Fragmentos de Tempo

Ficcionar é tornar o mundo artisticamente aceitável

Archive for the ‘morte’ Category

Todos os anos de uma só vez a cair

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chuva janela— O que importa o lugar, Dane-se! Cale-se!, pois trago todo o peso do mundo comigo, minha filha está morta, se fosse viva dois mundos apoiavam-se em meus ombros mais a minha filhinha a bater-me, a gritar-me, jogando coisas e deixando marcas de suor nas paredes, os dedos dela a perfurarem o abdômen ferido e eu a cuidar inventando mil remédios, e eu forte, e eu mais feliz, a brigar com o tempo e a esquecer da morte (…)

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Escrito por José Roldão

Julho 11, 2009 em 3:24 am

Gonçalo M. Tavares – A morte do pai

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1022995_4O pai morreu

   e ele, que era duro, endureceu mais.

Informou da existência do cadáver

   como quem relembra um pormenor.

Amava o pai, mas o coração é assim

(a lei da sobrevivência):

   esconde-se quando o querem matar.

( 1Gonçalo M. Tavares, Editora Bertrand Brasil 2005)

Escrito por José Roldão

Novembro 26, 2008 em 11:45 pm

A mulher não está morta

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E o silêncio rompeu-se: foi levada para a UTI. Não se sabe se de lá retorna (e por isso julgo aquelas cenas de morte previamente anunciada, sentida), mas bem pode ser, quem sabe? Minha mãe, ao telefone internacional, disse-me: «Eu estava já tão triste! Na UTI, mesmo que mal, ainda há esperança…». A vizinha contou-me: «Não morreu ainda, mas antes de ser internada já estava por demais agressiva…».

A mulher sofre de Mal de Alzheimer, uma doença degenerativa do cérebro, e que causa perda da memória episódica. É certo, já não se recordava de quase ninguém e, julgo eu, possa se dever a isto que se tenha tornado agressiva. Será que sem memória conseguiríamos ser bons para com os outros? Que outros? Não ter memória é o máximo da solidão…

Escrito por José Roldão

Novembro 14, 2008 em 12:06 am

A MULHER ESTÁ MORTA

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Esta semana olhei pela janela de manhã e vi que uma ambulância estava parada à porta da casa do outro lado da rua. Eu sabia de antemão que a mulher estava doente e já não reconhecia aos amigos. Não houve suspense, apenas a constatação serena dos fatos.

Um assistente pegou uma maca e a levou embaixo do braço; entrou na casa. Até esse instante não havia aparecido ninguém lá de dentro, apesar da porta já estar aberta. Coloquei-me logo atrás dos vidros fumês da janela e a meias cortinas, aguardando. Alguns momentos e vejo o corpo da mulher que vem amarrado na maca. Corpo amarelo, mole, com todas as características aguardadas. Que a morte é a ausência da vida, todos sabem; mas só percebemos o alcance desta afirmativa quando nos deparamos com um morto de fato. Parece-me impossível não distinguir um ser vivo de outro já sem vida. Redundantemente: falta-lhe algo.

Pois a mulher foi colocada ambulância à dentro como se fosse uma coisa já sem sentido. A partir de então, reparei que a filha dirigia-se à cabine do motorista, chorando; e por fim tomava assento. O marido, que tantos cuidados e dedicação havia dispensado à esposa doente por tanto tempo, chorava junto à porta com um lenço branco que às vezes ia à boca e noutras aos olhos.

A ambulância começou a sair e o homem, tantos anos casado com a morta, ficou olhando o carro distanciar-se lentamente. Depois entrou muito devagar e de cabeça baixa, fechando o portão atrás de si. Vi, momentos antes em seus olhos, a certeza de que estava sozinho; que, enquanto a ambulância saía devagar e virava a esquina, ele já sabia que não veria mais a mulher e que nunca mais ela entraria naquela casa; na qual ele, a partir de agora, ficava só. Vi tudo isto como se fosse um filme triste; todas as cenas ensaiadas à perfeição, aquela perfeição que só é alcançada quando se contracena com o surgimento da vida ou com a morte.

Abri novamente as janelas, as cortinas e uma fresta na lembrança, por onde entram vez ou outra estas cenas. O resto foi silêncio.

Escrito por José Roldão

Novembro 9, 2008 em 3:26 am