Feeds:
Artigos
Comentários

Archive for Abril, 2008

dostoievski1 “Ficou tudo em silêncio às primeiras palavras do célebre advogado. A sala inteira tinha os olhos fixos nele. Começou com uma simplicidade persuasiva, mas sem a menor jactância. Nenhuma pretensão à eloqüência e ao patético. Era um homem que conversava na intimidade de um círculo de amigos. Tinha uma bela voz, forte, agradável, em que ressoava algo de sincero, de simples. Mas cada qual sentiu logo que o orador podia elevar-se ao verdadeiro patético, e tocar os corações com uma força desconhecida“‘.

[ in Fiódor M. Dostoiévski – Obra Completa, Volume IV, pág. 1.061. Os Irmãos Karamázovi – IV parte – L. XII. Editora Nova Aguilar S.A., 1995. ]

Anúncios

Read Full Post »

“É como quando alguém será enforcado. Se ele realmente é enforcado, morre e acaba tudo. Mas se tem de presenciar todos os preparativos para o enforcamento e só fica sabendo do indulto quando o laço pende diante de seu rosto, nesse caso ele talvez venha a sofrer a vida inteira por causa disso”.

[ Kafka – Carta ao Pai ]

Read Full Post »

Capa Sr Valéry

O senhor Valéry andava sempre a pé. Muito rápido, com passinhos pequeninos. (Neste particular era parecido com o sr. Sommer, um vizinho).

Um dia o senhor Valéry precisou de se deslocar a um ponto afastado da cidade.

A pé demoraria dez horas. De comboio apenas vinte minutos.

Depois de muito pensar o senhor Valéry decidiu ir a pé. O senhor Valéry explicava:

– Quem me garante que o sítio onde chego após dez horas é o mesmo do que aquele que chego em vinte minutos?

E com mais convicção dizia:

– É evidente que não é o mesmo sítio.

E o senhor Valéry desenhou, então, duas setas de comprimento muito diferente

Digitalizar0012

E exclamou:

– Só um louco diria que o ponto final das duas setas é o mesmo.

Ganhando balanço o senhor Valéry continuou:

– E mesmo se eu for de comboio e esperar parado, no destino, 9 horas e 40 minutos, esse meu destino não será o mesmo daquele a que eu chego em dez horas de caminho a pé; já que eu estive lá, nesse sítio, mesmo que parado, 9 horas e 40 minutos a modificá-lo.

E começou, então, a andar, pois a decisão estava tomada.

Ao fim de vinte minutos de caminhada o senhor Valéry olhou para o relógio e pensou, de modo algo confuso:

– Se eu me encontrasse já no meu destino, este momento exacto seria o sítio onde eu chegaria.

Olhou à sua volta e disse:

– Porém, este não é ainda o meu destino.

Continuou, assim, a andar.

Mais tarde, contente, exclamou, ainda para si próprio:

– Ainda não cheguei, mas eu vou para outro sítio.

E como faltavam ainda cerca de 9 horas para chegar onde queria, o senhor Valéry continuou a andar, contente e feliz com os seus raciocínios, um pé a seguir ao outro, sempre ao mesmo ritmo, a andar em direcção ao seu destino.

– A mim ninguém me engana – murmurava o senhor Valéry, já a suar muito.

(O Senhor Valéry – Gonçalo M. Tavares)

Read Full Post »

VirginiaWoolf2 “As coisas se desprenderam de mim. Eu prolonguei certos desejos; eu perdi amigos, alguns para a morte… outros pela incapacidade de atravessar a rua.”

[ Virginia Woolf ]

Read Full Post »

“Nuvens… Hoje tenho consciência do céu, pois há dias em que não o olho mas sinto, vivendo na cidade e não na natureza que a inclui. Nuvens… São elas hoje a principal realidade, e preocupam-me como se o velar do céu fosse um dos grandes perigos de meu destino. Nuvens… Passam da barra para o Castelo, de Ocidente para Oriente, num tumulto disperso e despido, branco às vezes, se vão esfarrapadas na vanguarda de não sei o quê; meio-negro outras, se, mais lentas, tardam em ser varridas pelo vento audível; negras de um branco sujo, se, como se quisessem ficar, enegrecem mais da vinda que da sombra o que as ruas abrem de falso espaço entre as linhas fechadoras da casaria”.

(Fernando Pessoa – Livro do Desassossego – por Bernardo Soares)

Read Full Post »

Tenho um choro retido na garganta

Desses que ficam gritando encarcerados

Não cedo as chaves nem descanso os olhos

Que vigiam atentos qualquer tentativa de fuga

Tenho um nó apertado na lembrança

Desses que, se puxam, ficam mais apertados

Não cedo atenção nem dilato os poros

Que engelham a pele sentindo dor alguma

Sinto como se o tempo escoasse

Ralo abaixo de minha vida aberto

Secando toda reserva que em mim exista

Melhor mesmo que seque ‘inda que resista

Assim do cárcere e do laço me liberto

E não haveria dor nem fuga que me alcançasse

[ José Roldão ]

Read Full Post »