Fragmentos de Tempo

Ficcionar é tornar o mundo artisticamente aceitável

Archive for the ‘Poesias’ Category

O labirinto que antecede as pontes

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Existem pontes

São tantas

E o problema de existirem assim

Tantas

É que ficamos parados

(nos momentos decisivos)

A olhar para cada uma delas

Os olhos bem abertos

Às diversas possibilidades

E o problema de existirem assim

Tantas

É que ficamos perdidos

(e nos esquecemos das pontes, por instantes)

A pensar em cada uma delas

 

Depois

É preciso que alguém nos chame

De longe

(será que ouvimos?)

Pois já estaremos sozinhos

Às voltas com as idéias

(tantas!)

No labirinto que inventamos

Escrito por José Roldão

Março 4, 2009 em 1:22 am

O passar das coisas

with

Só percebemos o momento

quando o buscamos no passado.

O presente à nossa volta entorpece-nos,

turva-nos os pensamentos.

É preciso pressa; agora.

Mais tarde,

quando tudo se tornar memória,

somos ainda capazes de retocar os acontecimentos.

Pegamo-los para nós; arrancamo-los do tempo.

Os que fazem isto com arte chamam-se poetas.

Escrito por José Roldão

Novembro 28, 2008 em 1:13 am

Gonçalo M. Tavares – A morte do pai

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1022995_4O pai morreu

   e ele, que era duro, endureceu mais.

Informou da existência do cadáver

   como quem relembra um pormenor.

Amava o pai, mas o coração é assim

(a lei da sobrevivência):

   esconde-se quando o querem matar.

( 1Gonçalo M. Tavares, Editora Bertrand Brasil 2005)

Escrito por José Roldão

Novembro 26, 2008 em 11:45 pm

Juan Ramón Jiménez – A Viagem Definitiva

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Ir-me-ei embora. E ficarão os pássaros
Cantando.
E ficará o meu jardim com sua árvore verde
E o seu poço branco.

Todas as tardes o céu será azul e plácido,
E tocarão, como esta tarde estão tocando,
Os sinos do campanário.

Morrerão os que me amaram
E a aldeia se renovará todos os anos.
E longe do bulício distinto, surdo, raro
Do domingo acabado,
Da diligência das cinco, das sestas do banho,
No recanto secreto de meu jardim florido e caiado
Meu espírito de hoje errará nostálgico…
E ir-me-ei embora, e serei outro, sem lar, sem árvore
Verde, sem poço branco,
Sem céu azul e plácido…
E os pássaros ficarão cantando.

[ Juan Ramón Jiménez ]

Escrito por José Roldão

Julho 25, 2008 em 3:39 am

MUITA FUMAÇA ENTRE O POR DO SOL E EU

with

Muita fumaça entre o por do sol e eu

Ele quase que já se foi

Eu forço a vista como quem range os olhos

Muita fumaça entre o por do sol e eu

As luzes de um avião me encaram

Está escuro aqui

É difícil de me ver escondido dentro de uma janela

Ao horizonte tudo vermelho

O sol fere e sangra a noite que insiste

Todos sabem que não há como vencer

O sol insiste todos os dias

Melhor que os homens

Nós enchemos o céu com fumaça

Depois temos de engelhar o rosto

Mas não mostramos os dentes

Temos culpa espalhada na pele

Temos um sorriso discreto

E um céu da boca carregado

O avião já se foi

Foi difícil de me ver aqui escondido

Uma janela é boa coisa de se ter

Quando se quer ficar oculto

Agora todas as luzes da cidade estão acesas

São como estrelas caídas

Mais estrelas pelas ruas do que no céu

Penduradas em postes

Dentro das casas

Um isqueiro que se acende na esquina

O cigarro numa boca que se distancia

Estrela cadente que vai

Na boca de um homem

Muita fumaça entre o mundo e eu

E a noite venceu mais uma vez

Todos sabem que não há como vencer

Mas o sol insiste todos os dias

Melhor que os homens

[ José Roldão ]

Escrito por José Roldão

Maio 24, 2008 em 6:17 pm

O MAPA

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Saber onde está o tesouro não basta!

É preciso encontrar o caminho.

Tem que pisar no caminho.

Tem que ter os pés descalços,

Pois é preciso endurecer a pele!

É bom ter também os punhos fechados,

Pois é preciso também ser forte!

Ajuda muito ter os olhos bem abertos,

Pois o tempo insiste em fechá-los.

Um dia seremos todos vencidos,

Cansaremos as pálpebras

E um último bocejo se encarregará do resto.

Saber onde está o tesouro não basta.

É do mapa que mais precisamos.

[ José Roldão ]

Escrito por José Roldão

Maio 4, 2008 em 2:00 am

DESERTO

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Tenho um choro retido na garganta

Desses que ficam gritando encarcerados

Não cedo as chaves nem descanso os olhos

Que vigiam atentos qualquer tentativa de fuga

Tenho um nó apertado na lembrança

Desses que, se puxam, ficam mais apertados

Não cedo atenção nem dilato os poros

Que engelham a pele sentindo dor alguma

Sinto como se o tempo escoasse

Ralo abaixo de minha vida aberto

Secando toda reserva que em mim exista

Melhor mesmo que seque ‘inda que resista

Assim do cárcere e do laço me liberto

E não haveria dor nem fuga que me alcançasse

[ José Roldão ]

Escrito por José Roldão

Abril 2, 2008 em 8:56 am

Publicado em José Roldão, Literatura, Poesias

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DILÚVIO

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Turba-me a vista aquela paisagem

Há tanto guardada na arca da memória

Não foi bastante aquele dilúvio

Pois, de par e par, todos os meus instintos

Fechados comigo sofrendo a tempestade

Debateram-se nas histórias, sem escrúpulos

Algumas – invenções à flor-da-pele

Outras – memórias, realidades; quase nada

Por quarenta dias, arderam-me absurdos

Por quarenta noites, fingi que sonhava alucinado

Com quem aperta os olhos em apuros

Tendo por dentro o coração convulsionado

[ José Roldão ]

Escrito por José Roldão

Março 28, 2008 em 4:28 am

FERNANDO PESSOA – SER POETA

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“Ser poeta não é uma ambição minha

É a minha maneira de estar sozinho”

-

[ Fernando Pessoa - O Guardador de Rebanhos ]

Escrito por José Roldão

Março 19, 2008 em 1:04 am

novo blog: cidade solitária

with

Estou com mais um blog, chamado: CIDADE SOLITÁRIA, neste link:

http://jroldao.wordpress.com/

O título, como alguns devem perceber, é inspirado na obra do escritor-médico-português Fernando Namora; uma coleção de narrativas que tem o mesmo nome. Aliás, Fernando Namora é um de meus autores preferidíssimos.

Qual o motivo para criar outro blog? Não sei mesmo porque, mas o Fragmentos de Tempo sempre me aprisiona para determinados assuntos. Tipo, não consigo publicar aqui – trava-me as mãos e os olhos – determinadas coisas; quase sempre coisas que sejam mais pessoais e diretas, opiniões minhas e observações cotidianas. No novo blog pretendo justamente me expor mais – sem, no entanto, descobrir-me muito – e publicar percepções mais cruas e diretas que possam ocorrer em meu cotidiano.

Certamente – muito, muito certamente mesmo (aliás, já ocorreu no primeiro relato) – é impossível pra mim não ficcionalizar algumas coisas, mesmo as mais triviais. Não sei se isso é dom ou cadeia invisível, mas até que me dá bastante prazer realizar tais distorções ou reparos.

Convido-os todos a assinarem o Cidade Solitária, seja para receberem via email ou RSS, e os aguardo com muita alegria nas visitas constantes que possam me conceder!

Bons Ventos!

José Roldão

FERNANDO PESSOA – QUANDO ELA PASSA

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Quando eu me sento à janela

P’los vidros qu’a neve embaça

Vejo a doce imagem d’elia

Quando passa… passa…. passa…

Lançou-me a mágoa seu véu:

Menos um ser n’este mundo

E mais um anjo no céu.

Quando eu me sento à janela

P’los vidros qu’a neve embaça

Julgo ver imagem dela

Que já não passa… não passa. (1)

5.5.1902

(1) – João Gaspar Simões aventa que esta poesia escrita por Fernando Pessoa, aos 13 anos, em Durban ou nos Açores por ocasião da viagem então feita à terceira, terá sido inspirada pela morte recente de sua meia-irmã Madalena. Vida e Obra de Fernando Pessoa, ed. Livraria Bertrand, Lisboa, 2ª edição. Sem data, p. 74

Escrito por José Roldão

Fevereiro 25, 2008 em 12:57 am

fernando pessoa – pré-texto

with

“E afinal o que eu quero é fé e calma

E não ter essas sensações confusas

Deus que acabe com isto! Abra as eclusas

E basta de comédias na minh’alma.”

 

[Fernando Pessoa - Opiário]

Escrito por José Roldão

Dezembro 27, 2007 em 12:35 am

O Retorno do Herói

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Ao contrário do que planejamos
Ao contrário do que estava no roteiro
Não haverá um retorno ao lar
O herói não será erguido pela multidão extasiada
E nem será imortalizado em camisetas de adolescentes
O fim passará desapercebido
Os olhos verão apenas a poeira erguida
E quando ela baixar
Haverá apenas a estrada
Será simples assim
No final de um dia como hoje
O suposto fim
Na aparente estrada
Que vai para lugar nenhum

[ Jean Darilho ]

Escrito por José Roldão

Setembro 25, 2007 em 2:29 pm

MIGUEL TORGA – ADÁGIO

with

“Tão curta a vida e tão comprido o tempo!…

Feliz quem não o sente.

Quem respira tão fundo

O ar do mundo,

Que vive em cada instante eternamente.”

[ Miguel Torga ]

Escrito por José Roldão

Setembro 21, 2007 em 12:24 am

FERNANDO PESSOA – DIZEM QUE FINJO OU MINTO

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Dizem que finjo ou minto
Tudo que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.

Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.

Por isso escrevo em meio
Do que não está ao pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é,
Sentir, sinta quem lê!

Escrito por José Roldão

Setembro 13, 2007 em 3:17 am

JUAN RAMÓN JIMÉNEZ – O POÇO

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500458484_5a721349eb “(A noite desce, e a lua brilha lá no fundo, engrinaldada de estrelas andarengas. Silêncio! Pelos caminhos, a vida, a vida se dilui na distância. Do poço escapa a alma das profundezas. Por ele se vê como que o outro lado do poente. E parece que de seu bojo vai sair o gigante da noite, senhor de todos os enigmas do mundo. Ó labirinto fantástico e silente, umbroso e perfumado parque, salão mágico e encantado!)

- Platero, se um dia eu me jogar neste poço, não será para matar-me, podes estar certo, mas sim para apanhar mais depressa as estrelas”.

Juan Ramón Jiménez – Trecho de “O Poço”, da obra “Platero e Eu”.

Escrito por José Roldão

Setembro 10, 2007 em 11:01 pm

AURORA

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aurora

Que a tristeza seja um breve instante nesta existência

Pois que nem o sol nem a lua estão imóveis no céu

Só assim passam-se as horas

E podemos ver a linha do horizonte

Percebemos o abrir e fechar do véu

Para só então vislumbrarmos a serenidade e persistência

Do amanhecer que levanta a aurora

Em mais um dia que desponta como quem se esqueceu.

[ José Roldão ]

Escrito por José Roldão

Setembro 10, 2007 em 1:55 pm

LOUCAS SÃO AS NOITES

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Eu fiz canções na madrugada
sentado na cama de lençóis amarelos
o incenso exalava miniaturas de eucaliptos
no quarto, esta caixa que me cerca

Escrevi uns versos e os vesti de música
dei voz ao que me esvaziava
saquei das cordas, invoquei o som e vi
que dançavam sombras no candelabro

Tudo ressoava no guarda roupas
senti a janela vibrar quase em fuga
o espelho fechara os olhos de prazer e não refletia,
a cômoda se ressentia ao meu lado
o lustre bailava como há muitos ventos não se via
eu trincava as unhas no tampo batido do violão alado
e a porta rangia louca cantarolando a melodia

Quando me faltou o ar, parei de repente.

Mais nada…

Depois que o som alcança alturas
ele cai morto e deixa o cadáver do silêncio.

[ José Roldão ]

Escrito por José Roldão

Setembro 10, 2007 em 1:53 pm

IN-PACIÊNCIA

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Um minuto, creio que seja o bastante

Nada pode ser tão permanente que dure

Intacto, por mais de um minuto, silente

Penso dos objetos, corpos, adjetivos, estruturas

Idéias permanecem, creio que sigam adiante

Além mesmo daquele que às teve em mente

De fato, por mais insalubre idéia, porém inebriante

Como agir prematuramente, sem sombras, dedos

Em riste, como se fossem flechas

Que não quisessem chegar ao alvo

Mas preferissem a dor da espera,

A ânsia do impacto a qualquer momento

Agora, invento o som perfeito

Da flecha que deveria chegar

Rápido, plenos pulmões atacando o ar

Um grito, rouco, acumulado, turvando a vista

Era pra deixar a alma vazia, mas não:

Foi em cheio…

[ José Roldão ]

02/09/2007 00:56h

Escrito por José Roldão

Setembro 2, 2007 em 1:12 am

A POESIA É UM SONHAR POR ESCRITO

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A poesia tem o poder de contar ao leitor não apenas aquilo que ele pensa de si mesmo, mas até mesmo o que deixou de pensar por não sabê-lo. Pode ser também a maior de todas as vigílias – ou, quem sabe, o quase infinito da multiplicação de todas elas, mesmo dos seres que nunca acordaram. Dormir, acordar… A consciência não cede à exclusividade dos olhos, mas bem que pode enamorá-los…

Para mim,

A poesia é um sonhar por escrito.

Perde-se o tempo quando se está a escrever, e se o reencontramos foi porque a poesia findou. Afinal, os ponteiros do relógio na parede só parecem estar se movendo quando reparamos neles.

[ José Roldão ]

Escrito por José Roldão

Agosto 30, 2007 em 12:57 am

ESPÍRITO ATENTO

with

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Estávamos na beira do abismo
O vento soprava
Tínhamos tempo
Um pouco
Mas nos bastava
Fitávamos a planície
A extensão das horas
O calar da tarde
Um sol que desaparecia
Mas havia algo
Sabíamos da espera
Não tardaríamos a saber
Então o vento parou
O cheiro do mato assaltava
O inseto avisava aos ouvidos
A noite prenunciava
Sentamos debaixo da lua
E o frio cortou
Luminárias no céu acenavam
Acendemos um sorriso
Aquecemos as mãos no atrito
Os pés descalços
A terra pulsava o assento
As costas em ângulo
Os olhos abertos
O espírito atento
A linha do horizonte apagada
Mas sabíamos do coração
Ele nos contou um segredo
Não tardamos a saber
Era sobre o vento
Arrebatava nosso peito
Incendiava os poros
Faiscava o semblante
Mexia nos arbustos
E soubemos do amor
Era ele quem nos havia chamado
Preencheu todo o platô
E já não era mais abismo
Era tudo o mais
E levantamos
Voltamos pela mesma trilha
Mas não guardamos passos
Não deixamos pegadas
Apenas descemos ou subimos
Não importa
Chegamos até aqui
Trouxemos o amor
Que fundou morada
O sol deu um salto
E um novo dia revelou
A noite que esperamos
Pensando no abismo
Mirando a planície
Sem saber ainda
Que o amor não viria de parte alguma
Pois era plenamente vida.

[ José Roldão ]

Escrito por José Roldão

Agosto 24, 2007 em 12:40 am

FERNANDO PESSOA – ASSIM COMO AS PALAVRAS…

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Assim como falham as palavras quando querem exprimir qualquer pensamento,
Assim falham os pensamentos quando querem exprimir qualquer realidade.
Mas, como a realidade pensada não é a dita, mas a pensada,
Assim a mesma dita realidade existe, não o ser pensada.

Assim tudo o que existe, simplesmente existe.
O resto é uma espécie de sono que temos,
Uma velhice que nos acompanha desde a infância da doença.

Alberto Caeiro, 1-10-1917

Escrito por José Roldão

Agosto 22, 2007 em 2:46 pm

PONTOS

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tentei conversar com uma pedra

não respondeu

então falei sozinho

respondi muitas coisas a mim mesmo

a pedra parada ali, sobre a mesa

será que a pedra não existe?

existe, pois a vejo e sinto

mas – pensemos (!)

e se eu não existisse

será que ela continuaria a existir

mesmo sem pensar

ou sentir algo em si mesma?

sim, é claro

pois um terceiro ponto

que nos transcende

existiu antes de nós

existe agora

e vai existir além

só nesse terceiro ponto

que é, na verdade, antes do primeiro

é que há existência

independente de que alguém exista

pois esse ponto É

mas só Ele

É. Ponto.

[ José Roldão ]

Escrito por José Roldão

Agosto 10, 2007 em 2:12 am

FERNANDO PESSOA – O GUARDADOR DE REBANHOS

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    [206]

     

    Eu nunca guardei rebanhos,

    Mas é como se os guardasse.

    Minha alma é como um pastor,

    Conhece o vento e o sol

    E anda pela mão das Estações

    A seguir e a olhar.

    Toda a paz da Natureza sem gente

    Vem sentar-se a meu lado.

    Mas eu fico triste como um pôr-de-sol

    Para a nossa imaginação,

    Quando esfria no fundo da planície

    E se sente a noite entrada

    Como uma borboleta pela janela.

    Mas a minha tristeza é sossego

    Porque é natural e justa

    E é o que deve estar na alma

    Quando já pensa que existe

    E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.

     

    Como um ruído de chocalhos

    Para além da curva da estrada,

    Os meus pensamentos são contentes.

    Só tenho pena de saber que eles são contentes,

    Porque, se o não soubesse,

    Em vez de serem contentes e tristes,

    Seriam alegres e contentes.

     

    Pensar incomoda como andar à chuva

    Quando o vento cresce e parece que chove mais.

     

     

    Não tenho ambições nem desejos

     

    Ser poeta não é uma ambição minha

    É a minha maneira de estar sozinho.


     

    E se desejo às vezes

    Por imaginar, ser cordeirinho

    (Ou ser o rebanho todo

    Para andar espalhado por toda a encosta

    A ser muita cousa feliz ao mesmo tempo),

    É só porque sinto o que escrevo ao pôr-do-sol,

    Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz

    E corre um silêncio pela erva fora.

     

    Quando me sento a escrever versos

    Ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos,

    Escrevo versos, num papel que está no meu pensamento

    Sinto um cajado nas mãos

    E vejo um recorte de mim

    No cimo dum outeiro,

    Olhando para o meu rebanho e

    vendo as minhas idéias

    Ou olhando para as minhas idéias

    e vendo o meu rebanho,

    E sorrindo vagamente

    como quem não compreende o que se diz

    E quer fingir que compreende.

     

    Saúdo todos os que me lerem,

    Tirando-lhes o chapéu largo

    Quando me vêem à minha porta

    Mal a diligência levanta no cimo do outeiro.

    Saúdo-os e desejo-lhes sol,

    E chuva, quando a chuva é precisa,

    E que as suas casas tenham

    Ao pé duma janela aberta

    Uma cadeira predileta

    Onde se sentem, lendo os meus versos.

    E ao lerem os meus versos pensem

    Que sou qualquer cousa natural -

    Por exemplo, a árvore antiga

    À sombra da qual quando crianças

    Se sentavam com um baque, cansados de brincar,

    E limpavam o suor da testa quente

    Com a manga do bibe riscado.


    Fernando Pessoa – O Guardador de Rebanhos

Escrito por José Roldão

Julho 25, 2007 em 3:46 am

Solidão Companheira

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Éramos simples e completos

Estávamos vivos e atentos

Tínhamos um sorriso público nos lábios

E uma tristeza amiga na solidão

Era assim…

Não trazíamos dívidas no bolso

Apenas as mãos descansadas

Enquanto olhávamos pra frente sob o sol

A paz fechando os olhos de satisfação

Era mesmo assim…

Aquele sossego suado na pele…

Hoje, neste dia, me custa bastante a poesia

Algumas palavras chegam atravessadas

Impedindo um grito rouco de exaustão

A tensão trotando os nervos

Um sorriso privado nos olhos

Cabeça em riste e lábios apertados

A paz ficando longe até onde a vista não alcança

Um cheiro antigo galopando a solidão

Acredito que outra chuva ainda cairá

E levará nossos danos ao escritor

E uma novela vencerá bilheterias

E nas bancas de jornal

Em pleno e ensolarado domingo

Você irá comprar o último número

O melhor de todos

Aquele em que no final terá uma foto

simples por do sol numa praia distante

tão distante que nem sei

e entre o leitor e o horizonte

um menino acenando

com uma das mãos para o sol que está indo

e a outra descansando no bolso

cheio do sal desta vida…

Escrito por José Roldão

Julho 3, 2007 em 1:28 am

Publicado em José Roldão, Poesias

Ponto Final.

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hoje eu quero desesperadamente escrever

desanuviar o semblante que entorpeceu

gastar as mãos na folha lisa até que amasse

olhar o branco manchado de tinta cinza

debulhar o milho de minha infância

degustar o vinho envelhecido no carvalho

fugir do embuste que me armadilha

soltar o grito rasgando a garganta

arrastar a unha abrindo os poros

alargar a pele para riscar um cuidado

hoje eu quero apenas querer escrever

quero burlar aquele que em mim se esconde

saltar o abismo que me encobriu: madrugada!

e chegar até aqui, enfim, no ponto.

Escrito por José Roldão

Julho 3, 2007 em 1:16 am

Publicado em José Roldão, Poesias

Quem dera…

with

a mesma imagem

um virar o corpo e um adeus

o olhar que chora e despede

até o ano que vem

até que o tempo não mais nos separe

quem dera

 

as voltas nos cômodos silenciosos

um prato de comida sobre o fogão

as roupas secando no varal noturno

a memória da voz que adverte

quem dera

 

até que o passar dos dias

me tampe os ouvidos da memória

até que os olhos sequem

os rios das lembranças de agora

 

eu

 

doido dos braços fortes

pronto para abraçar o outro lado

espero como quem guarda um segredo

um segredo admirável

acertar os ponteiros em outro fuso

nos quadros de um conhecido cenário

 

quem dera…

 

15/06/2007 – 02:15H

…para minha mãe

Escrito por José Roldão

Junho 15, 2007 em 2:18 am

Publicado em José Roldão, Poesias

Lume

com 2 comentários

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Não fiques triste, minha pequena
é teu este colo usado
é tua minha mão de música
aquieta-te em mim que te recebo
como quem se encanta e acaricia
Não desanimes por demais
Não desabrigue a alegria
na paisagem deste meu mundo, coração
te dei um jardim como a ninguém mais
era noite escura, minha flor
mas agora é teu sorriso que alumia.

Para Joanna, minha FLOR.

Escrito por José Roldão

Fevereiro 21, 2007 em 3:38 am

Publicado em José Roldão, Poesias