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Archive for the ‘Fragmentos’ Category

eliot (1) “É preciso lembrarmo-nos de que, como a Europa é um todo (…), assim a literatura europeia é um todo, de que os diversos membros não podem florescer se a mesma corrente sanguínea não circular através de todo o corpo. A corrente sanguínea da literatura europeia é latina e grega – não como dois sistemas circulatórios, mas como um só, pois é através de Roma que deve reconstituir-se a nossa ascendência grega. Que medida comum de excelência temos em literatura, entre as nossas diversas línguas, que não seja a medida clássica.”

[T. S. Eliot, “O que é um clássico? (1944)” in Ensaios Escolhidos, Lisboa, Cotovia, 1992]

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Meu pai ensinou-me a jogar damas quando eu era ainda bem pequeno. Ganhou todas as partidas por anos a fio. Fui crescendo; no entanto não o vencia. Fiquei tão bom no jogo de damas que ninguém da minha rua queria mais jogar comigo, pois ganhava a todos. Só ao meu pai que não.

Certa noite, depois de jantarmos, ainda na copa

— Anda cá rapaz, vamos ver se me ganhas

Minha mãe lavava a louça na cozinha ao lado e o meu irmão com ela (…)

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Sozinho, durante a madrugada, olhando as casas e as ruas da minha janela, eu fico imaginando as pessoas dormindo. Olho para os postes, pontos de luz que deixam os caminhos em sépia (…)

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Ando cá fechado em minha torre, meio isolado do mundo em um momento de transição, daqueles em que são estendidas no varal notas de solidão querida, desejada, como se a única coisa que importasse fosse ruminar a vida em silêncio.

Há roupa para lavar, mas finjo que me esqueço; há-de haver um tempo certo para cada coisa, um momento específico, exato, então passo os dias tentando alcançá-lo, ruminando, e lembrei-me do sonho que tive faz algumas semanas, um sonho bom nas formas, nos cheiros, nas lembranças. E talvez ruminar a vida seja isto.

Voltava ao tempo de minha adolescência, mas era a consciência e a minha forma de hoje que lá estavam; ali ao lado (…)

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Chegar à aldeia (capital do mundo) e encontrar os amigos enevoados por causa do tempo e da distância, desanuviar as feições, forçar a rouquidão que é a rusga da pressa no falar e logo todas as vozes em uníssono saindo pela boca do Miguel

— Parece que foi ontem, pá

enquanto o outro que leva o mesmo nome que eu

— Pega o violão que já perdemos foi tempo

e que é fruto da mesma infância que a minha (apenas dos domingos na casa da tia Celeste, o que é quase o mesmo) a abrir os ouvidos ao passado, os acordes que ainda ecoavam pelas ruas de Trancoso

— Lembras-te?

(…)

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258833g“Era uma livraria que vendia um único livro. Havia 100 mil exemplares numerados do mesmo livro. Como em qualquer outra livraria os compradores demoravam-se, hesitando no número a escolher”.

(Gonçalo M. TavaresO Senhor Brecht, Editora Casa da Palavra, 1ª Edição)

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1022995_4O pai morreu

   e ele, que era duro, endureceu mais.

Informou da existência do cadáver

   como quem relembra um pormenor.

Amava o pai, mas o coração é assim

(a lei da sobrevivência):

   esconde-se quando o querem matar.

( 1Gonçalo M. Tavares, Editora Bertrand Brasil 2005)

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