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Archive for the ‘Poesias’ Category

Eu gastando tantas letras e a pensar que deve haver um limite no Infinito, visto que no infinito não há tempo e as coisas por lá todas terminadas, em sua forma definitiva. Jogassem-me lá e eu perguntava

— Olha, quantas letras eu escrevi?

No entanto, depois de voltar ao presente, se eu ainda vivo, com certeza mais angustiado, anotando letra por letra, uma cifra a crescer e eu com os dedos disciplinados, deixando passar apenas as palavras necessárias e indispensáveis, procurando resumir sentenças e nas sentenças capítulos inteiros, palavras curtas, sentidos longos, eu a encher as palavras como quem força a quantidade de coisas dentro de um saco pequeno quase a rebentar, cada saco um livro e eu todo cuidados a entregar aos leitores

— Perdoem-me, são apenas poesias

que a poesia deve ter sido inventada por alguém que de certeza andou pelo infinito e de lá para cá todo preocupado e mais inteligente que eu, mais habilidoso, a inventar a poesia para economizar as letras e ampliar os sentidos até não mais poder…

 

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Existem pontes

São tantas

E o problema de existirem assim

Tantas

É que ficamos parados

(nos momentos decisivos)

A olhar para cada uma delas

Os olhos bem abertos

Às diversas possibilidades

E o problema de existirem assim

Tantas

É que ficamos perdidos

(e nos esquecemos das pontes, por instantes)

A pensar em cada uma delas

 

Depois

É preciso que alguém nos chame

De longe

(será que ouvimos?)

Pois já estaremos sozinhos

Às voltas com as idéias

(tantas!)

No labirinto que inventamos

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Só percebemos o momento

quando o buscamos no passado.

O presente à nossa volta entorpece-nos,

turva-nos os pensamentos.

É preciso pressa; agora.

Mais tarde,

quando tudo se tornar memória,

somos ainda capazes de retocar os acontecimentos.

Pegamo-los para nós; arrancamo-los do tempo.

Os que fazem isto com arte chamam-se poetas.

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1022995_4O pai morreu

   e ele, que era duro, endureceu mais.

Informou da existência do cadáver

   como quem relembra um pormenor.

Amava o pai, mas o coração é assim

(a lei da sobrevivência):

   esconde-se quando o querem matar.

( 1Gonçalo M. Tavares, Editora Bertrand Brasil 2005)

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Ir-me-ei embora. E ficarão os pássaros
Cantando.
E ficará o meu jardim com sua árvore verde
E o seu poço branco.

Todas as tardes o céu será azul e plácido,
E tocarão, como esta tarde estão tocando,
Os sinos do campanário.

Morrerão os que me amaram
E a aldeia se renovará todos os anos.
E longe do bulício distinto, surdo, raro
Do domingo acabado,
Da diligência das cinco, das sestas do banho,
No recanto secreto de meu jardim florido e caiado
Meu espírito de hoje errará nostálgico…
E ir-me-ei embora, e serei outro, sem lar, sem árvore
Verde, sem poço branco,
Sem céu azul e plácido…
E os pássaros ficarão cantando.

[ Juan Ramón Jiménez ]

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Muita fumaça entre o por do sol e eu

Ele quase que já se foi

Eu forço a vista como quem range os olhos

Muita fumaça entre o por do sol e eu

As luzes de um avião me encaram

Está escuro aqui

É difícil de me ver escondido dentro de uma janela

Ao horizonte tudo vermelho

O sol fere e sangra a noite que insiste

Todos sabem que não há como vencer

O sol insiste todos os dias

Melhor que os homens

Nós enchemos o céu com fumaça

Depois temos de engelhar o rosto

Mas não mostramos os dentes

Temos culpa espalhada na pele

Temos um sorriso discreto

E um céu da boca carregado

O avião já se foi

Foi difícil de me ver aqui escondido

Uma janela é boa coisa de se ter

Quando se quer ficar oculto

Agora todas as luzes da cidade estão acesas

São como estrelas caídas

Mais estrelas pelas ruas do que no céu

Penduradas em postes

Dentro das casas

Um isqueiro que se acende na esquina

O cigarro numa boca que se distancia

Estrela cadente que vai

Na boca de um homem

Muita fumaça entre o mundo e eu

E a noite venceu mais uma vez

Todos sabem que não há como vencer

Mas o sol insiste todos os dias

Melhor que os homens

[ José Roldão ]

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Saber onde está o tesouro não basta!

É preciso encontrar o caminho.

Tem que pisar no caminho.

Tem que ter os pés descalços,

Pois é preciso endurecer a pele!

É bom ter também os punhos fechados,

Pois é preciso também ser forte!

Ajuda muito ter os olhos bem abertos,

Pois o tempo insiste em fechá-los.

Um dia seremos todos vencidos,

Cansaremos as pálpebras

E um último bocejo se encarregará do resto.

Saber onde está o tesouro não basta.

É do mapa que mais precisamos.

[ José Roldão ]

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