Archive for the ‘Fragmentos’ Category
Gonçalo M. Tavares – Excerto do livro Senhor Brecht
“Era uma livraria que vendia um único livro. Havia 100 mil exemplares numerados do mesmo livro. Como em qualquer outra livraria os compradores demoravam-se, hesitando no número a escolher”.
(Gonçalo M. Tavares – O Senhor Brecht, Editora Casa da Palavra, 1ª Edição)
Gonçalo M. Tavares – A morte do pai
e ele, que era duro, endureceu mais.
Informou da existência do cadáver
como quem relembra um pormenor.
Amava o pai, mas o coração é assim
(a lei da sobrevivência):
esconde-se quando o querem matar.
( 1 – Gonçalo M. Tavares, Editora Bertrand Brasil 2005)
A MULHER ESTÁ MORTA
Esta semana olhei pela janela de manhã e vi que uma ambulância estava parada à porta da casa do outro lado da rua. Eu sabia de antemão que a mulher estava doente e já não reconhecia aos amigos. Não houve suspense, apenas a constatação serena dos fatos.
Um assistente pegou uma maca e a levou embaixo do braço; entrou na casa. Até esse instante não havia aparecido ninguém lá de dentro, apesar da porta já estar aberta. Coloquei-me logo atrás dos vidros fumês da janela e a meias cortinas, aguardando. Alguns momentos e vejo o corpo da mulher que vem amarrado na maca. Corpo amarelo, mole, com todas as características aguardadas. Que a morte é a ausência da vida, todos sabem; mas só percebemos o alcance desta afirmativa quando nos deparamos com um morto de fato. Parece-me impossível não distinguir um ser vivo de outro já sem vida. Redundantemente: falta-lhe algo.
Pois a mulher foi colocada ambulância à dentro como se fosse uma coisa já sem sentido. A partir de então, reparei que a filha dirigia-se à cabine do motorista, chorando; e por fim tomava assento. O marido, que tantos cuidados e dedicação havia dispensado à esposa doente por tanto tempo, chorava junto à porta com um lenço branco que às vezes ia à boca e noutras aos olhos.
A ambulância começou a sair e o homem, tantos anos casado com a morta, ficou olhando o carro distanciar-se lentamente. Depois entrou muito devagar e de cabeça baixa, fechando o portão atrás de si. Vi, momentos antes em seus olhos, a certeza de que estava sozinho; que, enquanto a ambulância saía devagar e virava a esquina, ele já sabia que não veria mais a mulher e que nunca mais ela entraria naquela casa; na qual ele, a partir de agora, ficava só. Vi tudo isto como se fosse um filme triste; todas as cenas ensaiadas à perfeição, aquela perfeição que só é alcançada quando se contracena com o surgimento da vida ou com a morte.
Abri novamente as janelas, as cortinas e uma fresta na lembrança, por onde entram vez ou outra estas cenas. O resto foi silêncio.
A Total Autoconfiança é Uma Fraqueza
II – O MANÍACO
«Pessoas completamente mundanas nunca entendem sequer o mundo; elas confiam plenamente numas poucas máximas cínicas não verdadeiras. Lembro-me de que, certa vez, fiz um passeio com um editor de sucesso, e ele fez uma observação que eu ouvira muitas vezes antes; é, na verdade, quase um lema do mundo moderno. Todavia, eu ouvi essa máxima cínica mais uma vez e não me contive: de repente vi que ela não dizia nada. Referindo-se a alguém, disse o editor: “Aquele homem vai progredir; ele acredita em si mesmo”.
Lembro-me de que, quando levantei a cabeça para escutar, meus olhos se fixaram num ônibus no qual estava escrito “Hanwell”. Disse-lhe eu então: “Quer saber onde ficam os homens que acreditam em si mesmos? Eu sei. Sei de homens que acreditam em si mesmos com uma confiança mais colossal do que a de Napoleão ou César. Sei onde arde a estrela fixa da certeza e do sucesso. Posso conduzi-lo aos tronos dos super-homens. Os homens que realmente acreditam em si mesmos estão todos em asilos de lunáticos”. Ele disse calmamente que, no fim das contas, havia um bom número de homens que acreditavam em si mesmos e que não eram lunáticos internados em asilos. “Sim, certamente”, retruquei, “e você mais do que ninguém deve conhecê-los. Aquele poeta bêbado de quem você não quis aceitar uma lamentável tragédia, ele acreditava em si mesmo. Aquele velho ministro com um poema épico de quem você se escondia num quarto dos fundos, ele acreditava em si mesmo. Se você consultasse sua experiência profissional em vez de sua horrível filosofia individualista, saberia que acreditar em si mesmo é uma das marcas mais comuns de um patife. Atores que não sabem representar acreditam em si mesmos; e os devedores que não vão pagar. Seria muito mais verdadeiro dizer que um homem certamente fracassará por acreditar em si mesmo. Total autoconfiança não é simplesmente um pecado; total autoconfiança é uma fraqueza. Acreditar absolutamente em si mesmo é uma crença tão histérica e supersticiosa como acreditar em Joanna Southcote: quem o faz traz o nome “Hanwell” escrito no rosto com a mesma clareza com que ele está escrito naquele ônibus.”
A tudo isso meu amigo editor deu esta profunda e eficaz resposta: “Bem, se um homem não acredita em si mesmo, em que vai acreditar?” Depois de uma longa pausa eu respondi: “Vou para casa escrever um livro em resposta a essa pergunta”. Este é o livro que escrevi para responder-lhe»
[ Excerto do livro «ORTODOXIA», de G. K. Chesterton ]
Camus – Sobre os Mortos Semeados na História
«Flutuavam números na sua memória e dizia a si próprio que umas três dezenas de pestes que a história conheceu tinham feito perto de cem milhões de mortos. Mas que são cem milhões de mortos? Quando se faz a guerra, já é muito saber o que é um morto. E já que um homem morto só tem significado se o vemos morrer, cem milhões de cadáveres semeados através da história esfumaçam-se na imaginação».
[ Albert Camus - A Peste ]
Platero e Eu – O Menino e a Fonte
«Na aridez abrasada de sol do grande lago poeirento que, por mais leve que se pise, cobre a gente, até os olhos, de branca poeira peneirada, o menino e a fonte formam um grupo risonho e esplêndido, cada qual com a sua alma. Embora ali não haja uma única árvore, o coração, em chegando, se enche de uma palavra que os olhos fixam, gravada no céu azul da Prússia, com grandes letras de luz: OÁSIS.
A manhã já tem um calor de sesta e a cigarra chia nas oliveiras, para as bandas do cercado de San Francisco. O sol bate em cheio na cabeça do menino. Ele, porém, distraído com a água, não sente. Estendido no chão, está com a mão sob o jorro vivo, e a água lhe põe na palma um borbotante tesouro de frescura e de graça que seus negros olhos comtemplam em êxtase. Fala sozinho, respira fundo, coça-se aqui e ali, com a outra mão. O tesouro, sempre igual e diferente sempre, desfaz-se às vezes. O menino, então, se retrai, apruma-se, concentra-se para que nem essa pulsação do sangue que, como um espelho que se movesse sozinho, muda a sensível imagem do calendoscópio, roube à água a primitiva forma surpreendida.
Platero, não sei se entenderás ou não o que te digo: mas esse menino tem a minha alma em sua mão».
[ Juan Ramón Jiménez - Platero e Eu, Cap. XLII - O Menino e a Fonte ]
As Tardes de Nuno Mendes
Nuno passava as tardes brincando quieto, em silêncio. Seus pais sempre dormiam após o almoço e ele ficava sozinho pela casa imensa. Quando somos pequenos todas as coisas parecem enormes. Ou será que vão encolhendo na medida em que crescemos? É de conhecimento público que nós é que crescemos, e na medida em que isso acontece os espaços vão-nos escasseando. No final das contas, as casas são mesmo menores. Vemos que são assim. Pontos de vista…
«Qual será a medida certa das coisas?», perguntamo-nos.
[ José Roldão ]
Albert Camus – Sobre o Exílio
«Sim, era realmente o sentimento do exílio esse vazio que trazíamos constantemente em nós, essa emoção precisa, o desejo irracional de voltar atrás ou pelo contrário, de acelerar a marcha do tempo, essas flechas ardentes da memória»
«Experimentava assim o sofrimento profundo de todos os prisioneiros e de todos os exilados, ou seja, viver com uma memória que não serve pra nada»
[ Albert Camus - A Peste. Págs. 66, 67 e 68 - 12ª Edição 1999, Editora Record ]
O Silêncio do Mundo e o Nosso Barulho
Estava pesquisando sobre Thomas Merton e me deparei com um blog muito interessante, o «Reflexões de Thomas Merton», do qual tomei a liberdade de copiar este excerto:
O silêncio do mundo e o nosso barulho
“Os que amam o ruído que fazem são impacientes com o resto. Desafiam constantemente o silêncio das florestas, das montanhas e do mar. Passeiam com suas máquinas pela floresta silenciosa, em todas as direções, cheios de medo de que um mundo calmo os acuse de vazios. A pressa da sua velocidade, a pretexto de um fim, simula ignorar a tranqüilidade da natureza. O avião ruidoso, por sua trajetória, por seu estrondo, por sua força aparente, por um momento parece negar a realidade das nuvens e do céu. Vai-se o avião, fica o silêncio do céu. Afasta-se ele, a tranqüilidade das nuvens permanece. O silêncio do mundo é que é real. O nosso barulho, os nossos negócios, os nosso planos e todas as nossas fátuas explicações sobre o nosso barulho, negócios e planos, tudo isso é ilusão.”
No Man is an Island, de Thomas Merton
(Harcourt Brace Jovanovich, Publishers, New York), 1955. p. 257
DOSTOIÉVSKI – ORADORES PATÉTICOS
“Ficou tudo em silêncio às primeiras palavras do célebre advogado. A sala inteira tinha os olhos fixos nele. Começou com uma simplicidade persuasiva, mas sem a menor jactância. Nenhuma pretensão à eloqüência e ao patético. Era um homem que conversava na intimidade de um círculo de amigos. Tinha uma bela voz, forte, agradável, em que ressoava algo de sincero, de simples. Mas cada qual sentiu logo que o orador podia elevar-se ao verdadeiro patético, e tocar os corações com uma força desconhecida“‘.
[ in Fiódor M. Dostoiévski - Obra Completa, Volume IV, pág. 1.061. Os Irmãos Karamázovi – IV parte – L. XII. Editora Nova Aguilar S.A., 1995. ]
KAFKA – O LAÇO DIANTE DO ROSTO
“É como quando alguém será enforcado. Se ele realmente é enforcado, morre e acaba tudo. Mas se tem de presenciar todos os preparativos para o enforcamento e só fica sabendo do indulto quando o laço pende diante de seu rosto, nesse caso ele talvez venha a sofrer a vida inteira por causa disso”.
[ Kafka – Carta ao Pai ]
GONÇALO M. TAVARES – UMA VIAGEM A PÉ
O senhor Valéry andava sempre a pé. Muito rápido, com passinhos pequeninos. (Neste particular era parecido com o sr. Sommer, um vizinho).
Um dia o senhor Valéry precisou de se deslocar a um ponto afastado da cidade.
A pé demoraria dez horas. De comboio apenas vinte minutos.
Depois de muito pensar o senhor Valéry decidiu ir a pé. O senhor Valéry explicava:
- Quem me garante que o sítio onde chego após dez horas é o mesmo do que aquele que chego em vinte minutos?
E com mais convicção dizia:
- É evidente que não é o mesmo sítio.
E o senhor Valéry desenhou, então, duas setas de comprimento muito diferente
E exclamou:
- Só um louco diria que o ponto final das duas setas é o mesmo.
Ganhando balanço o senhor Valéry continuou:
- E mesmo se eu for de comboio e esperar parado, no destino, 9 horas e 40 minutos, esse meu destino não será o mesmo daquele a que eu chego em dez horas de caminho a pé; já que eu estive lá, nesse sítio, mesmo que parado, 9 horas e 40 minutos a modificá-lo.
E começou, então, a andar, pois a decisão estava tomada.
Ao fim de vinte minutos de caminhada o senhor Valéry olhou para o relógio e pensou, de modo algo confuso:
- Se eu me encontrasse já no meu destino, este momento exacto seria o sítio onde eu chegaria.
Olhou à sua volta e disse:
- Porém, este não é ainda o meu destino.
Continuou, assim, a andar.
Mais tarde, contente, exclamou, ainda para si próprio:
- Ainda não cheguei, mas eu vou para outro sítio.
E como faltavam ainda cerca de 9 horas para chegar onde queria, o senhor Valéry continuou a andar, contente e feliz com os seus raciocínios, um pé a seguir ao outro, sempre ao mesmo ritmo, a andar em direcção ao seu destino.
- A mim ninguém me engana – murmurava o senhor Valéry, já a suar muito.
(O Senhor Valéry – Gonçalo M. Tavares)
VIRGÍNIA WOOLF – PERDER AMIGOS
FERNANDO PESSOA – NUVENS
“Nuvens… Hoje tenho consciência do céu, pois há dias em que não o olho mas sinto, vivendo na cidade e não na natureza que a inclui. Nuvens… São elas hoje a principal realidade, e preocupam-me como se o velar do céu fosse um dos grandes perigos de meu destino. Nuvens… Passam da barra para o Castelo, de Ocidente para Oriente, num tumulto disperso e despido, branco às vezes, se vão esfarrapadas na vanguarda de não sei o quê; meio-negro outras, se, mais lentas, tardam em ser varridas pelo vento audível; negras de um branco sujo, se, como se quisessem ficar, enegrecem mais da vinda que da sombra o que as ruas abrem de falso espaço entre as linhas fechadoras da casaria”.
(Fernando Pessoa – Livro do Desassossego – por Bernardo Soares)
FERNANDO NAMORA – RETALHOS
“Há dias em que a melancolia chove dentro de nós como num pátio interior, atapetado de jornais velhos. Não se ouve, não se sente – mas rebrilha na sujidade densa. Eu estava num desses dias quando afastei a cortina e olhei pela janela a tarde que se ofuscara de repente, com pressa de se evadir da atmosfera enfastiada e, sobretudo, de um cenário sem alegria…”. (…)
“Mas em fechando a cortina tudo isso desaparecia: eis-me de novo isolado no gabinete fofo, de paredes que, a partir de certo momento, me davam a sensação irrespirável de uma espessura acolchoada onde tudo ficava retido: a fadiga, o silêncio…
(…)
[Fernando Namora - Retalhos da Vida de Um Médico - Segunda Série - excertos, pág 305; 14ª Edição. Livraria Bertrand]








