Archive for the ‘Diário Fantástico’ Category
A sombra
Uma insignificante sombra pousou sobre a mesa cor de tabaco. Quase não pude perceber a nuance, uma gradiente, que saltava de um lado para o outro, fugindo sistematicamente da minha mão incansável. Mentira. Cansava-se ao mesmo tempo em que meu braço: descansavam juntos, em uma trégua amigável e sem receios de que qualquer um dos lados quebrasse a regra improvisada. Ficaram assim até que o dia amanheceu e a sombra partisse imperceptivelmente, deixando minha mão solitariamente iluminada.
Memórias da infância dos outros
Todos estavam reunidos no quarto-sala: aniversário. Como em toda reunião em que já não se tem muito o que dizer, logo iniciam-se as recordações de aventuras do tempo de criança. O mais curioso é que são contadas as mesmas histórias, sempre. Escangalhavam-se de rir…
Eu, sentado ao chão, prestando certa atenção dividida para ver se algum pormenor seria acrescentado nas repetições, comecei a ouvir outros relatos e considerações vindos do grupo vizinho de conversas: as mulheres. Uso aqui o termo mulheres, mas tanto estas quantos os homens eram todos muito novos, nos inícios dos vinte anos. Elas falavam de bolsas, novidades, espantos, e vez ou outra interferiam nas lembranças dos rapazes; riam-se, e depois fechavam-se em seu grupo novamente. Havia no ar a mistura das vozes altas dos dois grupos, causando-me certo entorpecimento.
Foi uma noite repetida. A mesma de outras reuniões com esse mesmo grupo. Deu-ma cá uma sensação de estar suspenso no tempo: era como voltar o vídeo alternando apenas o ambiente, mas mantendo as falas e os personagens.
Não ter memória é o máximo da solidão. Possuir memórias não compartilhadas, diferentes do grupo do qual se está participando, é como estar numa ilha cercado de impressões alheias por todos os lados. Fica-se a olhar o mar, pronto para acenar ao primeiro navio que o atrevesse.
A mulher não está morta
E o silêncio rompeu-se: foi levada para a UTI. Não se sabe se de lá retorna (e por isso julgo aquelas cenas de morte previamente anunciada, sentida), mas bem pode ser, quem sabe? Minha mãe, ao telefone internacional, disse-me: «Eu estava já tão triste! Na UTI, mesmo que mal, ainda há esperança…». A vizinha contou-me: «Não morreu ainda, mas antes de ser internada já estava por demais agressiva…».
A mulher sofre de Mal de Alzheimer, uma doença degenerativa do cérebro, e que causa perda da memória episódica. É certo, já não se recordava de quase ninguém e, julgo eu, possa se dever a isto que se tenha tornado agressiva. Será que sem memória conseguiríamos ser bons para com os outros? Que outros? Não ter memória é o máximo da solidão…
A MULHER ESTÁ MORTA
Esta semana olhei pela janela de manhã e vi que uma ambulância estava parada à porta da casa do outro lado da rua. Eu sabia de antemão que a mulher estava doente e já não reconhecia aos amigos. Não houve suspense, apenas a constatação serena dos fatos.
Um assistente pegou uma maca e a levou embaixo do braço; entrou na casa. Até esse instante não havia aparecido ninguém lá de dentro, apesar da porta já estar aberta. Coloquei-me logo atrás dos vidros fumês da janela e a meias cortinas, aguardando. Alguns momentos e vejo o corpo da mulher que vem amarrado na maca. Corpo amarelo, mole, com todas as características aguardadas. Que a morte é a ausência da vida, todos sabem; mas só percebemos o alcance desta afirmativa quando nos deparamos com um morto de fato. Parece-me impossível não distinguir um ser vivo de outro já sem vida. Redundantemente: falta-lhe algo.
Pois a mulher foi colocada ambulância à dentro como se fosse uma coisa já sem sentido. A partir de então, reparei que a filha dirigia-se à cabine do motorista, chorando; e por fim tomava assento. O marido, que tantos cuidados e dedicação havia dispensado à esposa doente por tanto tempo, chorava junto à porta com um lenço branco que às vezes ia à boca e noutras aos olhos.
A ambulância começou a sair e o homem, tantos anos casado com a morta, ficou olhando o carro distanciar-se lentamente. Depois entrou muito devagar e de cabeça baixa, fechando o portão atrás de si. Vi, momentos antes em seus olhos, a certeza de que estava sozinho; que, enquanto a ambulância saía devagar e virava a esquina, ele já sabia que não veria mais a mulher e que nunca mais ela entraria naquela casa; na qual ele, a partir de agora, ficava só. Vi tudo isto como se fosse um filme triste; todas as cenas ensaiadas à perfeição, aquela perfeição que só é alcançada quando se contracena com o surgimento da vida ou com a morte.
Abri novamente as janelas, as cortinas e uma fresta na lembrança, por onde entram vez ou outra estas cenas. O resto foi silêncio.
UM SILÊNCIO DE SAUDADE RELUTANTE
Este vento frio e úmido traz-me saudades das pedras geladas e cobertas de musgos das aldeias de Portugal. Quando eu passava as mãos sobre o verde incrustado por entre as pedras, sentia como se me aplainasse a pele, como se o tempo roçasse devagar brincando com meus poros, estes que me arrepiam agora, neste exato instante, numa prece de retorno.
Lembro-me bem da neblina descolorindo as casas, e gostava de atravessá-la como quem dispensa as pontes, pois aprendeu a voar, assim, de repente, como em uma dança de sonho.
Caíram agora à minha frente, por um fio desenrolado da memória, algumas folhas de eucalipto que lembro ter posto sob o travesseiro para que me purificassem a noite do extremo silêncio da ausência urbana; porém, noite esta, que trazia as conversas de animais obscuros, cortadas ao meio pelo som de uma moto a riscar com as unhas a auto-estrada, desfazendo todo o encanto, para que o silêncio mais uma vez arrebentasse em seguida, numa espécie de ciclo inevitável.
É deste silêncio que escrevo. Um silêncio de saudade relutante, inesquecível.
[ José Roldão ]
Noite Clássica
Uma conhecida sensação tediosa invadiu este cômodo. De repente, eis que falta eletricidade. Olho da janela, que recosta do meu lado esquerdo, e vejo tudo escuro até onde a vista alcança. Em menos de um minuto, retorna a eletricidade (onde andavas? onde fostes?). Sim, retorna aqui em casa, pois, lá fora (a janela informa-me, cutuca-me), tudo permanece negro: uma noite clássica.
Aos poucos as outras janelas voltam a acender, piscam-nos luzes ali e acolá (enamoram-se da minha, flertam, enquanto torno-me um intruso na cena, um indelicado que as observa). De outros pontos, espreguiçam-se postes de luz; outros continuam adormecidos, como se, cansados, proveitassem da situação.
Apenas os carros da rodovia nunca param.
Faróis, olhos que rasgam a noite, como se fossem fantasmas amedrontando a todos nós, riscando o negro clássico que se abateu por segundos até onde a vista alcança.
Na cidade os carros nunca param. São acréscimos modernistas.
[ José Roldão ]
Os Livros e a Viagem
Estava agora, neste instante (e não escrevo no passado, mas sim neste eterno presente), observando os livros em minha frente. Vertiginosamente atacaram-me pensamentos não tão absurdos quanto os que me acometem em sonhos – e o leitor deve acreditar que meus sonhos são mundos completos, inclusivos, e podem tanto alegrar quanto me agarrar em seus labirintos.
Perdi-me nas possibilidades infinitas dentro de cada um dos volumes e meticulosamente sondei-os através de meus pensamentos, que atravessaram capas e autores. Vi o universo. Margeei estrelas e senti o fluxo incessante que corre nas entrelinhas. Desmanchei-me em pontos luminosos de conhecimento – aqueles que encontramos nas asas das mariposas – e fui atingido em cheio pela percepção completa e indizível desse instante.
Não me recordo como retornei a este mundo. Posso mesmo ainda estar sonhando, talvez. Mas não importa, pois, desde que me deixei levar naquelas asas, certamente nunca serei o mesmo. E se não fui, posto que agora eu sou novamente, nada há para recordar. Deve existir apenas o viver, de agora em diante.
[ José Roldão ]
MATEMATICAMENTE FALANDO…
Sentimo-nos exaustos. São muitos os dias se contarmos desde o início de cada um. Junte-se os dois e a matemática do tempo particular exaspera-se. Por isso equacionamos as duas vidas. Não se sabe mais ao certo para que lado fica a saída do labirinto, pois rompeu-se o Fio de Ariadne.
Com o pedaço que nos sobrou nas mãos, pensamos seriamente enlaçar os dedos. Porém o Minotauro ainda nos assusta. Estamos a ver se ele existe, de fato.
[ José Roldão ]
DOIS GATOS
Fui dar aulas. No caminho de ida, perto de casa ainda, olhei para a rua e vi dois gatinhos comendo os restos de algum animal que havia sido atropelado. Naquela rua passam muitos veículos, pois é passagem dos carros que saem da Rod. Presid. Dutra e vão pegar o viaduto, afim de fazer o retorno. Estranhei que os gatinhos estivessem em meio a rua, tranquilamente comendo aqueles restos, e ainda estivessem vivos. Parei e fiquei observando. Em minutos vem um carro e desvia por pouco. Os gatos nem esboçaram qualquer movimento, ficaram ali, como se nada existisse à volta.
Mais um pouco e vem um caminhão. O motorista tenta passar sobre os gatos, mas de uma maneira que não os atropelasse, passando com o meio do caminhão. Quando já havia passado a metade do veículo, eis que os gatos se assustam e voltam pra calçada. Um deles consegue chegar ileso, o outro, porém, atravessa e é atropleado. Duas rodas duplas do caminhão passam por cima dele: nem um ruído, nem um miado. Apenas isso e fica o gato estendido, destroçado em parte.
Atravessei e fui ver de perto. Estava vivo segundos antes, agora era como os restos que há pouco comia. Segui adiante. Procurei o gato sobrevivente, mas nem sinal. Andei mais um pouco e tornei a olhar para trás: lá estava o sobrevivente indo para o mesmo lugar onde o outro jazia atropelado. Burro! Era como se nada houvesse acontecido, muito menos parecia fazer alguma diferença o outro ali estendido e vazado junto aos restos de antes. Eu havia visto algumas vísceras do atropelado espalhadas ao redor, e agora imaginava que o outro, provavelmente seu irmão, poderia estar comendo carne de sua carne. Por pouco tempo, pois, se ali estava agora, daqui há pouco teria a mesma sorte do outro gatinho.
Hoje, depois de dois dias, passei novamente pelo mesmo local. Não havia nada além de uma mancha no asfalto. Fico pensando que um dos gatos, porque eu o havia visto morrer, estava de fato morto; o outro, aquele sobrevivente que insistia em abusar da pouca sorte, esse eu não vi morrer, apesar de ser bem provável que tenha ocorrido, contudo, nunca saberei se de fato acabou tendo o mesmo fim. Pode parecer coisa boba, mas, sinceramente, gostaria muito de saber do destino daquele gato que, por não o ter visto salvar-se ou não, permanece em minha memória, suspenso.
[ José Roldão ]
AQUELE CARRO QUE PASSA
Um carro atravessa a rodovia e
dispara feito flexa no alvo da noite…
POLONAISE, DE CHOPIN
Ouvindo Chopin. É possível imaginar uma biblioteca escura, uma única janela ao fundo, um homem sentado de frente para essa mesma janela, e nós a olharmos, observando-o ao fundo, vendo apenas suas costas. Não parece bem um homem, mas apenas a sombra de um homem que pensa e sente além, que se deixa levar pela obra do exímio pianista. Certamente o piano de Chopin preenche todo o ambiente, com suficiente e eficaz volume.
E eu fico aqui, observando essa cena, também me deixando levar, ouvindo Polonaise, de Chopin.
[ José Roldão ]
Posted in CIDADE SOLITÁRIA
INVERSÃO DE PAPÉIS
Dor de cabeça. Uma dor que foge, correndo em círculos dentro do claustrofóbico espaço craniano. Tenho dó dessa dor. Coitada! Presa, batendo desesperada, procurando uma saída! Decido não interferir. Isso quer dizer que sou pior que a dor de cabeça: vou deixá-la lá dentro, prisioneira, sofrendo. É bom inverter os papéis de vez em quando.
[ José Roldão ]
Vindo pra casa
Claro, como não!, era apenas a lua! Porém a fixação [mania, cisma, moda pessoal, entusiasmo, distração; quantos nomes!] faz com que os sentidos dancem de modos harmônicos [porém numa cena muda para o público], e bailamos desmedidamente até que… até que a moda passa; até que… cansamos. Cansamos! Então buscamos outras distrações [outras, mas que nunca são novas], e seguimos solitariamente bailando, perdidamente apaixonados pela visão no espelho; um corpo girando, girando, mantendo a cabeça o máximo de tempo parada em seu eixo: temos que nos assistir, admirar, extasiar, chamar a atenção [geralmente a nossa própria atenção] até que… enjoamos. Enjoamos, mas não dizemos assim [muito menos pensamos assim... fingimos!]. Então olhamos ao redor – como?! O espelho desaparece, surge o fantasma de nós mesmos.
Quando paramos de bailar [navegar nessas ondas, quem pode saber?], rimos mais ainda e fechamos novamente o nosso círculo: agora estava quase perfeito. Não fomos abduzidos pela lua [nem havia possibilidade, pois éramos muitos – aliás, ainda somos].
Continuei andando, acompanhando o tilintar do chaveiro pendurado em minha mente e cantando ao som da banda de nossos passos, e logo pudemos abrir o círculo: estava nesta casa, finalmente.
Despedi-me do astro principal, que finalmente havia transposto o umbral celeste e nos acenava [ou será que era um daqueles sorrisos lunares rechonchudos, pintados em telas frias?] e normalizei a sobrancelha já cansada. Mantive os olhos retesados, por via das dúvidas. Temos que nos apegar a alguma coisa que demonstre certa seriedade. É o jogo.
Era só a lua mesmo. Só que cismamos de querer acreditar que não seja apenas isso; temos de criar mundos fantásticos e misteriosos: excitação! Qualquer coisa serve, contanto que seja diferente e possamos especular a respeito. Oras, para especular não é preciso muita coisa: basta inventar, concatenar harmoniosamente alguns fatos, imagens que adquiram sentidos sem-sentidos e que por isso mesmo podem ser manipuladas. Batemos muitas palmas ao espetáculo e pode até ter algumas lágrimas nos olhos, tudo isso faz parte, aliás, investimos em tudo isso, ainda é o mesmo jogo. Qualquer coisa serve… por mais que seja descartável.
[ José Roldão ]
Estrada
SENTIDOS
Com tantos dias em mãos, andei cercando os sentidos que me escapuliam, escorregadios. Um desses sentidos caiu em cima do teclado do computador, esvaindo-se pelos espaços que existem entre as teclas. Se bem reparei, foi entre a tecla do espaço – aquela maior, horizontal – e as que a seguem logo acima: menores em tamanho, maiores em número.
Agora não sei daquele sentido, perdi-o – antes de perdê-lo já não sabia. Pior: agora me peguei com novos símbolos e sentidos por causa do lugar onde foi parar: espaço, extensão, número, quantidade, qualidade, uso… Para agravar ainda mais a situação, acabei por gerar este texto… Estou receoso de multiplicar sentidos gerados, de trocar o primeiro por muitos outros que possam derivar daquele e perder eu mesmo todo o sentido.
Isso sim seria terrível!
[ José Roldão ]
PLACEBO
O dia hoje estava diferente. Acordei sentindo que outra pessoa sentava ao meu lado na cama. A cama cedeu com o peso de mais um outro corpo. Pensei que era ela. Senti alguém se esticando por cima de mim e apoiando uma das mãos na frente de minha barriga, fazendo um arco com o braço. Eu estava deitado de costas para a porta; deitado sobre meu lado esquerdo. Pensei que era ela, mas não fazia sentido, pois lembrei que tinha deixado a porta de entrada de minha casa com a tranca de segurança por dentro, pois ela não chegaria cedo. Mesmo com as chaves ela não teria conseguido entrar, sem que me chamasse. Foi então que me dei conta do absurdo. Rapidamente tentei levantar a cabeça para ver quem era, mas nem mesmo os olhos eu conseguia abrir, muito menos levantar com o peso daquela pessoa por cima, me segurando. Comecei a abanar a cabeça (sempre funciona nessas horas) e, depois de certo tempo, consegui me libertar desse fardo invisível. Levantei metade do corpo e girei os olhos pelo quarto: não havia ninguém, tudo estava como deveria estar, como eu havia deixado ao deitar-me.
Não é a primeira vez que fico preso entre-sonhos, mas sempre havia acontecido de noite. Desta vez era dia. Mudei de posição na cama e fiquei observando a porta encostada: “Coisa esquisita”. Voltei a dormir…
Mais tarde: “O dia hoje está estranho, não?”. “Por quê?”, ela perguntou. “Não sei. Algo na luminosidade, ou velocidade do dia. Não parece um dia verdadeiro, mas, sei lá, deu-me cá a idéia de que fosse um placebo do dia”. Ela não disse nada, até que, lá pela terceira ou quarta vez (já noite), respondeu-me, finalmente: “De novo? Pára de falar isso, que coisa!”. Assenti, e fui embora.
Estava com certa aflição ao seguir o percurso até minha casa. Durante dez minutos eu andei com os olhos, mais do que com os pés. Aquela luz diáfana em todo lugar; alguém pronto a soterrar-me no chão (pareceu-me um prenúncio, sentir-me soterrado por algo invisível pela manhã); um vazio espetacular nas ruas… Em dado momento achei ter escutado passos logo atrás de mim, mas não havia ninguém. Apressei-me, mas mantive a desconfiança de tudo. Tinha a certeza de que tudo era placebo. Durante alguns instantes, cheguei mesmo a pensar: “E se eu fosse o placebo?”. Desisti dessa idéia terrível, que só tornaria as coisas mais absurdas, além do suportável.
Finalmente, cheguei a minha casa. Até aqui, foi como se flutuasse na luz diáfana que me oprimia. “O asfalto parecia rolante… Eu sendo carregado… Aquela impressão de quando deixamos um balanço, mas ainda não retornamos ao ponto certo de equilíbrio”.
Cheguei até a janela e foi como se a noite fosse adensar casa à dentro, fazendo piscar os olhos. Fechei rapidamente as cortinas. Achei que fosse preciso trancar as janelas, mas não tive a ousadia para mover sequer um dedo naquela direção. Deixa estar assim, que está bem.
Acredito que o problema mais sério agora seja olhar pela janela. Desde que sentei aqui para escrever, e afastei-me dela, a impressão diminuiu, mas ainda sinto como se estivesse ali, atrás das cortinas, aguardando-me, o placebo. Na rua andei desprotegido, ao relento, sob um céu… Não me recordo do céu? Não. Tampouco adiantaria ter olhado para um placebo do céu. De certo veria algo absurdamente opaco, suspenso, pronto a desabar e mostrar alguma cena mais real, mas, quem sabe, até mesmo uma cena mais medonha. Vim correndo escrever, pois, escrevendo, acredito estar fixando algo das imagens e sentidos que tive nas letras.
Estou com medo de ir deitar-me. Não gostaria de descobrir, depois de ter fechado os olhos, que todo este dia fora mesmo um placebo e que, só depois, estivesse acordando, de fato. Todavia, nem me atrevo a mexer nas janelas. Quanto à porta da entrada, não vou deixar a tranca de segurança interna. Sempre é bom que sobrem algumas opções manipuláveis, para que tudo possa nos parecer mais real, quando assim nos convém.
[ José Roldão ]
MATEMÁTICA FIEL
Quatro noites escrevendo sobre dois mil anos, para combater cinco séculos. Nesta matemática dos raciocínios, onde a fé ilumina cuidadosamente a razão, vamos revelando questões e fornecendo gabaritos. Contra a invencionisse: apresento a realidade que persiste, fundada sobre a Pedra. Nesta, somando infinitamente, o resultado sempre será igual a UM; nas outras, os resultados (que podem variar ao infinito) sempre parecerão dízimas periódicas.
[ José Roldão ]
UM MENINO CHAMADO EU
Era uma vez um menino que se chamava Eu. Sim, é um nome absurdo, mas era esse o seu nome. Crescera no seio de uma família numerosa que se reunia aos domingos sem, no entanto, que os seus nomes fossem esquecidos durante os outros dias da semana. Existia um vínculo invisível que fazia com que estivessem presentes diariamente nas conversas do almoço, nos planos em vista, nos comentários sobre o jogo de sueca do domingo anterior, enfim, era uma verdadeira família, dessas que quase não existem mais nos dias de hoje. Naquela época o menino eu não estava ciente do mundo fora desse círculo familiar, aliás, círculo que viera de outro país, com outra cultura e valores, e que se preservava fechado no mais que pudesse.
Os anos se passaram e o menino cresceu. Não foi possível evitar que ele conhecesse outros, que se apaixonasse ou que mostrasse talentos, nem puderam evitar o pior: que ele crescesse! Só que havia crescido e não encontrava mais a sua família por perto e as outras que encontrava eram muito diferentes da que tivera. O mundo havia mudado sem que ele tivesse percebido, pois ele havia mudado também, direitinho como o mundo havia planejado de antemão. O jovem havia descoberto no mundo umas portas largas e passava uma após a outra. Nem havia prestado a atenção numa portinha pequenininha, que nem parecia porta – jurava que fosse janela! – e que ficava onde suas lágrimas mais tarde começariam, por fim, a cair. Quando o jovem descobriu seu pequeno coração e o viu todo molhado por causa das chuvas choradas de todos os seus dias, decidiu então deixar o tempo que ficou pra trás de verdade, bem para trás; muito mais distante ainda do que possam imaginar, mas tão distante, tão mesmo, que quase não mais se via de tão pontinho que tinha ficado lá na linha fininha do horizonte da sua vida, até então.
Quando descobriu essa portinha pequenininha, o jovem que se chamava Eu saiu por ela e sentou numa calçada de cimento que parecia enorme, bem grandona mesmo, porque ele havia se transformado em um menininho de novo. Pegou um pedacinho de tijolo e começou a desenhar um sol gigante, daqueles com raios todos tortos, um menor que o outro, mas bem bonito – lindo mesmo, só vendo!
Depois, fez uma casa toda quadrada, com duas janelas e uma porta, todas abertas – nem tinha trincos ou fechaduras, porque ele não tinha desenhado nenhum ladrão – e do lado da casinha, que parecia mesmo de tijolos por causa da cor das linhas, fez um menininho de cabeça redonda, com os braços pro alto, com sorriso de meia lua, dois pontinhos de olhos, um risquinho de nariz e mais uns rabiscos de cabelo. Desenhou uma árvore e descobriu que a diferença entre nuvens e copas de árvores é só uma questão de cores, porque desenhava igualzinho, tipo um pompom de algodão.
Quando terminou seu desenho veio uma chuva bonita de verão e cheirosa de terra. Depois, rapidinho, abriu um sol lá longe que nem se pode imaginar! Nem adianta! Era lindo mesmo – muito mais bonito que esse daí que você pensou! – e teve até um arco-íris que parecia uma ponte entre as duas serras. Foi então que o menino percebeu que não havia sido mais aquela sua chuva chorada que tinha caído em seu coraçãozinho, mas uma chuva lá de cima, uma chuva gostosa! Então o menininho abriu os braços e deu um sorriso feliz pro sol que havia voltado!
E quem pôde ver de longe aquilo tudo acontecendo – até lá de muito longe, lá daquele pontinho na linha fininha do horizonte – parecia mesmo que o que se via fosse igualzinho ao desenho que o menino havia feito na calçada. Parecia mesmo! Só vendo…
[ José Roldão ]
SOBRE A TRISTEZA
Dizem que no universo existem fluxos de tristeza e quando não temos mais as defesas comuns a todo indivíduo (o que é desejável, em certo sentido), esse fluxo chega e nos trespassa de vez em quando. Algo inevitável – é o que dizem. É uma tristeza que não tem nada de pessoal. O que se pode fazer é deixar que esse feixe de tristeza passe, que ele siga seu caminho. Dizem que não devemos detê-lo, pois bem pode acontecer que ele se agarre em nós, mesmo que não nos pertença.
Mas pode acontecer da tristeza vir até nós por outros meios. É quando ficamos tristes por causa de alguém. Dizem que desse modo é mais doloroso, pois é algo pessoal, algo que se liga a nós através de atos de outras pessoas ou na falta destes, quando os esperamos. O que se ouve dizer é que existem certos limites, certo cansaço que nos envolve e pode sufocar. Dizem que devemos comunicar os motivos a quem de direito e tentar resolver por meio de cuidados adicionais ou atenção direcionada.
Ora, e quando esse artifício não funciona?
Eis, meus amigos, uma questão delicada… Não há muito que fazer, além disso. Resta-nos a opção da espera, da paciência, da auto-negação, do desapego. O grande perigo é que, dessa maneira, a responsabilidade fica sobre um só dos pólos do problema: ou você aceita as coisas como estão ou não aceita. A ponte que liga as duas margens fica frágil, com rachaduras; fendas que podem deixar escoar sentimentos e deixar vazar o tempo.
Quem pode se sustentar em cima de uma ponte assim por muito tempo, sem correr o risco que ela desabe e carregue tudo para o fundo do abismo?
É então que retornamos para a margem de onde viemos no início e tentamos vedar esses vazamentos. Mas não conseguimos realizar essa tarefa, sozinhos; é preciso a ajuda da outra margem. Você grita pedindo ajuda, mas pode acontecer da outra margem estar longe demais. Pode acontecer também de te ouvirem, mas pode ser também que não sejam tomadas decisões ou iniciativas para consertar a ponte.
Então você vai ficando rouco e perdendo a voz com o passar do tempo. Decide-se calar, pois só há o próprio eco que volta feio e repetitivo. E assim entra em cena a solidão. Mas essa é uma solidão triste, não aquela que nos faz bem e traz paz quando precisamos. É aquela não solicitada, é uma solidão imposta.
Eis, meus amigos, uma questão ainda mais delicada…
[ José Roldão ]
A POESIA É UM SONHAR POR ESCRITO
A poesia tem o poder de contar ao leitor não apenas aquilo que ele pensa de si mesmo, mas até mesmo o que deixou de pensar por não sabê-lo. Pode ser também a maior de todas as vigílias – ou, quem sabe, o quase infinito da multiplicação de todas elas, mesmo dos seres que nunca acordaram. Dormir, acordar… A consciência não cede à exclusividade dos olhos, mas bem que pode enamorá-los…
Para mim,
A poesia é um sonhar por escrito.
Perde-se o tempo quando se está a escrever, e se o reencontramos foi porque a poesia findou. Afinal, os ponteiros do relógio na parede só parecem estar se movendo quando reparamos neles.
[ José Roldão ]
Black-out
Hoje choveu bastante, faltou luz, comecei faxina, e nem por isso deixei de pensar nos instantes que se tornam caros para a memória. Alguns flashs chegam na mente dos que ficam em silêncio por tempo o suficiente para abrir espaços, brechas, frestas, quando chega o olho do furacão, que nem sabíamos estar passando. Depois, inevitavelmente, os ventos recomeçam, torcem dados, riscam imagens, e trazem a vaga idéia que passa na frente dos olhos, idéia que mancha, sopra, e nos carrega no torvelinho, Para onde?, não sei, pudera, ainda havia a faxina por terminar, lixo pro saco, luz que chegou, e o silêncio que se foi, Até quando?, até o próximo espaço aberto, Quem sabe?, Até quando, não sei.
Odeio Kombi!
Fui levar, pela manhã, minha filha na casa da mãe dela. Um acidente na via Dutra, duas kombis pra ir, outras duas pra voltar. Fico injuriado pelo modo como somos tratados feito bichos nessas kombis! Os motoristas vão acumulando gente até não mais poder. Fora aquelas buzinas com textos vulgares que, entre as que narram o percurso, mexem com as meninas nas ruas. Lógico, eu poderia evitar essas conduções, porém, visando a rapidez ($$), muitas vezes opto pelo transporte alternativo. E bota alternativo nisso!
Para completar, mais tarde, assistindo ao programa do Hulk, o que me aparece? Isso mesmo, uma kombi! Dessa vez foi uma do ano 1973, que o quadro Lata Velha reformou.
Meu amigo, nem assim abri um sorriso! A história foi bonita e tal, merecida pelo proprietário, mas, mesmo após a reforma, continuou sendo uma kombi, e isso, pra mim, não é lá grande coisa.
Em tempos passados eu trabalhei em uma empresa utilizando uma dessas. Pra quem já conduziu uma kombi, sabe perfeitamente que é um veículo extremamente horrível de dirigir e, pior, muito perigoso! Não tem estabilidade nenhuma; a folga na direção é sua marca característica; e os incêndios no motor também. Resumindo: não presta!
Mas, porém, todavia, é um veículo barato e, da mesma forma que o fusca, todos sabem consertar se enguiça no meio do caminho, ou seja, é de mecânica pop e autoditada (leia-se: repleta de “gatilhos”).
Até quando veremos kombis nas estradas deste país? Até quando??
Sem nexo, sem sacanagem!
Sabe aqueles dias estranhos, nos quais parece que não fizemos nada, apesar de ter acontecido um monte de coisas desconexas? Pois é, foi assim: acordei não lembro que horas; fiz não sei o que depois; dormi de tarde; acordei e não lembro o que aconteceu ao certo; fui levar às pressas no curso de minha namorada um CD que ela havia esquecido; fui à casa dela; voltei pra minha; depois ela veio também, dormiu e fiquei aqui lendo dezenas de blogs via internet discada (= maior tempão).
Para finalizar, quando estava tentando editar este post, apareceu aquela tela azul de esvaziamento de pilha do XP e tive que reiniciar e reconectar pra concluir, por uma questão de honra…
Como eu poderia deixar de contar essas coisas aqui e não acrescentar mais este post à lista deste dia desconexo?
Isso aqui já foi mais sério, eu sei…
As pessoas passam
É fato, as pessoas passam. Hoje a noite eu estava conversando com minha mãe na janela, quando, de repente, ela começou a lembrar dos avós de um rapaz que estava passando lá em baixo, na rua onde moro. Disse que tinham muito dinheiro e que o filho é o dono de uma empresa bem conhecida nossa, ao menos aqui no Rio de Janeiro. O rapaz que vimos estava saindo de um carro muito caro, fora o outro que também possui e usa mais frequentemente. Esse rapaz deve ter uns vinte anos, ou menos um pouco.
Sabe quando você ouve algo que te leva longe? Então, foi isso. Comecei a imaginar que os avós desse rapaz, que eram bastante ricos, e os quais não conheci pessoalmente, viveram uma história completa. Casaram-se, juntaram fortuna, tiveram netos e morreram. Normal, não é? Uma história comum (exceto pela fortuna, coisa rara hoje em dia). Mas o que me tocou foi o fato de não os ter conhecido, de saber de sua história, conhecer seu filho desde de pequeno e ver, ali na rua, o neto deles utilizando os bens que herdou e que seus pais acrescentaram.
As pessoas passam…
Os bens às vezes ficam, a história é recontada e a vida segue acumulando personagens que povoam o livro de todos os livros. Que coisa, não? Um dia eu e você, caro leitor, seremos uma história assim, com personagens já sem rosto, pois o tempo apaga todos os traços fortes, deixando apenas a silueta exposta na memória daqueles que, por ventura, cruzaram nosso caminho.
Xô aridez!
Minha namorada, a Joanna, é linda. Muitas vezes eu não me expressei de forma fiel ao que eu sinto por essa menina-flor. Preciso vencer essa “aridez”, isso sim!
Ei? O que é que você está olhando, seu mané!!! Ops! Chega! Sai!!! Ninguém tasca! Ela é só minha, e eu sou todo dela. Vai dar uma olhada nos outros posts, vai… Humpf!
Imagens Molhadas
Confesso que Li
Contos de Aldous Huxley e Dostoievski. Estes serão meus companheiros pelos próximos dias e confesso que acredito estar, digamos, literariamente bem acompanhado. Pretendo escrever a minha impressão sobre esses dois livros em um futuro post, mas por enquanto me limito a anunciar apenas o início da leitura.
Estive lendo Os Diários de Virginia Wolf (que, aliás, detestei), tentei a leitura do livro Santuário, de Willian Fallkner (não consegui começar, mas não desisti. Apenas adiei), li O Amor nos Tempos do Cólera, de Gabriel García Márquez (excelente livro!) e, do mesmo autor, Viver Para Contar (também excelente!), que são suas memórias.
Tempo de muitas e ávidas leituras. Tempo de ócio, no bom sentido grego do termo.
Névoas de Poesia Misteriosa
Muitas vezes sinto-me preso nas névoas da poesia misteriosa, sem rumo corrente e cotidiano. Parece-me que meus escritos soam por demais “metafísicos”, sem âncora presa em algum lugar deste mundo, pior, nem em outros. Melhor seria afirmar que escrevo entre mundos, ambientes que deixam as palavras vagarem sem rumo aparente, mas com um fim a alcançar. Fim que eu mesmo não programo, mas que agarra cada palavra e as liga umas as outras. No final, eu mesmo preciso redescobrir o significado do que foi escrito por minhas próprias mãos, como se escritor e leitor fossem partes de mim mesmo, assistindo um ao outro em um círculo interminável. A percepção total do ser que escreve e que lê o que foi escrito, sou eu.
De outra forma, como não terminei de escrever estas palavras, e ainda não as li até o fim, porquanto escrevo neste momento, não concluo totalmente esta definição, porém a percebo agora, independente da veracidade ou não do que por ventura venha ainda ser escrito. Este ponto de apoio torna-se extremamente necessário, pois não desejo invalidar esta tentativa de relacionar sujeito e objeto, notando a ponte existente entre os dois, o que ousei chamar de: percepção.
Agora que defini razoavelmente que sou o que percebo, e que me livrei das amarras que prendem o sujeito ao objeto – causa e efeito – talvez eu possa continuar com o real motivo deste texto: na verdade, busco compreender o porquê da falta de ânimo para escrever – ou seja, contemplar – histórias ou poesias.
Devido a esta ânsia de escrever entre mundos e observar passivamente as imagens que se formam na névoa, criei em mim um certo modo misterioso de colocar em palavras a tal percepção. Tenho buscado um modo de criar mais corriqueiro, uma narrativa fluente e com dados comuns, coisas que lemos no dia a dia. Sempre escrevi e depois eu mesmo notava que era possível gerar uma percepção completamente diferente em outras pessoas, daquela que eu mesmo tinha do que havia escrito. Se eu transcrevia uma imagem que me lembrava da infância, outros percebiam no mesmo texto uma viagem a outras realidades e coisas do gênero. Algumas pessoas chegaram mesmo a me escrever pedindo orientações sobre como alcançar tais mundos, que diziam existir em universos paralelos e tal.
Ora, bastava eu começar a escrever, mas tudo se passava neste mundo mesmo – eu sentado em frente ao micro, como qualquer outro ser humano dos que eu conheço, tomando café e fumando cigarros em momentos ociosos no escritório… Tudo bem, eu tinha até bastante tempo ocioso – e se não os tinha, forjava-os – mas nunca precisei me drogar ou tomar chás alucinógenos pra isso.
Não desejo perder esse modo de escrita, pois é por demais interessante ver o leitor criar seu próprio significado dos meus textos, mas busco também a outra forma: textos leves e que dizem, sem sombra de dúvidas, aquilo a que se propõem desde o início da escrita.
Agora fico receoso de parecer por demais metafísico – no mau sentido do termo – e de ser tomado por um escritor engajado em coisas esquisotéricas. Sim, sim… andei em certa época de minha vida, atrelado com nagualismos e pseudo-xamanismos urbanos. Fui iniciado em ordens esquisotéricas e passei por graus que não conferem nada além de status dentro de “clubes”, carimbos e assinaturas que servem apenas para inflar egos em série. Mas foi quando eu desejava o autoconhecimento, acreditando que isso me levaria a algum lugar que não fosse a mim mesmo. Ledo engano. É tudo lama, areia movediça…
Consegui desgrudar os pés faz já muito tempo, por mais que ainda tenha marcado bastantes pegadas sujas durante algum curto período depois. Tenho vontade de escrever sobre cada uma dessas correntes que prendi em mim mesmo e falar sobre a verdadeira liberdade, mas não tive ainda a paciência e o engajamento para tanto. São tão frágeis essas correntes esquisotéricas e tão cheias de invencionices e divagações incoerentes, que fico sempre adiando um trabalho a respeito.
Minha meta ultimamente é descobrir se eu é que sou um percebedor assim – que escreve como escrevo, contemplando imagens – e me identifiquei com essas correntes posteriormente; ou se após ter estado preso nelas é que passei a escrever entre mundos… Sim, pois pode ser que ainda traga os pés sujos com alguma lama. Bem sabemos que os grãos de terra se infiltram entre os dedos e unhas, e que às vezes demoramos a descobri-los – ficando algum tempo ocultos, disfarçados, parecendo com a própria pele.
Enquanto não tenho a plena certeza de que o percebedor contempla aquilo que deve contemplar e enquanto procuro descobrir se fiquei atrelado em algum mundo, pensando estar entre os infinitos mundos da imaginação, vou anotando as percepções aqui neste diário. Talvez o mesmo seja apagado antes de outros olhos o descobrirem, mas não importa.
Estou apenas voltando a perceber…










