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Posts Tagged ‘José Roldão’

Existem pontes

São tantas

E o problema de existirem assim

Tantas

É que ficamos parados

(nos momentos decisivos)

A olhar para cada uma delas

Os olhos bem abertos

Às diversas possibilidades

E o problema de existirem assim

Tantas

É que ficamos perdidos

(e nos esquecemos das pontes, por instantes)

A pensar em cada uma delas

 

Depois

É preciso que alguém nos chame

De longe

(será que ouvimos?)

Pois já estaremos sozinhos

Às voltas com as idéias

(tantas!)

No labirinto que inventamos

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Só percebemos o momento

quando o buscamos no passado.

O presente à nossa volta entorpece-nos,

turva-nos os pensamentos.

É preciso pressa; agora.

Mais tarde,

quando tudo se tornar memória,

somos ainda capazes de retocar os acontecimentos.

Pegamo-los para nós; arrancamo-los do tempo.

Os que fazem isto com arte chamam-se poetas.

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Existem diversas explicações para o que seria o ofício de escrever, mas aqui, nesta entrevista com José Saramago, no Jornal de Notícias, encontrei um trecho que me chamou a atenção, justo por conter também um pouco da relação deste ofício com a vida. A analogia é bem interessante.

Então, para si, escrever é um ofício que se confunde com a vida…

A literatura, como trabalho que é, enquanto se pode fazer, faz-se. Acabando-se a vida, acaba-se o trabalho. E, se esse trabalho tem a ver com literatura, é cortado nesse momento. No fundo, é como uma ave que é abatida em pleno voo. Vai voando e julga que vai chegar àquela árvore, onde quer pousar, mas, de repente, há um tiro de um caçador que a deita abaixo. A vida é isto.

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Este vento frio e úmido traz-me saudades das pedras geladas e cobertas de musgos das aldeias de Portugal. Quando eu passava as mãos sobre o verde incrustado por entre as pedras, sentia como se me aplainasse a pele, como se o tempo roçasse devagar brincando com meus poros, estes que me arrepiam agora, neste exato instante, numa prece de retorno.

Lembro-me bem da neblina descolorindo as casas, e gostava de atravessá-la como quem dispensa as pontes, pois aprendeu a voar, assim, de repente, como em uma dança de sonho.

Caíram agora à minha frente, por um fio desenrolado da memória, algumas folhas de eucalipto que lembro ter posto sob o travesseiro para que me purificassem a noite do extremo silêncio da ausência urbana; porém, noite esta, que trazia as conversas de animais obscuros, cortadas ao meio pelo som de uma moto a riscar com as unhas a auto-estrada, desfazendo todo o encanto, para que o silêncio mais uma vez arrebentasse em seguida, numa espécie de ciclo inevitável.

É deste silêncio que escrevo. Um silêncio de saudade relutante, inesquecível.

[ José Roldão ]

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Nuno passava as tardes brincando quieto, em silêncio. Seus pais sempre dormiam após o almoço e ele ficava sozinho pela casa imensa. Quando somos pequenos todas as coisas parecem enormes. Ou será que vão encolhendo na medida em que crescemos? É de conhecimento público que nós é que crescemos, e na medida em que isso acontece os espaços vão-nos escasseando. No final das contas, as casas são mesmo menores. Vemos que são assim. Pontos de vista…

«Qual será a medida certa das coisas?», perguntamo-nos.

[ José Roldão ]

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Estava agora, neste instante (e não escrevo no passado, mas sim neste eterno presente), observando os livros em minha frente. Vertiginosamente atacaram-me pensamentos não tão absurdos quanto os que me acometem em sonhos – e o leitor deve acreditar que meus sonhos são mundos completos, inclusivos, e podem tanto alegrar quanto me agarrar em seus labirintos.

Perdi-me nas possibilidades infinitas dentro de cada um dos volumes e meticulosamente sondei-os através de meus pensamentos, que atravessaram capas e autores. Vi o universo. Margeei estrelas e senti o fluxo incessante que corre nas entrelinhas. Desmanchei-me em pontos luminosos de conhecimento – aqueles que encontramos nas asas das mariposas – e fui atingido em cheio pela percepção completa e indizível desse instante.

Não me recordo como retornei a este mundo. Posso mesmo ainda estar sonhando, talvez. Mas não importa, pois, desde que me deixei levar naquelas asas, certamente nunca serei o mesmo. E se não fui, posto que agora eu sou novamente, nada há para recordar. Deve existir apenas o viver, de agora em diante.

[ José Roldão ]

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Fim de tarde. A chave gira na fechadura. Chega a casa após mais um dia de trabalho e não pensa em outra coisa a não ser o banho. Depois: um café na janela. Sempre preferiu os dias chuvosos, aquela chuvinha fina que não passa.

O banho. Sente a água morna cair sobre a cabeça e faz uma rápida e simples analogia com a chuva lá fora. Nenhuma imagem ou quadro mental aprimorado, apenas um pensamento passageiro, sem sentimentos – uma ponte.

Água na chaleira. Um. Dois minutos… Colherinha girando na xícara: sentido horário. Não liga para superstições, o sentido é apenas um hábito, reflexo de tantas vezes já ter olhado para o relógio durante o dia. Sentidos? Coloca uma cadeira rente à janela, apóia os braços e finge descobrir que já escureceu, enfim! Nenhuma outra satisfação programada além de tomar um café debruçado na janela e sentir o vento úmido da noite.

Leva a xícara até a boca bem devagar, olhando fixamente para a espuma marrom grudada nas bordas – neste momento a boca relaxa. “Um bom café solúvel”, ele pensa. Pensamentos? Não. Apenas pontes.

[ José Roldão ]

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