Feeds:
Artigos
Comentários

Archive for Janeiro, 2007

borgespeq.jpg

 

Distraio ao som do móbile de bambú cantando ao vento que lhe acode. Disparo idéias sem fim, pois que nada alcançam, para logo em seguida esquecer na impessoalidade aquele dom que distancia. Divago.

Em que tempo se passa a literatura? Segundo Jorge Luis Borges, a literatura acontece quando o leitor participa, ou seja, quando ele abre o livro. Antes, era apenas um amontoado de folhas encadernadas, com alguma imagem que deveria ser interessante: uma isca.

Se formos adotar a teoria de Borges, deveríamos crer, então, que o tempo seria algo pessoal, pois se a literatura acontece em dependência do leitor, sem este nada aconteceria. De certa forma, um livro fechado e sozinho sobre uma mesa nada significa. Porém o escritor – que escreve e lê o que ele mesmo escreveu – participa desse tempo, mesmo que em princípio. Tendo isto em vista, lembremos ainda uma idéia exposta pelo mesmo autor de que o universo seria um único e imenso livro. Não é de admirar essa afirmativa, ainda mais se a tomarmos embutida nesse mesmo universo. Sim, pois se o tempo da literatura acontece quando o leitor abre o livro, também poderemos propor que, na verdade, o que existe são pausas de leitura, pausas nesse literatura quando não acessada. A cada novo acesso, a cada vez que aquele livro sobre a mesa é aberto, na verdade o que pegamos são fragmentos de tempo.

O leitor acessa essa máquina do tempo – um tempo que participa do impessoal e pessoal simultaneamente – e atravessa fronteiras montado no cavalo veloz da imaginação criativa. O leitor adapta o livro, o encaixa em seu próprio tempo. E quando isso acontece ele pode dizer que o livro é bom, pois o livro e o leitor passam a ser um só, ocupando o mesmo espaço (imaginação) e o mesmo tempo (co-criação). E a literatura acontece, plenamente.

Anúncios

Read Full Post »

homenespelhopeq.jpg

Muitas vezes sinto-me preso nas névoas da poesia misteriosa, sem rumo corrente e cotidiano. Parece-me que meus escritos soam por demais “metafísicos”, sem âncora presa em algum lugar deste mundo, pior, nem em outros. Melhor seria afirmar que escrevo entre mundos, ambientes que deixam as palavras vagarem sem rumo aparente, mas com um fim a alcançar. Fim que eu mesmo não programo, mas que agarra cada palavra e as liga umas as outras. No final, eu mesmo preciso redescobrir o significado do que foi escrito por minhas próprias mãos, como se escritor e leitor fossem partes de mim mesmo, assistindo um ao outro em um círculo interminável. A percepção total do ser que escreve e que lê o que foi escrito, sou eu.

De outra forma, como não terminei de escrever estas palavras, e ainda não as li até o fim, porquanto escrevo neste momento, não concluo totalmente esta definição, porém a percebo agora, independente da veracidade ou não do que por ventura venha ainda ser escrito. Este ponto de apoio torna-se extremamente necessário, pois não desejo invalidar esta tentativa de relacionar sujeito e objeto, notando a ponte existente entre os dois, o que ousei chamar de: percepção.

Agora que defini razoavelmente que sou o que percebo, e que me livrei das amarras que prendem o sujeito ao objeto – causa e efeito – talvez eu possa continuar com o real motivo deste texto: na verdade, busco compreender o porquê da falta de ânimo para escrever – ou seja, contemplar – histórias ou poesias.

Devido a esta ânsia de escrever entre mundos e observar passivamente as imagens que se formam na névoa, criei em mim um certo modo misterioso de colocar em palavras a tal percepção. Tenho buscado um modo de criar mais corriqueiro, uma narrativa fluente e com dados comuns, coisas que lemos no dia a dia. Sempre escrevi e depois eu mesmo notava que era possível gerar uma percepção completamente diferente em outras pessoas, daquela que eu mesmo tinha do que havia escrito. Se eu transcrevia uma imagem que me lembrava da infância, outros percebiam no mesmo texto uma viagem a outras realidades e coisas do gênero. Algumas pessoas chegaram mesmo a me escrever pedindo orientações sobre como alcançar tais mundos, que diziam existir em universos paralelos e tal.

Ora, bastava eu começar a escrever, mas tudo se passava neste mundo mesmo – eu sentado em frente ao micro, como qualquer outro ser humano dos que eu conheço, tomando café e fumando cigarros em momentos ociosos no escritório… Tudo bem, eu tinha até bastante tempo ocioso – e se não os tinha, forjava-os – mas nunca precisei me drogar ou tomar chás alucinógenos pra isso.

Não desejo perder esse modo de escrita, pois é por demais interessante ver o leitor criar seu próprio significado dos meus textos, mas busco também a outra forma: textos leves e que dizem, sem sombra de dúvidas, aquilo a que se propõem desde o início da escrita.

Agora fico receoso de parecer por demais metafísico – no mau sentido do termo – e de ser tomado por um escritor engajado em coisas esquisotéricas. Sim, sim… andei em certa época de minha vida, atrelado com nagualismos e pseudo-xamanismos urbanos. Fui iniciado em ordens esquisotéricas e passei por graus que não conferem nada além de status dentro de “clubes”, carimbos e assinaturas que servem apenas para inflar egos em série. Mas foi quando eu desejava o autoconhecimento, acreditando que isso me levaria a algum lugar que não fosse a mim mesmo. Ledo engano. É tudo lama, areia movediça…

Consegui desgrudar os pés faz já muito tempo, por mais que ainda tenha marcado bastantes pegadas sujas durante algum curto período depois. Tenho vontade de escrever sobre cada uma dessas correntes que prendi em mim mesmo e falar sobre a verdadeira liberdade, mas não tive ainda a paciência e o engajamento para tanto. São tão frágeis essas correntes esquisotéricas e tão cheias de invencionices e divagações incoerentes, que fico sempre adiando um trabalho a respeito.

Minha meta ultimamente é descobrir se eu é que sou um percebedor assim – que escreve como escrevo, contemplando imagens – e me identifiquei com essas correntes posteriormente; ou se após ter estado preso nelas é que passei a escrever entre mundos… Sim, pois pode ser que ainda traga os pés sujos com alguma lama. Bem sabemos que os grãos de terra se infiltram entre os dedos e unhas, e que às vezes demoramos a descobri-los – ficando algum tempo ocultos, disfarçados, parecendo com a própria pele.

Enquanto não tenho a plena certeza de que o percebedor contempla aquilo que deve contemplar e enquanto procuro descobrir se fiquei atrelado em algum mundo, pensando estar entre os infinitos mundos da imaginação, vou anotando as percepções aqui neste diário. Talvez o mesmo seja apagado antes de outros olhos o descobrirem, mas não importa.

Estou apenas voltando a perceber…

Read Full Post »

Frases

Hoje (ontem) deparei-me com diversas frases, dos mais diversos autores. Até coloquei uma aqui no post anterior e cheguei mesmo a criar uma categoria para arrumá-las. Não que eu acredite que todas elas são fragmentos da verdade, não. Algumas são apenas inteligentes, outras são bem arrumadas, outras são profundas, engraçadas, misteriosas e, ainda, existem algumas que provocam silêncio. Destas eu sou um velho admirador. Sabe? Aquelas frases que você lê e fica calado interiormente, com um vazio produtivo.

Não coloquei todas aqui por que se não iam achar que isto é um blog só de frases. Portanto vou dosando, senão vai que pinta aquele silêncio assim, exagerado? Aí já viu!

Read Full Post »

Fundo do Poço

 

“Quem chega no fundo do poço precisa lembrar que o fundo é o melhor lugar do poço para se tomar impulso.”
(Eduardo Marinho)

Read Full Post »

James Joyce

Venho por muito tempo postergando a leitura do livro Ulisses, de James Joyce [Foto acima]. Finalmente comecei e, devo afirmar, é bastante interessante. Não posso ainda traçar um perfil da obra, visto que li apenas poucas páginas, mas também não vou comentar baseando-me em observações e análises alheias.

Posso dizer, entretanto, que o livro vem me cativando.

Cansei de ler Jorge Luís Borges comentando e citando Joyce, tornou-se quase que obrigatório eu ler Ulisses. Enfim, venho cumprir este desígnio auto-imposto, por questões não tão furtivas, porém conscienciosas. Afinal, ler é aventurar-se; ler é um imenso prazer, isto é certo.

De quebra, peguei na mesma biblioteca um livro de contos de Drummond que eu nunca soube existir: “Contos de Aprendiz“. Adotei um novo esquema de leitura: quando o livro que desejo ler é muito extenso, como no caso de Ulisses, leio também outro livro para “descansar a vista” da leitura do primeiro. A coisa funciona assim: o livro principal sendo um romance, leio até me cansar um pouco, para depois pegar um livro de contos ou poesias e ler nos intervalos. Assim, com esse esquema, torno a leitura mais produtiva e mais leve. Estou gostando desse esquema de leitura.

Read Full Post »

sombra-daytona99.jpg

Perdeu! Perdeu!“. Estas são as palavras que deveriam abrir este blog. Eu e minha namorada fomos assaltados ao entrar em um túnel subterrâneo, que passa sob a Rod. Presid. Dutra, mas a frase “Passa o celular se não eu mato ele!“, dita para minha namorada, enquanto o pivete apertava o cano do revolver na minha nuca e me segurava com uma chave de braço, é que continua ecoando em meus ouvidos.

Enquanto somos assaltados, outra pessoa aparece, vinda do lado oposto do túnel, mas o bandido manda que volte por onde veio. Logo em seguida, outra pessoa aparece, agora vindo do mesmo lado que nós. O pivete manda que volte pelo mesmo lugar de onde veio. Depois muda de idéia e manda o indivíduo voltar. Percebendo que ele não voltava, sai em disparada atrás da próxima vítima. Nós seguimos depressa, procurando a distância daquele lugar.

Perdi minha carteira, com todos os meus documentos mais o celular. Da minha namorada levou apenas o telefone. Dia seguinte pergunto na lanchonete ao lado do túnel se não haviam entregue ali a minha carteira. Fico sabendo que o mesmo pivete assaltou diversas outras pessoas naquela mesma noite.

A pior perda foi que, na minha carteira, havia o primeiro desenho que minha filha havia feito, aos dois anos e meio de idade (ela havia me desenhado).

Registramos ocorrência na delegacia…

Read Full Post »

pegadas7peq.jpg

Eis que,
salvo dos chamamentos
relego ao oposto aquele que fui
desabo na sombra que se me adianta
para desentravar aquele que havia escondido
dentro das tardes de minha infância
na solidão alegre, deitado pro céu

Sim,
foi debaixo de uma amendoeira
entre galhos e folhas largas
como cinema de nuvens inéditas
me aquietava na cadeira de balanço
e sonhava que um dia
meio assim que de mágica
eu sairia pelo mundo
despedaçando alianças

Pois não,
aqui estou desembainhado
vendi a capa, perdi a espada
lancei sorte ao vento e curvei os olhos
foi um olhar de soslaio
que lancei a mim mesmo
vejo cenas inéditas
por entre fios de alta-tensão
e desgarro os braços de faíscas e raios

Enfim,
achei e Pedra e lancei Fundamental estrutura
aplainei madeira e levantei cisternas
e com verniz que eu mesmo misturei
o que espelhei em meu violão
arrumei os cabelos e sequei a testa
apenas um gesto poético de alusão
acariciei a cancela que atrás de mim fechei
e me entreguei ao arroubo de cada passo
rumo ao centro de meu coração.

Read Full Post »