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Archive for the ‘Absurdos’ Category

sonhos_thumb[3] Disse a minha mãe, agora ao almoço

— Lembro-me perfeitamente do gosto de um queijo que eu comi há quarenta anos na Igreja

então passei a lembrar dos gostos e cheiros que também guardo perfeitamente, dos quais basta uma palavra para que retornem ao nariz e à boca, ela continua

— Era um queijo que vinha em uma lata. Na época parecia-me que a lata levava cinco quilos de queijo, hoje não sei, devia ser um quilo, mas eu era pequena, hoje não sei…

Fiquei a pensar nessa questão da quantidade e do peso das coisas versus nosso tamanho e força que aumentam com o tempo, coisas que eu…

 

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HOJE, lembrei-me de uma coisa ridícula: vergonha de pão com manteiga, embrulhado em papel de padaria.

Estudei por dez anos em uma escola classe média-alta, a mais cotada daquela época. Uma escola católica, método franciscano de ensino, com as adicionais aulas de religião, música, coral, artes e educação para o lar, isto é,  aulas de bons modos, etiqueta. Escola cujas mensalidades eram de alto-custo.

Eu tinha vergonha de levar merenda de casa. Minha mãe costumava preparar um pão com manteiga e o embrulhava no próprio papel que vinha da padaria. O embrulho sempre ficava um pouco engordurado.

A imensa maioria dos alunos levava dinheiro para comprar o «Pão Alemão», que era feito na própria cantina da escola.

Creio que o nome do pãozinho tem a ver com as freiras que dirigiam o colégio, pois eram todas de origem alemã. As irmãs apenas comandavam a escola, pois todos os professores eram contratados, eram professores que tinham, em sua maioria, estudado na própria escola quando crianças. Muitos desses professores eram até mesmo filhos de ex-alunos do local, ou seja, existia uma espécie de tradição ou sentido de família bem evidente.

Quando chegava a hora do recreio, eu procurava descer sempre afastado dos colegas de sala. Ia eu com meu embrulho do pão com manteiga (engordurado), escondido ou apertado em uma das mãos. Procurava um canto mais afastado do pátio imenso e com diversos «ambientes» e comia quase reprimido em um canto qualquer. Cheguei mesmo,  algumas vezes, a passar o recreio inteiro sem comer o pão, por não ter encontrado oportunidade para me ocultar ou me perder na multidão dos alunos. Em outras, retornava com o pão escondido para a sala e, discretamente, o colocava de volta na pasta. Era uma coisa que me perturbava imensamente e, certos dias, chegava mesmo a ser doloroso.

Revivendo essas cenas e os meus sentimentos durante esses acontecimentos, que vieram à superfície espontaneamente, senti asco, desprezo, repulsa por, sem motivos, ter sido tão vaidoso ou soberbo em um assunto de tão pequena monta, tão insignificante diante de todos os privilégios que tive e dos valores sob os quais eu fui criado.

Essas coisas ficaram escondidas em mim por todos esses anos, nunca me havia lembrado disso. Resolvi confessá-los para purgar um pouco essa vergonha mesquinha e inusitada.

Posso finalizar com o seguinte: como eu era ridículo!

[ José Roldão ]

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O dia hoje estava diferente. Acordei sentindo que outra pessoa sentava ao meu lado na cama. A cama cedeu com o peso de mais um outro corpo. Pensei que era ela. Senti alguém se esticando por cima de mim e apoiando uma das mãos na frente de minha barriga, fazendo um arco com o braço. Eu estava deitado de costas para a porta; deitado sobre meu lado esquerdo. Pensei que era ela, mas não fazia sentido, pois lembrei que tinha deixado a porta de entrada de minha casa com a tranca de segurança por dentro, pois ela não chegaria cedo. Mesmo com as chaves ela não teria conseguido entrar, sem que me chamasse. Foi então que me dei conta do absurdo. Rapidamente tentei levantar a cabeça para ver quem era, mas nem mesmo os olhos eu conseguia abrir, muito menos levantar com o peso daquela pessoa por cima, me segurando. Comecei a abanar a cabeça (sempre funciona nessas horas) e, depois de certo tempo, consegui me libertar desse fardo invisível. Levantei metade do corpo e girei os olhos pelo quarto: não havia ninguém, tudo estava como deveria estar, como eu havia deixado ao deitar-me.

Não é a primeira vez que fico preso entre-sonhos, mas sempre havia acontecido de noite. Desta vez era dia. Mudei de posição na cama e fiquei observando a porta encostada: “Coisa esquisita”. Voltei a dormir…

Mais tarde: “O dia hoje está estranho, não?”. “Por quê?”, ela perguntou. “Não sei. Algo na luminosidade, ou velocidade do dia. Não parece um dia verdadeiro, mas, sei lá, deu-me cá a idéia de que fosse um placebo do dia”. Ela não disse nada, até que, lá pela terceira ou quarta vez (já noite), respondeu-me, finalmente: “De novo? Pára de falar isso, que coisa!”. Assenti, e fui embora.

Estava com certa aflição ao seguir o percurso até minha casa. Durante dez minutos eu andei com os olhos, mais do que com os pés. Aquela luz diáfana em todo lugar; alguém pronto a soterrar-me no chão (pareceu-me um prenúncio, sentir-me soterrado por algo invisível pela manhã); um vazio espetacular nas ruas… Em dado momento achei ter escutado passos logo atrás de mim, mas não havia ninguém. Apressei-me, mas mantive a desconfiança de tudo. Tinha a certeza de que tudo era placebo. Durante alguns instantes, cheguei mesmo a pensar: “E se eu fosse o placebo?”. Desisti dessa idéia terrível, que só tornaria as coisas mais absurdas, além do suportável.

Finalmente, cheguei a minha casa. Até aqui, foi como se flutuasse na luz diáfana que me oprimia. “O asfalto parecia rolante… Eu sendo carregado… Aquela impressão de quando deixamos um balanço, mas ainda não retornamos ao ponto certo de equilíbrio”.

Cheguei até a janela e foi como se a noite fosse adensar casa à dentro, fazendo piscar os olhos. Fechei rapidamente as cortinas. Achei que fosse preciso trancar as janelas, mas não tive a ousadia para mover sequer um dedo naquela direção. Deixa estar assim, que está bem.

Acredito que o problema mais sério agora seja olhar pela janela. Desde que sentei aqui para escrever, e afastei-me dela, a impressão diminuiu, mas ainda sinto como se estivesse ali, atrás das cortinas, aguardando-me, o placebo. Na rua andei desprotegido, ao relento, sob um céu… Não me recordo do céu? Não. Tampouco adiantaria ter olhado para um placebo do céu. De certo veria algo absurdamente opaco, suspenso, pronto a desabar e mostrar alguma cena mais real, mas, quem sabe, até mesmo uma cena mais medonha. Vim correndo escrever, pois, escrevendo, acredito estar fixando algo das imagens e sentidos que tive nas letras.

Estou com medo de ir deitar-me. Não gostaria de descobrir, depois de ter fechado os olhos, que todo este dia fora mesmo um placebo e que, só depois, estivesse acordando, de fato. Todavia, nem me atrevo a mexer nas janelas. Quanto à porta da entrada, não vou deixar a tranca de segurança interna. Sempre é bom que sobrem algumas opções manipuláveis, para que tudo possa nos parecer mais real, quando assim nos convém.

[ José Roldão ]

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07duccio Jesus chama Pedro e Andre

Quatro noites escrevendo sobre dois mil anos, para combater cinco séculos. Nesta matemática dos raciocínios, onde a fé ilumina cuidadosamente a razão, vamos revelando questões e fornecendo gabaritos. Contra a invencionisse: apresento a realidade que persiste, fundada sobre a Pedra. Nesta, somando infinitamente, o resultado sempre será igual a UM; nas outras, os resultados (que podem variar ao infinito) sempre parecerão dízimas periódicas.

[ José Roldão ]

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EM CÍRCULOS

dede Sempre agia assim. Corria de um lado para o outro, como se dessa forma pudesse encontrar, aos círculos, a resposta pairando pelo cômodo e, como se a pudesse engolir e digerir, ao invés de ruminá-la; ao invés de saboreá-la e chegar ao cerne da questão. Intentava a solução de todos os problemas em vista. Tolo! Era como o chamavam, na maioria das vezes. Para suas dúvidas nunca havia encontrado soluções absolutas. Buscava-as, como quem busca uma nova forma de prazer, mas sabia de antemão que era de sua natureza não se saciar nunca. Por falta de método ou falta mesmo do que fazer, passava suas angústia à limpo, diariamente, nesse vai-e-vem tresloucado, com olhos esgazeados, olhando através do ar, como se fosse possível tragá-lo e acumulá-lo em suas entranhas. Ficava assim, sempre assim. Depois, quando o cansaço vencia, por fim, derrubava-se no chão e adormecia. Tolo! E nem dava por si nesse estado. Apenas adormecia. E esquecia-se de si mesmo todos os dias.

[ José Roldão ]

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Sabe aqueles dias estranhos, nos quais parece que não fizemos nada, apesar de ter acontecido um monte de coisas desconexas? Pois é, foi assim: acordei não lembro que horas; fiz não sei o que depois; dormi de tarde; acordei e não lembro o que aconteceu ao certo; fui levar às pressas no curso de minha namorada um CD que ela havia esquecido; fui à casa dela; voltei pra minha; depois ela veio também, dormiu e fiquei aqui lendo dezenas de blogs via internet discada (= maior tempão).

Para finalizar, quando estava tentando editar este post, apareceu aquela tela azul de esvaziamento de pilha do XP e tive que reiniciar e reconectar pra concluir, por uma questão de honra…

Como eu poderia deixar de contar essas coisas aqui e não acrescentar mais este post à lista deste dia desconexo?

Isso aqui já foi mais sério, eu sei…

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Leia um trecho de reportagem de Ronaldo Soares na Veja:

 

 

Os Jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro reunirão, em julho, 5.500 atletas de 42 países. Serão disputadas 2.500 medalhas, em 34 modalidades esportivas. Os competidores vão se enfrentar em 29 instalações, proporcionando um espetáculo que será visto por milhões de pessoas pela TV. Mas os números que realmente impressionam são outros. Mesmo antes da conclusão das obras, o Pan do Rio conseguiu a proeza de ser o mais caro da história. Os gastos somam até agora 3,6 bilhões de reais. O custo médio das quatro edições anteriores (Santo Domingo, Winnipeg, Mar del Plata e Havana) ficou muito abaixo: 280 milhões de reais. Ou seja, o Brasil está gastando doze vezes mais para promover o mesmo evento. Nas últimas semanas, VEJA analisou contratos e teve acesso a um ainda inédito relatório do Tribunal de Contas da União (TCU). Além dos gastos exorbitantes, o papelório encerra uma aula de como não se deve organizar uma grande competição internacional.

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