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Archive for Agosto, 2008

II – O MANÍACO

«Pessoas completamente mundanas nun­ca entendem sequer o mundo; elas confiam plenamente numas poucas máximas cínicas não verdadeiras. Lembro-me de que, certa vez, fiz um passeio com um editor de su­cesso, e ele fez uma observação que eu ouvira muitas vezes antes; é, na verdade, quase um lema do mundo moderno. Todavia, eu ouvi essa máxima cínica mais uma vez e não me contive: de repente vi que ela não dizia nada. Referindo-se a alguém, disse o editor: “Aquele homem vai progredir; ele acredita em si mesmo”.

Lembro-me de que, quando levantei a cabeça para es­cutar, meus olhos se fixaram num ônibus no qual estava escrito “Hanwell”.  Disse-lhe eu então: “Quer saber onde ficam os homens que acreditam em si mesmos? Eu sei. Sei de homens que acreditam em si mesmos com uma confian­ça mais colossal do que a de Napoleão ou César. Sei onde arde a estrela fixa da certeza e do sucesso. Posso conduzi-lo aos tronos dos super-homens. Os homens que realmente acreditam em si mesmos estão todos em asilos de lunáticos”. Ele disse calmamente que, no fim das contas, havia um bom número de homens que acreditavam em si mesmos e que não eram lunáticos internados em asilos. “Sim, certa­mente”, retruquei, “e você mais do que ninguém deve co­nhecê-los. Aquele poeta bêbado de quem você não quis aceitar uma lamentável tragédia, ele acreditava em si mes­mo. Aquele velho ministro com um poema épico de quem você se escondia num quarto dos fundos, ele acreditava em si mesmo. Se você consultasse sua experiência profissio­nal em vez de sua horrível filosofia individualista, saberia que acreditar em si mesmo é uma das marcas mais comuns de um patife. Atores que não sabem representar acredi­tam em si mesmos; e os devedores que não vão pagar. Seria muito mais verdadeiro dizer que um homem certamente fracassará por acreditar em si mesmo. Total autoconfian­ça não é simplesmente um pecado; total autoconfiança é uma fraqueza. Acreditar absolutamente em si mesmo é uma crença tão histérica e supersticiosa como acreditar em Joanna Southcote:  quem o faz traz o nome “Hanwell” escrito no rosto com a mesma clareza com que ele está es­crito naquele ônibus.”

A tudo isso meu amigo editor deu esta profunda e eficaz resposta: “Bem, se um homem não acredita em si mesmo, em que vai acreditar?” Depois de uma longa pausa eu respondi: “Vou para casa escrever um livro em resposta a essa pergunta”. Este é o livro que escrevi para responder-lhe»

1) Nome de um asilo para loucos, como será verificado mais à frente.
2) Ela (1750-1814) se dizia virgem e grávida do novo Messias, e che­gou a ter muitos seguidores.

[ Excerto do livro «ORTODOXIA», de G. K. Chesterton ]

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Uma conhecida sensação tediosa invadiu este cômodo. De repente, eis que falta eletricidade. Olho da janela, que recosta do meu lado esquerdo, e vejo tudo escuro até onde a vista alcança. Em menos de um minuto, retorna a eletricidade (onde andavas? onde fostes?). Sim, retorna aqui em casa, pois, lá fora (a janela informa-me, cutuca-me), tudo permanece negro: uma noite clássica.

Aos poucos as outras janelas voltam a acender, piscam-nos luzes ali e acolá (enamoram-se da minha, flertam, enquanto torno-me um intruso na cena, um indelicado que as observa). De outros pontos, espreguiçam-se postes de luz; outros continuam adormecidos, como se, cansados, proveitassem da situação.

Apenas os carros da rodovia nunca param.

Faróis, olhos que rasgam a noite, como se fossem fantasmas amedrontando a todos nós, riscando o negro clássico que se abateu por segundos até onde a vista alcança.

Na cidade os carros nunca param. São acréscimos modernistas.

[ José Roldão ]

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«Flutuavam números na sua memória e dizia a si próprio que umas três dezenas de pestes que a história conheceu tinham feito perto de cem milhões de mortos. Mas que são cem milhões de mortos? Quando se faz a guerra, já é muito saber o que é um morto. E já que um homem morto só tem significado se o vemos morrer, cem milhões de cadáveres semeados através da história esfumaçam-se na imaginação».

[ Albert Camus – A Peste ]

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«Na aridez abrasada de sol do grande lago poeirento que, por mais leve que se pise, cobre a gente, até os olhos, de branca poeira peneirada, o menino e a fonte formam um grupo risonho e esplêndido, cada qual com a sua alma. Embora ali não haja uma única árvore, o coração, em chegando, se enche de uma palavra que os olhos fixam, gravada no céu azul da Prússia, com grandes letras de luz: OÁSIS.

A manhã já tem um calor de sesta e a cigarra chia nas oliveiras, para as bandas do cercado de San Francisco. O sol bate em cheio na cabeça do menino. Ele, porém, distraído com a água, não sente. Estendido no chão, está com a mão sob o jorro vivo, e a água lhe põe na palma um borbotante tesouro de frescura e de graça que seus negros olhos comtemplam em êxtase. Fala sozinho, respira fundo, coça-se aqui e ali, com a outra mão. O tesouro, sempre igual e diferente sempre, desfaz-se às vezes. O menino, então, se retrai, apruma-se, concentra-se para que nem essa pulsação do sangue que, como um espelho que se movesse sozinho, muda a sensível imagem do calendoscópio, roube à água a primitiva forma surpreendida.

Platero, não sei se entenderás ou não o que te digo: mas esse menino tem a minha alma em sua mão».

[ Juan Ramón Jiménez – Platero e Eu, Cap. XLII – O Menino e a Fonte ]

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