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Archive for Julho, 2007

 

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    [206]

     

    Eu nunca guardei rebanhos,

    Mas é como se os guardasse.

    Minha alma é como um pastor,

    Conhece o vento e o sol

    E anda pela mão das Estações

    A seguir e a olhar.

    Toda a paz da Natureza sem gente

    Vem sentar-se a meu lado.

    Mas eu fico triste como um pôr-de-sol

    Para a nossa imaginação,

    Quando esfria no fundo da planície

    E se sente a noite entrada

    Como uma borboleta pela janela.

    Mas a minha tristeza é sossego

    Porque é natural e justa

    E é o que deve estar na alma

    Quando já pensa que existe

    E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.

     

    Como um ruído de chocalhos

    Para além da curva da estrada,

    Os meus pensamentos são contentes.

    Só tenho pena de saber que eles são contentes,

    Porque, se o não soubesse,

    Em vez de serem contentes e tristes,

    Seriam alegres e contentes.

     

    Pensar incomoda como andar à chuva

    Quando o vento cresce e parece que chove mais.

     

     

    Não tenho ambições nem desejos

     

    Ser poeta não é uma ambição minha

    É a minha maneira de estar sozinho.


     

    E se desejo às vezes

    Por imaginar, ser cordeirinho

    (Ou ser o rebanho todo

    Para andar espalhado por toda a encosta

    A ser muita cousa feliz ao mesmo tempo),

    É só porque sinto o que escrevo ao pôr-do-sol,

    Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz

    E corre um silêncio pela erva fora.

     

    Quando me sento a escrever versos

    Ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos,

    Escrevo versos, num papel que está no meu pensamento

    Sinto um cajado nas mãos

    E vejo um recorte de mim

    No cimo dum outeiro,

    Olhando para o meu rebanho e

    vendo as minhas idéias

    Ou olhando para as minhas idéias

    e vendo o meu rebanho,

    E sorrindo vagamente

    como quem não compreende o que se diz

    E quer fingir que compreende.

     

    Saúdo todos os que me lerem,

    Tirando-lhes o chapéu largo

    Quando me vêem à minha porta

    Mal a diligência levanta no cimo do outeiro.

    Saúdo-os e desejo-lhes sol,

    E chuva, quando a chuva é precisa,

    E que as suas casas tenham

    Ao pé duma janela aberta

    Uma cadeira predileta

    Onde se sentem, lendo os meus versos.

    E ao lerem os meus versos pensem

    Que sou qualquer cousa natural –

    Por exemplo, a árvore antiga

    À sombra da qual quando crianças

    Se sentavam com um baque, cansados de brincar,

    E limpavam o suor da testa quente

    Com a manga do bibe riscado.


    Fernando Pessoa – O Guardador de Rebanhos

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O novo país chamar-se-ia Ibéria
15.07.2007 – 10h51

O prémio Nobel português José Saramago prevê, numa entrevista publicada hoje no “Diário de Notícias”, que Portugal vai acabar por tornar-se uma província de Espanha e integrar um país que se chamaria Ibéria para não ofender “os brios” dos portugueses.

O escritor, que reside há 14 anos na ilha espanhola de Lanzarote, considera que Portugal, “com dez milhões de habitantes”, teria “tudo a ganhar em desenvolvimento” se houvesse uma “integração territorial, administrativa e estrutural” com Espanha.

Portugal tornar-se ia assim, sugere o Nobel português, mais uma província de Espanha: “Já temos a Andaluzia, a Catalunha, o País Basco, a Galiza, Castilla La Mancha e tínhamos Portugal”. “Provavelmente [Espanha] teria de mudar de nome e passar a chamar-se Ibéria. Se Espanha ofende os nossos brios, era uma questão a negociar”, disse o escritor, membro do Partido Comunista Português desde 1986.

Questionado sobre a possível reacção dos portugueses a esta proposta, Saramago disse acreditar que aceitariam a integração, desde que fosse explicada: “não é uma cedência nem acabar com um país, continuaria de outra maneira. (…) Não se deixaria de falar, de pensar e sentir em português”. Na visão do escritor, Portugal não passaria a ser governado por Espanha, passaria a haver representantes de ambos os países num mesmo parlamento e, tal como acontece com as autonomias espanholas, Portugal teria também o seu próprio parlamento.

Numa entrevista de quatro páginas ao DN, Saramago diz que em Agosto começa a escrever um novo livro e fala também da sua fundação, recentemente constituída, que deverá “intervir social e culturalmente, preocupar-se com o meio ambiente e outras questões”, além de promover o trabalho do escritor.

A Fundação José Saramago, que será presidida pela mulher do escritor, terá sede em Lisboa e prolongamentos em Lanzarote, na terra do escritor, Azinhaga, e na terra de Pilar, Castril.

FONTE: http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1299516&idCanal=14

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Ficamos assim a saber das novidades(?) literárias da terrinha. Gonçalo M. Tavares traz algo de antigo, e o veste de novo. Poderíamos assinalar que na escrita dele nada há de revolucionário, mas quem está em busca de revoluções literárias? Prezo a arte, não aquela técnica e gêneros novos(?) que esperam um dia venha a acontecer. Na verdade, a arte que mais interessa não é aquela que se vê nas folhas de um novo livro, mas aquela que acontece no imaginário de quem lê.

Abaixo colo a notícia; créditos e fonte ao fim da mesma.

………………………………………….

O escritor Gonçalo M. Tavares considerou, em S. Miguel de Seide, Famalicão, uma “honra” receber um prémio com o nome de Camilo Castelo Branco.

Gonçalo Tavares falava no Centro de Estudos Camilianos, na cerimónia de entrega do Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco 2006, de cinco mil euros, que conquistou com o texto “Água, Cão, Cavalo, Cabeça”.

O presidente da Câmara de Famalicão, Armindo Costa, considerou Gonçalo Tavares “um dos escritores mais originais da literatura portuguesa contemporânea”, sublinhando que “os críticos literários já o definem como um dos grandes poetas do século XXI”.

“Gonçalo Tavares é, acima de tudo, um homem da comunicação, da literatura, da escrita. Felicito-o pela sua obra literária, que divulga e dignifica a língua portuguesa, a língua de Camões, de Pessoa e de Camilo”, salientou Armindo Costa.

O autarca realçou que o Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco, patrocinado pela Câmara de Famalicão, é fruto de uma parceria com a Associação Portuguesa de Escritores (APE) que “já dura há 16 anos”.

Mário de Carvalho, Teresa Veiga, Maria Isabel Barreno, Maria Velho da Costa, Maria Judite de Carvalho, Miguel Miranda, Luísa Costa Gomes, José Jorge Letria, José Eduardo Agualusa, José Viale Moutinho, António Mega Ferreira, Teolinda Gersão, Urbano Tavares Rodrigues, Manuel Jorge Marmelo e Paulo Kellerman foram os vencedores das primeiras 15 edições do prémio.

Nascido em 1970, Gonçalo M. Tavares é um dos escritores portugueses com maior ritmo de publicação de livros, desde Dezembro de 2001, data da sua primeira obra, “Livro da Dança”.

O autor já venceu também o Prémio Branquinho da Fonseca, da Fundação Calouste Gulbenkian e do jornal Expresso, com a obra “O Senhor Valéry”, o Prémio Revelação de Poesia da APE, com “Investigações Novalis”, e o Prémio Literário Ler Millenium/BCP 2004, com o romance “Jerusalém”.

FONTE: http://www.rtp.pt/index.php?article=290011&visual=16&rss=0

© 2007 LUSA – Agência de Notícias de Portugal, S.A.
2007-07-09 19:10:01

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Hoje choveu bastante, faltou luz, comecei faxina, e nem por isso deixei de pensar nos instantes que se tornam caros para a memória. Alguns flashs chegam na mente dos que ficam em silêncio por tempo o suficiente para abrir espaços, brechas, frestas, quando chega o olho do furacão, que nem sabíamos estar passando. Depois, inevitavelmente, os ventos recomeçam, torcem dados, riscam imagens, e trazem a vaga idéia que passa na frente dos olhos, idéia que mancha, sopra, e nos carrega no torvelinho, Para onde?, não sei, pudera, ainda havia a faxina por terminar, lixo pro saco, luz que chegou, e o silêncio que se foi, Até quando?, até o próximo espaço aberto, Quem sabe?, Até quando, não sei.

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Éramos simples e completos

Estávamos vivos e atentos

Tínhamos um sorriso público nos lábios

E uma tristeza amiga na solidão

Era assim…

Não trazíamos dívidas no bolso

Apenas as mãos descansadas

Enquanto olhávamos pra frente sob o sol

A paz fechando os olhos de satisfação

Era mesmo assim…

Aquele sossego suado na pele…

Hoje, neste dia, me custa bastante a poesia

Algumas palavras chegam atravessadas

Impedindo um grito rouco de exaustão

A tensão trotando os nervos

Um sorriso privado nos olhos

Cabeça em riste e lábios apertados

A paz ficando longe até onde a vista não alcança

Um cheiro antigo galopando a solidão

Acredito que outra chuva ainda cairá

E levará nossos danos ao escritor

E uma novela vencerá bilheterias

E nas bancas de jornal

Em pleno e ensolarado domingo

Você irá comprar o último número

O melhor de todos

Aquele em que no final terá uma foto

simples por do sol numa praia distante

tão distante que nem sei

e entre o leitor e o horizonte

um menino acenando

com uma das mãos para o sol que está indo

e a outra descansando no bolso

cheio do sal desta vida…

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Ponto Final.

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hoje eu quero desesperadamente escrever

desanuviar o semblante que entorpeceu

gastar as mãos na folha lisa até que amasse

olhar o branco manchado de tinta cinza

debulhar o milho de minha infância

degustar o vinho envelhecido no carvalho

fugir do embuste que me armadilha

soltar o grito rasgando a garganta

arrastar a unha abrindo os poros

alargar a pele para riscar um cuidado

hoje eu quero apenas querer escrever

quero burlar aquele que em mim se esconde

saltar o abismo que me encobriu: madrugada!

e chegar até aqui, enfim, no ponto.

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