Archive for the ‘Poesias’ Category
O labirinto que antecede as pontes
Existem pontes
São tantas
E o problema de existirem assim
Tantas
É que ficamos parados
(nos momentos decisivos)
A olhar para cada uma delas
Os olhos bem abertos
Às diversas possibilidades
E o problema de existirem assim
Tantas
É que ficamos perdidos
(e nos esquecemos das pontes, por instantes)
A pensar em cada uma delas
Depois
É preciso que alguém nos chame
De longe
(será que ouvimos?)
Pois já estaremos sozinhos
Às voltas com as idéias
(tantas!)
No labirinto que inventamos
O passar das coisas
Só percebemos o momento
quando o buscamos no passado.
O presente à nossa volta entorpece-nos,
turva-nos os pensamentos.
É preciso pressa; agora.
Mais tarde,
quando tudo se tornar memória,
somos ainda capazes de retocar os acontecimentos.
Pegamo-los para nós; arrancamo-los do tempo.
Os que fazem isto com arte chamam-se poetas.
Gonçalo M. Tavares – A morte do pai
e ele, que era duro, endureceu mais.
Informou da existência do cadáver
como quem relembra um pormenor.
Amava o pai, mas o coração é assim
(a lei da sobrevivência):
esconde-se quando o querem matar.
( 1 – Gonçalo M. Tavares, Editora Bertrand Brasil 2005)
Juan Ramón Jiménez – A Viagem Definitiva
Ir-me-ei embora. E ficarão os pássaros
Cantando.
E ficará o meu jardim com sua árvore verde
E o seu poço branco.
Todas as tardes o céu será azul e plácido,
E tocarão, como esta tarde estão tocando,
Os sinos do campanário.
Morrerão os que me amaram
E a aldeia se renovará todos os anos.
E longe do bulício distinto, surdo, raro
Do domingo acabado,
Da diligência das cinco, das sestas do banho,
No recanto secreto de meu jardim florido e caiado
Meu espírito de hoje errará nostálgico…
E ir-me-ei embora, e serei outro, sem lar, sem árvore
Verde, sem poço branco,
Sem céu azul e plácido…
E os pássaros ficarão cantando.
[ Juan Ramón Jiménez ]
MUITA FUMAÇA ENTRE O POR DO SOL E EU
Muita fumaça entre o por do sol e eu
Ele quase que já se foi
Eu forço a vista como quem range os olhos
Muita fumaça entre o por do sol e eu
As luzes de um avião me encaram
Está escuro aqui
É difícil de me ver escondido dentro de uma janela
Ao horizonte tudo vermelho
O sol fere e sangra a noite que insiste
Todos sabem que não há como vencer
O sol insiste todos os dias
Melhor que os homens
Nós enchemos o céu com fumaça
Depois temos de engelhar o rosto
Mas não mostramos os dentes
Temos culpa espalhada na pele
Temos um sorriso discreto
E um céu da boca carregado
O avião já se foi
Foi difícil de me ver aqui escondido
Uma janela é boa coisa de se ter
Quando se quer ficar oculto
Agora todas as luzes da cidade estão acesas
São como estrelas caídas
Mais estrelas pelas ruas do que no céu
Penduradas em postes
Dentro das casas
Um isqueiro que se acende na esquina
O cigarro numa boca que se distancia
Estrela cadente que vai
Na boca de um homem
Muita fumaça entre o mundo e eu
E a noite venceu mais uma vez
Todos sabem que não há como vencer
Mas o sol insiste todos os dias
Melhor que os homens
[ José Roldão ]
O MAPA
Saber onde está o tesouro não basta!
É preciso encontrar o caminho.
Tem que pisar no caminho.
Tem que ter os pés descalços,
Pois é preciso endurecer a pele!
É bom ter também os punhos fechados,
Pois é preciso também ser forte!
Ajuda muito ter os olhos bem abertos,
Pois o tempo insiste em fechá-los.
Um dia seremos todos vencidos,
Cansaremos as pálpebras
E um último bocejo se encarregará do resto.
Saber onde está o tesouro não basta.
É do mapa que mais precisamos.
[ José Roldão ]
DESERTO
Tenho um choro retido na garganta
Desses que ficam gritando encarcerados
Não cedo as chaves nem descanso os olhos
Que vigiam atentos qualquer tentativa de fuga
Tenho um nó apertado na lembrança
Desses que, se puxam, ficam mais apertados
Não cedo atenção nem dilato os poros
Que engelham a pele sentindo dor alguma
Sinto como se o tempo escoasse
Ralo abaixo de minha vida aberto
Secando toda reserva que em mim exista
Melhor mesmo que seque ‘inda que resista
Assim do cárcere e do laço me liberto
E não haveria dor nem fuga que me alcançasse
[ José Roldão ]
DILÚVIO
Turba-me a vista aquela paisagem
Há tanto guardada na arca da memória
Não foi bastante aquele dilúvio
Pois, de par e par, todos os meus instintos
Fechados comigo sofrendo a tempestade
Debateram-se nas histórias, sem escrúpulos
Algumas – invenções à flor-da-pele
Outras – memórias, realidades; quase nada
Por quarenta dias, arderam-me absurdos
Por quarenta noites, fingi que sonhava alucinado
Com quem aperta os olhos em apuros
Tendo por dentro o coração convulsionado
[ José Roldão ]
FERNANDO PESSOA – SER POETA
“Ser poeta não é uma ambição minha
É a minha maneira de estar sozinho”
-
[ Fernando Pessoa - O Guardador de Rebanhos ]
novo blog: cidade solitária
Estou com mais um blog, chamado: CIDADE SOLITÁRIA, neste link:
http://jroldao.wordpress.com/
O título, como alguns devem perceber, é inspirado na obra do escritor-médico-português Fernando Namora; uma coleção de narrativas que tem o mesmo nome. Aliás, Fernando Namora é um de meus autores preferidíssimos.
Qual o motivo para criar outro blog? Não sei mesmo porque, mas o Fragmentos de Tempo sempre me aprisiona para determinados assuntos. Tipo, não consigo publicar aqui – trava-me as mãos e os olhos – determinadas coisas; quase sempre coisas que sejam mais pessoais e diretas, opiniões minhas e observações cotidianas. No novo blog pretendo justamente me expor mais – sem, no entanto, descobrir-me muito – e publicar percepções mais cruas e diretas que possam ocorrer em meu cotidiano.
Certamente – muito, muito certamente mesmo (aliás, já ocorreu no primeiro relato) – é impossível pra mim não ficcionalizar algumas coisas, mesmo as mais triviais. Não sei se isso é dom ou cadeia invisível, mas até que me dá bastante prazer realizar tais distorções ou reparos.
Convido-os todos a assinarem o Cidade Solitária, seja para receberem via email ou RSS, e os aguardo com muita alegria nas visitas constantes que possam me conceder!
Bons Ventos!
José Roldão
FERNANDO PESSOA – QUANDO ELA PASSA
Quando eu me sento à janela
P’los vidros qu’a neve embaça
Vejo a doce imagem d’elia
Quando passa… passa…. passa…
Lançou-me a mágoa seu véu:
Menos um ser n’este mundo
E mais um anjo no céu.
Quando eu me sento à janela
P’los vidros qu’a neve embaça
Julgo ver imagem dela
Que já não passa… não passa. (1)
5.5.1902
fernando pessoa – pré-texto
“E afinal o que eu quero é fé e calma
E não ter essas sensações confusas
Deus que acabe com isto! Abra as eclusas
E basta de comédias na minh’alma.”
[Fernando Pessoa - Opiário]
O Retorno do Herói
Ao contrário do que planejamos
Ao contrário do que estava no roteiro
Não haverá um retorno ao lar
O herói não será erguido pela multidão extasiada
E nem será imortalizado em camisetas de adolescentes
O fim passará desapercebido
Os olhos verão apenas a poeira erguida
E quando ela baixar
Haverá apenas a estrada
Será simples assim
No final de um dia como hoje
O suposto fim
Na aparente estrada
Que vai para lugar nenhum
[ Jean Darilho ]
MIGUEL TORGA – ADÁGIO
“Tão curta a vida e tão comprido o tempo!…
Feliz quem não o sente.
Quem respira tão fundo
O ar do mundo,
Que vive em cada instante eternamente.”
[ Miguel Torga ]
FERNANDO PESSOA – DIZEM QUE FINJO OU MINTO

Dizem que finjo ou minto
Tudo que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio
Do que não está ao pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é,
Sentir, sinta quem lê!
JUAN RAMÓN JIMÉNEZ – O POÇO
“(A noite desce, e a lua brilha lá no fundo, engrinaldada de estrelas andarengas. Silêncio! Pelos caminhos, a vida, a vida se dilui na distância. Do poço escapa a alma das profundezas. Por ele se vê como que o outro lado do poente. E parece que de seu bojo vai sair o gigante da noite, senhor de todos os enigmas do mundo. Ó labirinto fantástico e silente, umbroso e perfumado parque, salão mágico e encantado!)
- Platero, se um dia eu me jogar neste poço, não será para matar-me, podes estar certo, mas sim para apanhar mais depressa as estrelas”.
Juan Ramón Jiménez – Trecho de “O Poço”, da obra “Platero e Eu”.
AURORA
Que a tristeza seja um breve instante nesta existência
Pois que nem o sol nem a lua estão imóveis no céu
Só assim passam-se as horas
E podemos ver a linha do horizonte
Percebemos o abrir e fechar do véu
Para só então vislumbrarmos a serenidade e persistência
Do amanhecer que levanta a aurora
Em mais um dia que desponta como quem se esqueceu.
[ José Roldão ]
LOUCAS SÃO AS NOITES
Eu fiz canções na madrugada
sentado na cama de lençóis amarelos
o incenso exalava miniaturas de eucaliptos
no quarto, esta caixa que me cerca
Escrevi uns versos e os vesti de música
dei voz ao que me esvaziava
saquei das cordas, invoquei o som e vi
que dançavam sombras no candelabro
Tudo ressoava no guarda roupas
senti a janela vibrar quase em fuga
o espelho fechara os olhos de prazer e não refletia,
a cômoda se ressentia ao meu lado
o lustre bailava como há muitos ventos não se via
eu trincava as unhas no tampo batido do violão alado
e a porta rangia louca cantarolando a melodia
Quando me faltou o ar, parei de repente.
Mais nada…
Depois que o som alcança alturas
ele cai morto e deixa o cadáver do silêncio.
[ José Roldão ]
IN-PACIÊNCIA
Um minuto, creio que seja o bastante
Nada pode ser tão permanente que dure
Intacto, por mais de um minuto, silente
Penso dos objetos, corpos, adjetivos, estruturas
Idéias permanecem, creio que sigam adiante
Além mesmo daquele que às teve em mente
De fato, por mais insalubre idéia, porém inebriante
Como agir prematuramente, sem sombras, dedos
Em riste, como se fossem flechas
Que não quisessem chegar ao alvo
Mas preferissem a dor da espera,
A ânsia do impacto a qualquer momento
Agora, invento o som perfeito
Da flecha que deveria chegar
Rápido, plenos pulmões atacando o ar
Um grito, rouco, acumulado, turvando a vista
Era pra deixar a alma vazia, mas não:
Foi em cheio…
[ José Roldão ]
02/09/2007 00:56h
A POESIA É UM SONHAR POR ESCRITO
A poesia tem o poder de contar ao leitor não apenas aquilo que ele pensa de si mesmo, mas até mesmo o que deixou de pensar por não sabê-lo. Pode ser também a maior de todas as vigílias – ou, quem sabe, o quase infinito da multiplicação de todas elas, mesmo dos seres que nunca acordaram. Dormir, acordar… A consciência não cede à exclusividade dos olhos, mas bem que pode enamorá-los…
Para mim,
A poesia é um sonhar por escrito.
Perde-se o tempo quando se está a escrever, e se o reencontramos foi porque a poesia findou. Afinal, os ponteiros do relógio na parede só parecem estar se movendo quando reparamos neles.
[ José Roldão ]
ESPÍRITO ATENTO
Estávamos na beira do abismo
O vento soprava
Tínhamos tempo
Um pouco
Mas nos bastava
Fitávamos a planície
A extensão das horas
O calar da tarde
Um sol que desaparecia
Mas havia algo
Sabíamos da espera
Não tardaríamos a saber
Então o vento parou
O cheiro do mato assaltava
O inseto avisava aos ouvidos
A noite prenunciava
Sentamos debaixo da lua
E o frio cortou
Luminárias no céu acenavam
Acendemos um sorriso
Aquecemos as mãos no atrito
Os pés descalços
A terra pulsava o assento
As costas em ângulo
Os olhos abertos
O espírito atento
A linha do horizonte apagada
Mas sabíamos do coração
Ele nos contou um segredo
Não tardamos a saber
Era sobre o vento
Arrebatava nosso peito
Incendiava os poros
Faiscava o semblante
Mexia nos arbustos
E soubemos do amor
Era ele quem nos havia chamado
Preencheu todo o platô
E já não era mais abismo
Era tudo o mais
E levantamos
Voltamos pela mesma trilha
Mas não guardamos passos
Não deixamos pegadas
Apenas descemos ou subimos
Não importa
Chegamos até aqui
Trouxemos o amor
Que fundou morada
O sol deu um salto
E um novo dia revelou
A noite que esperamos
Pensando no abismo
Mirando a planície
Sem saber ainda
Que o amor não viria de parte alguma
Pois era plenamente vida.
[ José Roldão ]
FERNANDO PESSOA – ASSIM COMO AS PALAVRAS…
Assim como falham as palavras quando querem exprimir qualquer pensamento,
Assim falham os pensamentos quando querem exprimir qualquer realidade.
Mas, como a realidade pensada não é a dita, mas a pensada,
Assim a mesma dita realidade existe, não o ser pensada.
Assim tudo o que existe, simplesmente existe.
O resto é uma espécie de sono que temos,
Uma velhice que nos acompanha desde a infância da doença.
Alberto Caeiro, 1-10-1917
PONTOS
tentei conversar com uma pedra
não respondeu
então falei sozinho
respondi muitas coisas a mim mesmo
a pedra parada ali, sobre a mesa
será que a pedra não existe?
existe, pois a vejo e sinto
mas – pensemos (!)
e se eu não existisse
será que ela continuaria a existir
mesmo sem pensar
ou sentir algo em si mesma?
sim, é claro
pois um terceiro ponto
que nos transcende
existiu antes de nós
existe agora
e vai existir além
só nesse terceiro ponto
que é, na verdade, antes do primeiro
é que há existência
independente de que alguém exista
pois esse ponto É
mas só Ele
É. Ponto.
[ José Roldão ]
FERNANDO PESSOA – O GUARDADOR DE REBANHOS
[206]
Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pôr-de-sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria no fundo da planície
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.
Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.
Como um ruído de chocalhos
Para além da curva da estrada,
Os meus pensamentos são contentes.
Só tenho pena de saber que eles são contentes,
Porque, se o não soubesse,
Em vez de serem contentes e tristes,
Seriam alegres e contentes.
Pensar incomoda como andar à chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais.
Não tenho ambições nem desejos
Ser poeta não é uma ambição minha
É a minha maneira de estar sozinho.
E se desejo às vezes
Por imaginar, ser cordeirinho
(Ou ser o rebanho todo
Para andar espalhado por toda a encosta
A ser muita cousa feliz ao mesmo tempo),
É só porque sinto o que escrevo ao pôr-do-sol,
Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz
E corre um silêncio pela erva fora.
Quando me sento a escrever versos
Ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos,
Escrevo versos, num papel que está no meu pensamento
Sinto um cajado nas mãos
E vejo um recorte de mim
No cimo dum outeiro,
Olhando para o meu rebanho e
vendo as minhas idéias
Ou olhando para as minhas idéias
e vendo o meu rebanho,
E sorrindo vagamente
como quem não compreende o que se diz
E quer fingir que compreende.
Saúdo todos os que me lerem,
Tirando-lhes o chapéu largo
Quando me vêem à minha porta
Mal a diligência levanta no cimo do outeiro.
Saúdo-os e desejo-lhes sol,
E chuva, quando a chuva é precisa,
E que as suas casas tenham
Ao pé duma janela aberta
Uma cadeira predileta
Onde se sentem, lendo os meus versos.
E ao lerem os meus versos pensem
Que sou qualquer cousa natural -
Por exemplo, a árvore antiga
À sombra da qual quando crianças
Se sentavam com um baque, cansados de brincar,
E limpavam o suor da testa quente
Com a manga do bibe riscado.
Fernando Pessoa – O Guardador de Rebanhos
Solidão Companheira

Éramos simples e completos
Estávamos vivos e atentos
Tínhamos um sorriso público nos lábios
E uma tristeza amiga na solidão
Era assim…
Não trazíamos dívidas no bolso
Apenas as mãos descansadas
Enquanto olhávamos pra frente sob o sol
A paz fechando os olhos de satisfação
Era mesmo assim…
Aquele sossego suado na pele…
Hoje, neste dia, me custa bastante a poesia
Algumas palavras chegam atravessadas
Impedindo um grito rouco de exaustão
A tensão trotando os nervos
Um sorriso privado nos olhos
Cabeça em riste e lábios apertados
A paz ficando longe até onde a vista não alcança
Um cheiro antigo galopando a solidão
Acredito que outra chuva ainda cairá
E levará nossos danos ao escritor
E uma novela vencerá bilheterias
E nas bancas de jornal
Em pleno e ensolarado domingo
Você irá comprar o último número
O melhor de todos
Aquele em que no final terá uma foto
simples por do sol numa praia distante
tão distante que nem sei
e entre o leitor e o horizonte
um menino acenando
com uma das mãos para o sol que está indo
e a outra descansando no bolso
cheio do sal desta vida…
Ponto Final.
hoje eu quero desesperadamente escrever
desanuviar o semblante que entorpeceu
gastar as mãos na folha lisa até que amasse
olhar o branco manchado de tinta cinza
debulhar o milho de minha infância
degustar o vinho envelhecido no carvalho
fugir do embuste que me armadilha
soltar o grito rasgando a garganta
arrastar a unha abrindo os poros
alargar a pele para riscar um cuidado
hoje eu quero apenas querer escrever
quero burlar aquele que em mim se esconde
saltar o abismo que me encobriu: madrugada!
e chegar até aqui, enfim, no ponto.
Quem dera…
a mesma imagem
um virar o corpo e um adeus
o olhar que chora e despede
até o ano que vem
até que o tempo não mais nos separe
quem dera
as voltas nos cômodos silenciosos
um prato de comida sobre o fogão
as roupas secando no varal noturno
a memória da voz que adverte
quem dera
até que o passar dos dias
me tampe os ouvidos da memória
até que os olhos sequem
os rios das lembranças de agora
eu
doido dos braços fortes
pronto para abraçar o outro lado
espero como quem guarda um segredo
um segredo admirável
acertar os ponteiros em outro fuso
nos quadros de um conhecido cenário
quem dera…
15/06/2007 – 02:15H
…para minha mãe
Lume
Não fiques triste, minha pequena
é teu este colo usado
é tua minha mão de música
aquieta-te em mim que te recebo
como quem se encanta e acaricia
Não desanimes por demais
Não desabrigue a alegria
na paisagem deste meu mundo, coração
te dei um jardim como a ninguém mais
era noite escura, minha flor
mas agora é teu sorriso que alumia.
Para Joanna, minha FLOR.












