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Posts Tagged ‘Passado’

Abro um saco repleto de fotografias como quem dá o primeiro passo para dentro de um túnel do tempo. Paredes apertadas, escuras (não vejo a luz, enganaram-me os relatos de quase-morte) e eu não sinto cheiro algum.

Seguro a primeira foto e percebo que o meu passado não me pesa nada: lembranças leves de fim de tarde numa casa colorida pelo sol quase a se pôr, móveis cor de cerejeira, tapetes com desenhos sem lógica em tons de vinho, branco e amarelo escuro, umas sandálias apertadas e meias brancas até os joelhos. Olho-me de cima a baixo e revejo o desenho da roupa bege com detalhes em castanho (lembra-me sempre o uniforme de um piloto de avião, excepto pela cor) e reparo na minha expressão desgastada por ter de fazer pose para sair bem no retrato: cabelo húmido para o lado, bochechas cheias de raiva e os olhos apertados de inquietação e ansiedade, os braços pendentes ao lado do corpo (meus brinquedos a espera e eu ali a ser posterizado numa impaciência suprema sem sentido algum), tudo a reflectir com perfeição os anos oitenta: uma espécie de fidelidade estética generalizada que nunca mais ocorreu nas décadas posteriores.

Uma vida assim resumida e um futuro a ser destilado no conta-gotas dos anos (as fotografias uns pedaços de silêncio que não me pesam quase nada, eu já disse?). Expressões faciais, objectos, luzes, imagens de um mutismo absoluto a sustentarem uma autoridade mnemónica incontestável (os retratos nos fazem calar como as pessoas que só de por os olhos em nós silenciam-nos, já repararam?)…

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Estava agora, neste instante (e não escrevo no passado, mas sim neste eterno presente), observando os livros em minha frente. Vertiginosamente atacaram-me pensamentos não tão absurdos quanto os que me acometem em sonhos – e o leitor deve acreditar que meus sonhos são mundos completos, inclusivos, e podem tanto alegrar quanto me agarrar em seus labirintos.

Perdi-me nas possibilidades infinitas dentro de cada um dos volumes e meticulosamente sondei-os através de meus pensamentos, que atravessaram capas e autores. Vi o universo. Margeei estrelas e senti o fluxo incessante que corre nas entrelinhas. Desmanchei-me em pontos luminosos de conhecimento – aqueles que encontramos nas asas das mariposas – e fui atingido em cheio pela percepção completa e indizível desse instante.

Não me recordo como retornei a este mundo. Posso mesmo ainda estar sonhando, talvez. Mas não importa, pois, desde que me deixei levar naquelas asas, certamente nunca serei o mesmo. E se não fui, posto que agora eu sou novamente, nada há para recordar. Deve existir apenas o viver, de agora em diante.

[ José Roldão ]

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