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Posts Tagged ‘Carros’

Uma conhecida sensação tediosa invadiu este cômodo. De repente, eis que falta eletricidade. Olho da janela, que recosta do meu lado esquerdo, e vejo tudo escuro até onde a vista alcança. Em menos de um minuto, retorna a eletricidade (onde andavas? onde fostes?). Sim, retorna aqui em casa, pois, lá fora (a janela informa-me, cutuca-me), tudo permanece negro: uma noite clássica.

Aos poucos as outras janelas voltam a acender, piscam-nos luzes ali e acolá (enamoram-se da minha, flertam, enquanto torno-me um intruso na cena, um indelicado que as observa). De outros pontos, espreguiçam-se postes de luz; outros continuam adormecidos, como se, cansados, proveitassem da situação.

Apenas os carros da rodovia nunca param.

Faróis, olhos que rasgam a noite, como se fossem fantasmas amedrontando a todos nós, riscando o negro clássico que se abateu por segundos até onde a vista alcança.

Na cidade os carros nunca param. São acréscimos modernistas.

[ José Roldão ]

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Fui dar aulas. No caminho de ida, perto de casa ainda, olhei para a rua e vi dois gatinhos comendo os restos de algum animal que havia sido atropelado. Naquela rua passam muitos veículos, pois é passagem dos carros que saem da Rod. Presid. Dutra e vão pegar o viaduto, afim de fazer o retorno. Estranhei que os gatinhos estivessem em meio a rua, tranquilamente comendo aqueles restos, e ainda estivessem vivos. Parei e fiquei observando. Em minutos vem um carro e desvia por pouco. Os gatos nem esboçaram qualquer movimento, ficaram ali, como se nada existisse à volta.

Mais um pouco e vem um caminhão. O motorista tenta passar sobre os gatos, mas de uma maneira que não os atropelasse, passando com o meio do caminhão. Quando já havia passado a metade do veículo, eis que os gatos se assustam e voltam pra calçada. Um deles consegue chegar ileso, o outro, porém, atravessa e é atropleado. Duas rodas duplas do caminhão passam por cima dele: nem um ruído, nem um miado. Apenas isso e fica o gato estendido, destroçado em parte.

Atravessei e fui ver de perto. Estava vivo segundos antes, agora era como os restos que há pouco comia. Segui adiante. Procurei o gato sobrevivente, mas nem sinal. Andei mais um pouco e tornei a olhar para trás: lá estava o sobrevivente indo para o mesmo lugar onde o outro jazia atropelado. Burro! Era como se nada houvesse acontecido, muito menos parecia fazer alguma diferença o outro ali estendido e vazado junto aos restos de antes. Eu havia visto algumas vísceras do atropelado espalhadas ao redor, e agora imaginava que o outro, provavelmente seu irmão, poderia estar comendo carne de sua carne. Por pouco tempo, pois, se ali estava agora, daqui há pouco teria a mesma sorte do outro gatinho.

Hoje, depois de dois dias, passei novamente pelo mesmo local. Não havia nada além de uma mancha no asfalto. Fico pensando que um dos gatos, porque eu o havia visto morrer, estava de fato morto; o outro, aquele sobrevivente que insistia em abusar da pouca sorte, esse eu não vi morrer, apesar de ser bem provável que tenha ocorrido, contudo, nunca saberei se de fato acabou tendo o mesmo fim. Pode parecer coisa boba, mas, sinceramente, gostaria muito de saber do destino daquele gato que, por não o ter visto salvar-se ou não, permanece em minha memória, suspenso.

[ José Roldão ]

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