Fragmentos de Tempo

Ficcionar é tornar o mundo artisticamente aceitável

Archive for the ‘Crônicas’ Category

Memórias da infância dos outros

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todasasnoites1Todos estavam reunidos no quarto-sala: aniversário. Como em toda reunião em que já não se tem muito o que dizer, logo iniciam-se as recordações de aventuras do tempo de criança. O mais curioso é que são contadas as mesmas histórias, sempre. Escangalhavam-se de rir…

Eu, sentado ao chão, prestando certa atenção dividida para ver se algum pormenor seria acrescentado nas repetições, comecei a ouvir outros relatos e considerações vindos do grupo vizinho de conversas: as mulheres. Uso aqui o termo mulheres, mas tanto estas quantos os homens eram todos muito novos, nos inícios dos vinte anos. Elas falavam de bolsas, novidades, espantos, e vez ou outra interferiam nas lembranças dos rapazes; riam-se, e depois fechavam-se em seu grupo novamente. Havia no ar a mistura das vozes altas dos dois grupos, causando-me certo entorpecimento.

Foi uma noite repetida. A mesma de outras reuniões com esse mesmo grupo. Deu-ma cá uma sensação de estar suspenso no tempo: era como voltar o vídeo alternando apenas o ambiente, mas mantendo as falas e os personagens.

Não ter memória é o máximo da solidão. Possuir memórias não compartilhadas, diferentes do grupo do qual se está participando, é como estar numa ilha cercado de impressões alheias por todos os lados. Fica-se a olhar o mar, pronto para acenar ao primeiro navio que o atrevesse.

Escrito por José Roldão

Novembro 14, 2008 em 1:03 am

A mulher não está morta

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E o silêncio rompeu-se: foi levada para a UTI. Não se sabe se de lá retorna (e por isso julgo aquelas cenas de morte previamente anunciada, sentida), mas bem pode ser, quem sabe? Minha mãe, ao telefone internacional, disse-me: «Eu estava já tão triste! Na UTI, mesmo que mal, ainda há esperança…». A vizinha contou-me: «Não morreu ainda, mas antes de ser internada já estava por demais agressiva…».

A mulher sofre de Mal de Alzheimer, uma doença degenerativa do cérebro, e que causa perda da memória episódica. É certo, já não se recordava de quase ninguém e, julgo eu, possa se dever a isto que se tenha tornado agressiva. Será que sem memória conseguiríamos ser bons para com os outros? Que outros? Não ter memória é o máximo da solidão…

Escrito por José Roldão

Novembro 14, 2008 em 12:06 am

A MULHER ESTÁ MORTA

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Esta semana olhei pela janela de manhã e vi que uma ambulância estava parada à porta da casa do outro lado da rua. Eu sabia de antemão que a mulher estava doente e já não reconhecia aos amigos. Não houve suspense, apenas a constatação serena dos fatos.

Um assistente pegou uma maca e a levou embaixo do braço; entrou na casa. Até esse instante não havia aparecido ninguém lá de dentro, apesar da porta já estar aberta. Coloquei-me logo atrás dos vidros fumês da janela e a meias cortinas, aguardando. Alguns momentos e vejo o corpo da mulher que vem amarrado na maca. Corpo amarelo, mole, com todas as características aguardadas. Que a morte é a ausência da vida, todos sabem; mas só percebemos o alcance desta afirmativa quando nos deparamos com um morto de fato. Parece-me impossível não distinguir um ser vivo de outro já sem vida. Redundantemente: falta-lhe algo.

Pois a mulher foi colocada ambulância à dentro como se fosse uma coisa já sem sentido. A partir de então, reparei que a filha dirigia-se à cabine do motorista, chorando; e por fim tomava assento. O marido, que tantos cuidados e dedicação havia dispensado à esposa doente por tanto tempo, chorava junto à porta com um lenço branco que às vezes ia à boca e noutras aos olhos.

A ambulância começou a sair e o homem, tantos anos casado com a morta, ficou olhando o carro distanciar-se lentamente. Depois entrou muito devagar e de cabeça baixa, fechando o portão atrás de si. Vi, momentos antes em seus olhos, a certeza de que estava sozinho; que, enquanto a ambulância saía devagar e virava a esquina, ele já sabia que não veria mais a mulher e que nunca mais ela entraria naquela casa; na qual ele, a partir de agora, ficava só. Vi tudo isto como se fosse um filme triste; todas as cenas ensaiadas à perfeição, aquela perfeição que só é alcançada quando se contracena com o surgimento da vida ou com a morte.

Abri novamente as janelas, as cortinas e uma fresta na lembrança, por onde entram vez ou outra estas cenas. O resto foi silêncio.

Escrito por José Roldão

Novembro 9, 2008 em 3:26 am

Confissões: Vergonha do Pão Com Manteiga na Escola

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HOJE, lembrei-me de uma coisa ridícula: vergonha de pão com manteiga, embrulhado em papel de padaria.

Estudei por dez anos em uma escola classe média-alta, a mais cotada daquela época. Uma escola católica, método franciscano de ensino, com as adicionais aulas de religião, música, coral, artes e educação para o lar, isto é,  aulas de bons modos, etiqueta. Escola cujas mensalidades eram de alto-custo.

Eu tinha vergonha de levar merenda de casa. Minha mãe costumava preparar um pão com manteiga e o embrulhava no próprio papel que vinha da padaria. O embrulho sempre ficava um pouco engordurado.

A imensa maioria dos alunos levava dinheiro para comprar o «Pão Alemão», que era feito na própria cantina da escola.

Creio que o nome do pãozinho tem a ver com as freiras que dirigiam o colégio, pois eram todas de origem alemã. As irmãs apenas comandavam a escola, pois todos os professores eram contratados, eram professores que tinham, em sua maioria, estudado na própria escola quando crianças. Muitos desses professores eram até mesmo filhos de ex-alunos do local, ou seja, existia uma espécie de tradição ou sentido de família bem evidente.

Quando chegava a hora do recreio, eu procurava descer sempre afastado dos colegas de sala. Ia eu com meu embrulho do pão com manteiga (engordurado), escondido ou apertado em uma das mãos. Procurava um canto mais afastado do pátio imenso e com diversos «ambientes» e comia quase reprimido em um canto qualquer. Cheguei mesmo,  algumas vezes, a passar o recreio inteiro sem comer o pão, por não ter encontrado oportunidade para me ocultar ou me perder na multidão dos alunos. Em outras, retornava com o pão escondido para a sala e, discretamente, o colocava de volta na pasta. Era uma coisa que me perturbava imensamente e, certos dias, chegava mesmo a ser doloroso.

Revivendo essas cenas e os meus sentimentos durante esses acontecimentos, que vieram à superfície espontaneamente, senti asco, desprezo, repulsa por, sem motivos, ter sido tão vaidoso ou soberbo em um assunto de tão pequena monta, tão insignificante diante de todos os privilégios que tive e dos valores sob os quais eu fui criado.

Essas coisas ficaram escondidas em mim por todos esses anos, nunca me havia lembrado disso. Resolvi confessá-los para purgar um pouco essa vergonha mesquinha e inusitada.

Posso finalizar com o seguinte: como eu era ridículo!

[ José Roldão ]

Escrito por José Roldão

Julho 25, 2008 em 2:25 am