, fazendo um arco com o braço. Eu estava deitado de costas para a porta; deitado sobre meu lado esquerdo. Pensei que era ela, mas não fazia sentido, pois lembrei que tinha deixado a porta de entrada de minha casa com a tranca de segurança por dentro, pois ela não chegaria cedo. Mesmo com as chaves ela não teria conseguido entrar, sem que me chamasse. Foi então que me dei conta do absurdo. Rapidamente tentei levantar a cabeça para ver quem era, mas nem mesmo os olhos eu conseguia abrir, muito menos levantar com o peso daquela pessoa por cima, me segurando. Comecei a abanar a cabeça (sempre funciona nessas horas) e, depois de certo tempo, consegui me libertar desse fardo invisível. Levantei metade do corpo e girei os olhos pelo quarto: não havia ninguém, tudo estava como deveria estar, como eu havia deixado ao deitar-me.
Não é a primeira vez que fico preso entre-sonhos, mas sempre havia acontecido de noite. Desta vez era dia. Mudei de posição na cama e fiquei observando a porta encostada: “Coisa esquisita”. Voltei a dormir…
Mais tarde: “O dia hoje está estranho, não?”. “Por quê?”, ela perguntou. “Não sei. Algo na luminosidade, ou velocidade do dia. Não parece um dia verdadeiro, mas, sei lá, deu-me cá a idéia de que fosse um placebo do dia”. Ela não disse nada, até que, lá pela terceira ou quarta vez (já noite), respondeu-me, finalmente: “De novo? Pára de falar isso, que coisa!”. Assenti, e fui embora.
Estava com certa aflição ao seguir o percurso até minha casa. Durante dez minutos eu andei com os olhos, mais do que com os pés. Aquela luz diáfana em todo lugar; alguém pronto a soterrar-me no chão (pareceu-me um prenúncio, sentir-me soterrado por algo invisível pela manhã); um vazio espetacular nas ruas… Em dado momento achei ter escutado passos logo atrás de mim, mas não havia ninguém. Apressei-me, mas mantive a desconfiança de tudo. Tinha a certeza de que tudo era placebo. Durante alguns instantes, cheguei mesmo a pensar: “E se eu fosse o placebo?”. Desisti dessa idéia terrível, que só tornaria as coisas mais absurdas, além do suportável.
Finalmente, cheguei a minha casa. Até aqui, foi como se flutuasse na luz diáfana que me oprimia. “O asfalto parecia rolante… Eu sendo carregado… Aquela impressão de quando deixamos um balanço, mas ainda não retornamos ao ponto certo de equilíbrio”.
Cheguei até a janela e foi como se a noite fosse adensar casa à dentro, fazendo piscar os olhos. Fechei rapidamente as cortinas. Achei que fosse preciso trancar as janelas, mas não tive a ousadia para mover sequer um dedo naquela direção. Deixa estar assim, que está bem.
Acredito que o problema mais sério agora seja olhar pela janela. Desde que sentei aqui para escrever, e afastei-me dela, a impressão diminuiu, mas ainda sinto como se estivesse ali, atrás das cortinas, aguardando-me, o placebo. Na rua andei desprotegido, ao relento, sob um céu… Não me recordo do céu? Não. Tampouco adiantaria ter olhado para um placebo do céu. De certo veria algo absurdamente opaco, suspenso, pronto a desabar e mostrar alguma cena mais real, mas, quem sabe, até mesmo uma cena mais medonha. Vim correndo escrever, pois, escrevendo, acredito estar fixando algo das imagens e sentidos que tive nas letras.
Estou com medo de ir deitar-me. Não gostaria de descobrir, depois de ter fechado os olhos, que todo este dia fora mesmo um placebo e que, só depois, estivesse acordando, de fato. Todavia, nem me atrevo a mexer nas janelas. Quanto à porta da entrada, não vou deixar a tranca de segurança interna. Sempre é bom que sobrem algumas opções manipuláveis, para que tudo possa nos parecer mais real, quando assim nos convém.
[ José Roldão ]
EM CÍRCULOS
Sempre agia assim. Corria de um lado para o outro, como se dessa forma pudesse encontrar, aos círculos, a resposta pairando pelo cômodo e, como se a pudesse engolir e digerir, ao invés de ruminá-la; ao invés de saboreá-la e chegar ao cerne da questão. Intentava a solução de todos os problemas em vista. Tolo! Era como o chamavam, na maioria das vezes. Para suas dúvidas nunca havia encontrado soluções absolutas. Buscava-as, como quem busca uma nova forma de prazer, mas sabia de antemão que era de sua natureza não se saciar nunca. Por falta de método ou falta mesmo do que fazer, passava suas angústia à limpo, diariamente, nesse vai-e-vem tresloucado, com olhos esgazeados, olhando através do ar, como se fosse possível tragá-lo e acumulá-lo em suas entranhas. Ficava assim, sempre assim. Depois, quando o cansaço vencia, por fim, derrubava-se no chão e adormecia. Tolo! E nem dava por si nesse estado. Apenas adormecia. E esquecia-se de si mesmo todos os dias.
[ José Roldão ]
JUAN RAMÓN JIMÉNEZ – O POÇO
“(A noite desce, e a lua brilha lá no fundo, engrinaldada de estrelas andarengas. Silêncio! Pelos caminhos, a vida, a vida se dilui na distância. Do poço escapa a alma das profundezas. Por ele se vê como que o outro lado do poente. E parece que de seu bojo vai sair o gigante da noite, senhor de todos os enigmas do mundo. Ó labirinto fantástico e silente, umbroso e perfumado parque, salão mágico e encantado!)
- Platero, se um dia eu me jogar neste poço, não será para matar-me, podes estar certo, mas sim para apanhar mais depressa as estrelas”.
Juan Ramón Jiménez – Trecho de “O Poço”, da obra “Platero e Eu”.
UM MENINO CHAMADO EU
Era uma vez um menino que se chamava Eu. Sim, é um nome absurdo, mas era esse o seu nome. Crescera no seio de uma família numerosa que se reunia aos domingos sem, no entanto, que os seus nomes fossem esquecidos durante os outros dias da semana. Existia um vínculo invisível que fazia com que estivessem presentes diariamente nas conversas do almoço, nos planos em vista, nos comentários sobre o jogo de sueca do domingo anterior, enfim, era uma verdadeira família, dessas que quase não existem mais nos dias de hoje. Naquela época o menino eu não estava ciente do mundo fora desse círculo familiar, aliás, círculo que viera de outro país, com outra cultura e valores, e que se preservava fechado no mais que pudesse.
Os anos se passaram e o menino cresceu. Não foi possível evitar que ele conhecesse outros, que se apaixonasse ou que mostrasse talentos, nem puderam evitar o pior: que ele crescesse! Só que havia crescido e não encontrava mais a sua família por perto e as outras que encontrava eram muito diferentes da que tivera. O mundo havia mudado sem que ele tivesse percebido, pois ele havia mudado também, direitinho como o mundo havia planejado de antemão. O jovem havia descoberto no mundo umas portas largas e passava uma após a outra. Nem havia prestado a atenção numa portinha pequenininha, que nem parecia porta – jurava que fosse janela! – e que ficava onde suas lágrimas mais tarde começariam, por fim, a cair. Quando o jovem descobriu seu pequeno coração e o viu todo molhado por causa das chuvas choradas de todos os seus dias, decidiu então deixar o tempo que ficou pra trás de verdade, bem para trás; muito mais distante ainda do que possam imaginar, mas tão distante, tão mesmo, que quase não mais se via de tão pontinho que tinha ficado lá na linha fininha do horizonte da sua vida, até então.
Quando descobriu essa portinha pequenininha, o jovem que se chamava Eu saiu por ela e sentou numa calçada de cimento que parecia enorme, bem grandona mesmo, porque ele havia se transformado em um menininho de novo. Pegou um pedacinho de tijolo e começou a desenhar um sol gigante, daqueles com raios todos tortos, um menor que o outro, mas bem bonito – lindo mesmo, só vendo!
Depois, fez uma casa toda quadrada, com duas janelas e uma porta, todas abertas – nem tinha trincos ou fechaduras, porque ele não tinha desenhado nenhum ladrão – e do lado da casinha, que parecia mesmo de tijolos por causa da cor das linhas, fez um menininho de cabeça redonda, com os braços pro alto, com sorriso de meia lua, dois pontinhos de olhos, um risquinho de nariz e mais uns rabiscos de cabelo. Desenhou uma árvore e descobriu que a diferença entre nuvens e copas de árvores é só uma questão de cores, porque desenhava igualzinho, tipo um pompom de algodão.
Quando terminou seu desenho veio uma chuva bonita de verão e cheirosa de terra. Depois, rapidinho, abriu um sol lá longe que nem se pode imaginar! Nem adianta! Era lindo mesmo – muito mais bonito que esse daí que você pensou! – e teve até um arco-íris que parecia uma ponte entre as duas serras. Foi então que o menino percebeu que não havia sido mais aquela sua chuva chorada que tinha caído em seu coraçãozinho, mas uma chuva lá de cima, uma chuva gostosa! Então o menininho abriu os braços e deu um sorriso feliz pro sol que havia voltado!
E quem pôde ver de longe aquilo tudo acontecendo – até lá de muito longe, lá daquele pontinho na linha fininha do horizonte – parecia mesmo que o que se via fosse igualzinho ao desenho que o menino havia feito na calçada. Parecia mesmo! Só vendo…
[ José Roldão ]
FRAGMENTO DE UM CONTO INACABADO
Francis ouvia Chopin. É fácil imaginar a cena: um homem de feições sérias, sentado em uma poltrona escura, numa biblioteca escura, com livros de capas escuras. Quase podemos visualizar certa névoa no ambiente. Torna-se fácil imaginá-lo, pois Francis fuma charutos e neste momento mesmo está a fumar. A poltrona está virada para a janela de vidros impecavelmente limpos. Seis espaços quadrados, seis pedaços de vidro enquadrados em madeira, a madeira também escura. As cortinas abertas em renda, como se fossem uma mulher de vestido longo, rendado, fazendo o gesto de quem aceita um convite para dançar. A mulher não existe, tampouco sabemos se Francis a está a imaginar. Imaginávamos nós, apressados em desenvolver a história.
Estamos a observá-lo pelas costas, pois não desejamos perturbá-lo, certamente. Porque ousaríamos? A cena é perfeitamente uma cena de sonho, porém um sonho sonhado em outro século, um sonho tal que, magicamente, sobreviveu pairando, ultrapassando os mesmos séculos que pensávamos. Talvez porque quem o sonhava já está morto; talvez porque os sonhos são assim mesmo: dispensam, em sua autoridade de sonhos, o tempo, mesmo porque os dois não podem existir ao mesmo tempo. Ora essa, ao mesmo tempo! Quantas asneiras nós acabamos por pensar tentando esclarecer o que não se pode! Enfim, os dois se odeiam. Não a mulher que aceitava a dança, tampouco o nosso Francis sentado na poltrona, pois ambos estão ainda parados: a mulher em nossa ansiedade, Francis a ouvir Chopin. Era nos sonhos e no tempo que estávamos a nos perder.
Pode-se pensar no motivo de ficar a olhar este homem sem querer ser notados. Igualmente, podemos buscar motivos para estar a descrever estas coisas. Certamente existem motivos. Francis não ficaria dia após dia sentado naquela poltrona ouvindo Chopin caso não houvesse algo em especial, algo em que pensar ou, até mesmo, em evitar de pensar. No caso desta narrativa é a segunda hipótese.
Quando criança Francis não tinha amigos. Fora criado pela avó, pois havia perdido os pais quando muito pequeno, tão pequeno que nem o lembrava, era mesmo como se nunca houvessem existido. A avó chamava-se Elizabeth, como outras tantas avós chamavam-se por costume. Não escrevi que era um costume desta ou daquela época, pois ainda não definimos se a cena era de sonho ou de fato no tempo. Pouco nos importa. Para Francis, mais vale o sonho do que o tempo. E é dele que estamos a falar.
Sua infância passou em extrema paz. Elizabeth não era dada às conversas com crianças e ele não compreendia os velhos. Pareciam-lhe fantasmas que vagavam ainda pelo mundo, mas com rosto enrugado e carrancudo de tanto esperar a morte que nunca mais chegava. Francis pensava na possibilidade de estar brevemente só, caso a expressão feia da vida na face da avó acabasse por trazer a foice da morte, que lavra todos os rostos, serenando as expressões até que se fecha o caixão. Depois ele não sabia ao certo o que acontecia. Chegou mesmo certa vez a imaginar que, depois de fechado o caixão e enterrado, o corpo emagrecia tanto que viria a tornar-se apenas ossos. Já vira alguns ossos e apesar de nunca ter conseguido recriar um corpo inteiro em sua imaginação ao observá-los, pois vira fragmentos de esqueletos aqui e acolá, dos mais diversos animais, conseguia aceitar facilmente a possibilidade como tal. Esta é sua primeira lembrança de quando era pequeno.
[ José Roldão ] (31/08/2007 02:53h) … por acabar.
Marcapasso
Acreditava mesmo que o vento frio – que me entrecortava a face – passaria sem deixar vestígios. Tolo engano! Olhei para trás e lá estavam as pegadas, bem sulcadas na neve. Foi então que me surgiu a idéia estupenda de alterar o cenário: ao invés da neve, areia de praia!
E assim fiz!
Que maravilha! Não mais importava se o vento era de verão ou inverno, bastava apenas que ventasse. Desde então, não deixo mais as minhas pegadas para trás. Agora eu as trago comigo, apenas um par delas, pois que estas me bastam.







