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Posts Tagged ‘Ficção’

harry_labirinto2Nuno passava as tardes brincando quieto, em silêncio. Seus pais sempre dormiam após o almoço e ele ficava sozinho pela casa imensa. Quando somos pequenos todas as coisas parecem enormes. Ou será que vão encolhendo na medida em que crescemos? É de conhecimento público que nós é que crescemos, e na proporção em que isso acontece os espaços vão-nos escasseando. No final das contas, as casas são mesmo menores. Vemos que são assim. Pontos de vista… “Qual será a medida certa das coisas?”, perguntamo-nos.

Para Nuno, dormir à tarde era castigo. Não gostava. Quando entendiam que fazia alguma coisa errada (os adultos têm erros para tudo), levavam-no para deitar entre os dois, pai e mãe, e para quem visse a cena de um ponto de vista aéreo ficava parecendo uma pintura de uma família perfeita, um quadro. A menos que reparassem nos olhos úmidos do menino. “Em famílias perfeitas podem existir crianças com os olhos úmidos?”. Claro que pode! Não existem famílias perfeitas! Então, Nuno ficava assim quando o levavam para o meio deles na cama: com um brilho molhado e triste nos olhos. Deixemos bem claro que, para ele, sua família era perfeita, apesar do que acabamos de concluir agora há pouco. Nuno dava-se esse direito, mesmo sem pensar nisso.

Ele brincava de muitas coisas durante essas tardes. Desenhava (Nuno desenhava muito bem. Certa vez a mãe de um amigo seu da escola havia sugerido para a sua que o colocasse em aulas de desenho. Mas não o colocaram, não.) histórias de monstros vindos de outros planetas e naves espaciais que os combatiam. Era engraçado de se ver. Nuno fazia baixinho aquele barulho de explosões, de vôos rasantes e rabiscava aquele monstrengo pouco a pouco, até que todo ele estivesse escondido atrás de muitos rabiscos: era o fim do monstro. As naves também ficavam um pouco rabiscadas, mas era para dar veracidade às histórias. Outras vezes ele brincava com seus bonequinhos: dinossauros verdes, índios amarelos, robôs azuis e vermelhos. Aqui se faz necessária uma pequena descrição. Dentre todos eles, o que Nuno mais gostava de brincar era um robô que havia achado na rua. Não tinha mais nem pernas nem braços, apenas o tronco azul e a cabeça vermelha. Mas o quê? Era justo isso que o havia fascinado! Um robô já ferido de tantas batalhas! Aliás, esse robozinho (devia ter entre uns três a cinco centímetros de altura) também o havia ajudado. Depois de ter encontrado esse robô na rua, sempre que tinha de ficar deitado durante toda uma tarde de castigo o levava escondido em uma das mãos fechadas. Quando os pais dormiam (ele mantendo a força, numa grande batalha silenciosa, os olhos abertos para não ser vencido!) pegava o robô e criava histórias debaixo dos travesseiros. Eram cavernas escuras e frias (o ar-condicionado sempre estava ligado)! Também mexia nos lençóis, criando caminhos difíceis por onde sempre surgiam monstros invisíveis, muito mais difíceis de vencer. Quase invencíveis! Como podemos vencer os monstros que não vemos? “E se os vencêssemos todos? Como a batalha haveria de continuar?”. Ora! Quem disse que um dia todos os monstros serão vencidos? Para cada necessidade criamos um novo monstro! E muitas vezes os criamos assim: invisíveis! Existem batalhas que duram toda uma vida. “Como podemos vencer os monstros que não vemos?”.

E Nuno passava aquelas tardes que tinha de ficar preso à cama, brincando com o robô, como vínhamos contando. Temos de deixar bem claro que nem sempre saía vencedor das batalhas: algumas vezes acabava caindo no sono. Quem o visse assim, de olhos fechados e boca entreaberta, sem movimentos, e virasse um pouco mais os olhos e encontrasse um robô sem braços e pernas, soterrado por um imenso travesseiro, certamente acordaria a todos, mais que depressa. Só que, nas brincadeiras, sempre podemos recomeçar intactos, renovamos, como se alguma mágica poderosíssima nos fizesse abrir os olhos para nos dar a vida inúmeras vezes. Quando não estava de castigo (e ficava de castigo pouquíssimas vezes), brincava sobre o tapete da sala de jantar. Cada linha reta era uma estrada, cada desenho era um porto ou uma estação espacial, os pés da mesa eram obstáculos que davam graça aos vôos difíceis, que exigiam sempre manobras aprimoradas e perigosas, enfim, todo um mundo surgia nessa pequena gênese diária para que chegasse ao fim dos tempos assim que seus pais acordassem. E quando eles acordavam, ligavam a televisão. Sua mãe preparava um copo de café com leite (bem escuro, pois Nuno não gostava do leite) e um pãozinho com manteiga, para que ele pudesse comer enquanto assistia aos desenhos animados. “Mas não era Nuno que criava as histórias?”. Sim, era, mas só quando estava sozinho. Quando o vento do fim da tarde invadia a casa, quando sua mãe vinha lhe trazer o prato com os dedos brilhantes de manteiga e quando ligavam a televisão, não era preciso criar suas batalhas. Agora era o momento de aquele herói descansar, e assistir as batalhas e os monstros dos outros.

05/04/2008 – 15:56h. 

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Estou com mais um blog, chamado: CIDADE SOLITÁRIA, neste link:

http://jroldao.wordpress.com/

O título, como alguns devem perceber, é inspirado na obra do escritor-médico-português Fernando Namora; uma coleção de narrativas que tem o mesmo nome. Aliás, Fernando Namora é um de meus autores preferidíssimos.

Qual o motivo para criar outro blog? Não sei mesmo porque, mas o Fragmentos de Tempo sempre me aprisiona para determinados assuntos. Tipo, não consigo publicar aqui – trava-me as mãos e os olhos – determinadas coisas; quase sempre coisas que sejam mais pessoais e diretas, opiniões minhas e observações cotidianas. No novo blog pretendo justamente me expor mais – sem, no entanto, descobrir-me muito – e publicar percepções mais cruas e diretas que possam ocorrer em meu cotidiano.

Certamente – muito, muito certamente mesmo (aliás, já ocorreu no primeiro relato) – é impossível pra mim não ficcionalizar algumas coisas, mesmo as mais triviais. Não sei se isso é dom ou cadeia invisível, mas até que me dá bastante prazer realizar tais distorções ou reparos.

Convido-os todos a assinarem o Cidade Solitária, seja para receberem via email ou RSS, e os aguardo com muita alegria nas visitas constantes que possam me conceder!

Bons Ventos!

José Roldão

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