Fragmentos de Tempo

Ficcionar é tornar o mundo artisticamente aceitável

Archive for the ‘Solidão’ Category

Todos os anos de uma só vez a cair

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chuva janela— O que importa o lugar, Dane-se! Cale-se!, pois trago todo o peso do mundo comigo, minha filha está morta, se fosse viva dois mundos apoiavam-se em meus ombros mais a minha filhinha a bater-me, a gritar-me, jogando coisas e deixando marcas de suor nas paredes, os dedos dela a perfurarem o abdômen ferido e eu a cuidar inventando mil remédios, e eu forte, e eu mais feliz, a brigar com o tempo e a esquecer da morte (…)

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Escrito por José Roldão

Julho 11, 2009 em 3:24 am

O labirinto que antecede as pontes

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Existem pontes

São tantas

E o problema de existirem assim

Tantas

É que ficamos parados

(nos momentos decisivos)

A olhar para cada uma delas

Os olhos bem abertos

Às diversas possibilidades

E o problema de existirem assim

Tantas

É que ficamos perdidos

(e nos esquecemos das pontes, por instantes)

A pensar em cada uma delas

 

Depois

É preciso que alguém nos chame

De longe

(será que ouvimos?)

Pois já estaremos sozinhos

Às voltas com as idéias

(tantas!)

No labirinto que inventamos

Escrito por José Roldão

Março 4, 2009 em 1:22 am

As tardes de Nuno Mendes

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harry_labirinto2Nuno passava as tardes brincando quieto, em silêncio. Seus pais sempre dormiam após o almoço e ele ficava sozinho pela casa imensa. Quando somos pequenos todas as coisas parecem enormes. Ou será que vão encolhendo na medida em que crescemos? É de conhecimento público que nós é que crescemos, e na proporção em que isso acontece os espaços vão-nos escasseando. No final das contas, as casas são mesmo menores. Vemos que são assim. Pontos de vista… “Qual será a medida certa das coisas?”, perguntamo-nos.

Para Nuno, dormir à tarde era castigo. Não gostava. Quando entendiam que fazia alguma coisa errada (os adultos têm erros para tudo), levavam-no para deitar entre os dois, pai e mãe, e para quem visse a cena de um ponto de vista aéreo ficava parecendo uma pintura de uma família perfeita, um quadro. A menos que reparassem nos olhos úmidos do menino. “Em famílias perfeitas podem existir crianças com os olhos úmidos?”. Claro que pode! Não existem famílias perfeitas! Então, Nuno ficava assim quando o levavam para o meio deles na cama: com um brilho molhado e triste nos olhos. Deixemos bem claro que, para ele, sua família era perfeita, apesar do que acabamos de concluir agora há pouco. Nuno dava-se esse direito, mesmo sem pensar nisso.

Ele brincava de muitas coisas durante essas tardes. Desenhava (Nuno desenhava muito bem. Certa vez a mãe de um amigo seu da escola havia sugerido para a sua que o colocasse em aulas de desenho. Mas não o colocaram, não.) histórias de monstros vindos de outros planetas e naves espaciais que os combatiam. Era engraçado de se ver. Nuno fazia baixinho aquele barulho de explosões, de vôos rasantes e rabiscava aquele monstrengo pouco a pouco, até que todo ele estivesse escondido atrás de muitos rabiscos: era o fim do monstro. As naves também ficavam um pouco rabiscadas, mas era para dar veracidade às histórias. Outras vezes ele brincava com seus bonequinhos: dinossauros verdes, índios amarelos, robôs azuis e vermelhos. Aqui se faz necessária uma pequena descrição. Dentre todos eles, o que Nuno mais gostava de brincar era um robô que havia achado na rua. Não tinha mais nem pernas nem braços, apenas o tronco azul e a cabeça vermelha. Mas o quê? Era justo isso que o havia fascinado! Um robô já ferido de tantas batalhas! Aliás, esse robozinho (devia ter entre uns três a cinco centímetros de altura) também o havia ajudado. Depois de ter encontrado esse robô na rua, sempre que tinha de ficar deitado durante toda uma tarde de castigo o levava escondido em uma das mãos fechadas. Quando os pais dormiam (ele mantendo a força, numa grande batalha silenciosa, os olhos abertos para não ser vencido!) pegava o robô e criava histórias debaixo dos travesseiros. Eram cavernas escuras e frias (o ar-condicionado sempre estava ligado)! Também mexia nos lençóis, criando caminhos difíceis por onde sempre surgiam monstros invisíveis, muito mais difíceis de vencer. Quase invencíveis! Como podemos vencer os monstros que não vemos? “E se os vencêssemos todos? Como a batalha haveria de continuar?”. Ora! Quem disse que um dia todos os monstros serão vencidos? Para cada necessidade criamos um novo monstro! E muitas vezes os criamos assim: invisíveis! Existem batalhas que duram toda uma vida. “Como podemos vencer os monstros que não vemos?”.

E Nuno passava aquelas tardes que tinha de ficar preso à cama, brincando com o robô, como vínhamos contando. Temos de deixar bem claro que nem sempre saía vencedor das batalhas: algumas vezes acabava caindo no sono. Quem o visse assim, de olhos fechados e boca entreaberta, sem movimentos, e virasse um pouco mais os olhos e encontrasse um robô sem braços e pernas, soterrado por um imenso travesseiro, certamente acordaria a todos, mais que depressa. Só que, nas brincadeiras, sempre podemos recomeçar intactos, renovamos, como se alguma mágica poderosíssima nos fizesse abrir os olhos para nos dar a vida inúmeras vezes. Quando não estava de castigo (e ficava de castigo pouquíssimas vezes), brincava sobre o tapete da sala de jantar. Cada linha reta era uma estrada, cada desenho era um porto ou uma estação espacial, os pés da mesa eram obstáculos que davam graça aos vôos difíceis, que exigiam sempre manobras aprimoradas e perigosas, enfim, todo um mundo surgia nessa pequena gênese diária para que chegasse ao fim dos tempos assim que seus pais acordassem. E quando eles acordavam, ligavam a televisão. Sua mãe preparava um copo de café com leite (bem escuro, pois Nuno não gostava do leite) e um pãozinho com manteiga, para que ele pudesse comer enquanto assistia aos desenhos animados. “Mas não era Nuno que criava as histórias?”. Sim, era, mas só quando estava sozinho. Quando o vento do fim da tarde invadia a casa, quando sua mãe vinha lhe trazer o prato com os dedos brilhantes de manteiga e quando ligavam a televisão, não era preciso criar suas batalhas. Agora era o momento de aquele herói descansar, e assistir as batalhas e os monstros dos outros.

05/04/2008 – 15:56h. 

Escrito por José Roldão

Novembro 30, 2008 em 12:31 am

Gonçalo M. Tavares – A morte do pai

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1022995_4O pai morreu

   e ele, que era duro, endureceu mais.

Informou da existência do cadáver

   como quem relembra um pormenor.

Amava o pai, mas o coração é assim

(a lei da sobrevivência):

   esconde-se quando o querem matar.

( 1Gonçalo M. Tavares, Editora Bertrand Brasil 2005)

Escrito por José Roldão

Novembro 26, 2008 em 11:45 pm

A sombra

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Uma insignificante sombra pousou sobre a mesa cor de tabaco. Quase não pude perceber a nuance, uma gradiente, que saltava de um lado para o outro, fugindo sistematicamente da minha mão incansável. Mentira. Cansava-se ao mesmo tempo em que meu braço: descansavam juntos, em uma trégua amigável e sem receios de que qualquer um dos lados quebrasse a regra improvisada. Ficaram assim até que o dia amanheceu e a sombra partisse imperceptivelmente, deixando minha mão solitariamente iluminada.

Escrito por José Roldão

Novembro 23, 2008 em 1:51 am

Memórias da infância dos outros

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todasasnoites1Todos estavam reunidos no quarto-sala: aniversário. Como em toda reunião em que já não se tem muito o que dizer, logo iniciam-se as recordações de aventuras do tempo de criança. O mais curioso é que são contadas as mesmas histórias, sempre. Escangalhavam-se de rir…

Eu, sentado ao chão, prestando certa atenção dividida para ver se algum pormenor seria acrescentado nas repetições, comecei a ouvir outros relatos e considerações vindos do grupo vizinho de conversas: as mulheres. Uso aqui o termo mulheres, mas tanto estas quantos os homens eram todos muito novos, nos inícios dos vinte anos. Elas falavam de bolsas, novidades, espantos, e vez ou outra interferiam nas lembranças dos rapazes; riam-se, e depois fechavam-se em seu grupo novamente. Havia no ar a mistura das vozes altas dos dois grupos, causando-me certo entorpecimento.

Foi uma noite repetida. A mesma de outras reuniões com esse mesmo grupo. Deu-ma cá uma sensação de estar suspenso no tempo: era como voltar o vídeo alternando apenas o ambiente, mas mantendo as falas e os personagens.

Não ter memória é o máximo da solidão. Possuir memórias não compartilhadas, diferentes do grupo do qual se está participando, é como estar numa ilha cercado de impressões alheias por todos os lados. Fica-se a olhar o mar, pronto para acenar ao primeiro navio que o atrevesse.

Escrito por José Roldão

Novembro 14, 2008 em 1:03 am

A mulher não está morta

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E o silêncio rompeu-se: foi levada para a UTI. Não se sabe se de lá retorna (e por isso julgo aquelas cenas de morte previamente anunciada, sentida), mas bem pode ser, quem sabe? Minha mãe, ao telefone internacional, disse-me: «Eu estava já tão triste! Na UTI, mesmo que mal, ainda há esperança…». A vizinha contou-me: «Não morreu ainda, mas antes de ser internada já estava por demais agressiva…».

A mulher sofre de Mal de Alzheimer, uma doença degenerativa do cérebro, e que causa perda da memória episódica. É certo, já não se recordava de quase ninguém e, julgo eu, possa se dever a isto que se tenha tornado agressiva. Será que sem memória conseguiríamos ser bons para com os outros? Que outros? Não ter memória é o máximo da solidão…

Escrito por José Roldão

Novembro 14, 2008 em 12:06 am

A MULHER ESTÁ MORTA

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Esta semana olhei pela janela de manhã e vi que uma ambulância estava parada à porta da casa do outro lado da rua. Eu sabia de antemão que a mulher estava doente e já não reconhecia aos amigos. Não houve suspense, apenas a constatação serena dos fatos.

Um assistente pegou uma maca e a levou embaixo do braço; entrou na casa. Até esse instante não havia aparecido ninguém lá de dentro, apesar da porta já estar aberta. Coloquei-me logo atrás dos vidros fumês da janela e a meias cortinas, aguardando. Alguns momentos e vejo o corpo da mulher que vem amarrado na maca. Corpo amarelo, mole, com todas as características aguardadas. Que a morte é a ausência da vida, todos sabem; mas só percebemos o alcance desta afirmativa quando nos deparamos com um morto de fato. Parece-me impossível não distinguir um ser vivo de outro já sem vida. Redundantemente: falta-lhe algo.

Pois a mulher foi colocada ambulância à dentro como se fosse uma coisa já sem sentido. A partir de então, reparei que a filha dirigia-se à cabine do motorista, chorando; e por fim tomava assento. O marido, que tantos cuidados e dedicação havia dispensado à esposa doente por tanto tempo, chorava junto à porta com um lenço branco que às vezes ia à boca e noutras aos olhos.

A ambulância começou a sair e o homem, tantos anos casado com a morta, ficou olhando o carro distanciar-se lentamente. Depois entrou muito devagar e de cabeça baixa, fechando o portão atrás de si. Vi, momentos antes em seus olhos, a certeza de que estava sozinho; que, enquanto a ambulância saía devagar e virava a esquina, ele já sabia que não veria mais a mulher e que nunca mais ela entraria naquela casa; na qual ele, a partir de agora, ficava só. Vi tudo isto como se fosse um filme triste; todas as cenas ensaiadas à perfeição, aquela perfeição que só é alcançada quando se contracena com o surgimento da vida ou com a morte.

Abri novamente as janelas, as cortinas e uma fresta na lembrança, por onde entram vez ou outra estas cenas. O resto foi silêncio.

Escrito por José Roldão

Novembro 9, 2008 em 3:26 am