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Posts Tagged ‘noite’

Uma conhecida sensação tediosa invadiu este cômodo. De repente, eis que falta eletricidade. Olho da janela, que recosta do meu lado esquerdo, e vejo tudo escuro até onde a vista alcança. Em menos de um minuto, retorna a eletricidade (onde andavas? onde fostes?). Sim, retorna aqui em casa, pois, lá fora (a janela informa-me, cutuca-me), tudo permanece negro: uma noite clássica.

Aos poucos as outras janelas voltam a acender, piscam-nos luzes ali e acolá (enamoram-se da minha, flertam, enquanto torno-me um intruso na cena, um indelicado que as observa). De outros pontos, espreguiçam-se postes de luz; outros continuam adormecidos, como se, cansados, proveitassem da situação.

Apenas os carros da rodovia nunca param.

Faróis, olhos que rasgam a noite, como se fossem fantasmas amedrontando a todos nós, riscando o negro clássico que se abateu por segundos até onde a vista alcança.

Na cidade os carros nunca param. São acréscimos modernistas.

[ José Roldão ]

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Um carro atravessa a rodovia e

dispara feito flexa no alvo da noite…

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Estava eu andando sob o céu noturno, vindo para esta casa, quando por entre nuvens [ou névoas, não sei ao certo; mas quem saberá?], vislumbrei uma forma luminosa, pronta para atravessar o umbral que nos separa do celeste. Não era circular [poucas são as formas circulares perfeitas e dignas deste nome] nem tampouco angulosa. Confesso: cismei de averiguar durante alguns instantes aquele objeto semi-identificado em minha memória. Não parei meus passos, mas segui adiante [meus olhos retesados; uma sobrancelha levantada] enquanto conversavam no aqui e ali do círculo de pessoas que me acompanhavam [sim… são muitos os círculos, mesmo que imperfeitos].O umbral celeste [aquelas nuvens que pairavam – ou será que era névoa?] estava desdenhando de minha imaginação, impedindo que a história continuasse, tanto sob o céu noturno quanto sobre os passos ensimesmados. Brinquei dentro do meu círculo e alarguei seu espaço, fazendo com que todos ajudassem aquela forma luminosa a atravessar tão dolorosa abertura. Parecia mesmo que se espremia intensamente [talvez por isso, por estar se espremendo, não fosse perfeitamente circular] e que a qualquer momento fosse cair sobre nós. Muitos sorrisos acudiram desmedidamente, mas não nos esquecemos de soprar com força para cima, fazendo pressão oposta, mantendo tudo em seu devido lugar: nem lá nem aqui, mas sim onde era pra estar.

Claro, como não!, era apenas a lua! Porém a fixação [mania, cisma, moda pessoal, entusiasmo, distração; quantos nomes!] faz com que os sentidos dancem de modos harmônicos [porém numa cena muda para o público], e bailamos desmedidamente até que… até que a moda passa; até que… cansamos. Cansamos! Então buscamos outras distrações [outras, mas que nunca são novas], e seguimos solitariamente bailando, perdidamente apaixonados pela visão no espelho; um corpo girando, girando, mantendo a cabeça o máximo de tempo parada em seu eixo: temos que nos assistir, admirar, extasiar, chamar a atenção [geralmente a nossa própria atenção] até que… enjoamos. Enjoamos, mas não dizemos assim [muito menos pensamos assim… fingimos!]. Então olhamos ao redor – como?! O espelho desaparece, surge o fantasma de nós mesmos.

Quando paramos de bailar [navegar nessas ondas, quem pode saber?], rimos mais ainda e fechamos novamente o nosso círculo: agora estava quase perfeito. Não fomos abduzidos pela lua [nem havia possibilidade, pois éramos muitos – aliás, ainda somos].

Continuei andando, acompanhando o tilintar do chaveiro pendurado em minha mente e cantando ao som da banda de nossos passos, e logo pudemos abrir o círculo: estava nesta casa, finalmente.

Despedi-me do astro principal, que finalmente havia transposto o umbral celeste e nos acenava [ou será que era um daqueles sorrisos lunares rechonchudos, pintados em telas frias?] e normalizei a sobrancelha já cansada. Mantive os olhos retesados, por via das dúvidas. Temos que nos apegar a alguma coisa que demonstre certa seriedade. É o jogo.

Era só a lua mesmo. Só que cismamos de querer acreditar que não seja apenas isso; temos de criar mundos fantásticos e misteriosos: excitação! Qualquer coisa serve, contanto que seja diferente e possamos especular a respeito. Oras, para especular não é preciso muita coisa: basta inventar, concatenar harmoniosamente alguns fatos, imagens que adquiram sentidos sem-sentidos e que por isso mesmo podem ser manipuladas. Batemos muitas palmas ao espetáculo e pode até ter algumas lágrimas nos olhos, tudo isso faz parte, aliás, investimos em tudo isso, ainda é o mesmo jogo. Qualquer coisa serve… por mais que seja descartável.

[ José Roldão ]

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