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Archive for the ‘Relatos’ Category

Abro um saco repleto de fotografias como quem dá o primeiro passo para dentro de um túnel do tempo. Paredes apertadas, escuras (não vejo a luz, enganaram-me os relatos de quase-morte) e eu não sinto cheiro algum.

Seguro a primeira foto e percebo que o meu passado não me pesa nada: lembranças leves de fim de tarde numa casa colorida pelo sol quase a se pôr, móveis cor de cerejeira, tapetes com desenhos sem lógica em tons de vinho, branco e amarelo escuro, umas sandálias apertadas e meias brancas até os joelhos. Olho-me de cima a baixo e revejo o desenho da roupa bege com detalhes em castanho (lembra-me sempre o uniforme de um piloto de avião, excepto pela cor) e reparo na minha expressão desgastada por ter de fazer pose para sair bem no retrato: cabelo húmido para o lado, bochechas cheias de raiva e os olhos apertados de inquietação e ansiedade, os braços pendentes ao lado do corpo (meus brinquedos a espera e eu ali a ser posterizado numa impaciência suprema sem sentido algum), tudo a reflectir com perfeição os anos oitenta: uma espécie de fidelidade estética generalizada que nunca mais ocorreu nas décadas posteriores.

Uma vida assim resumida e um futuro a ser destilado no conta-gotas dos anos (as fotografias uns pedaços de silêncio que não me pesam quase nada, eu já disse?). Expressões faciais, objectos, luzes, imagens de um mutismo absoluto a sustentarem uma autoridade mnemónica incontestável (os retratos nos fazem calar como as pessoas que só de por os olhos em nós silenciam-nos, já repararam?)…

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sonhos_thumb[3] Disse a minha mãe, agora ao almoço

— Lembro-me perfeitamente do gosto de um queijo que eu comi há quarenta anos na Igreja

então passei a lembrar dos gostos e cheiros que também guardo perfeitamente, dos quais basta uma palavra para que retornem ao nariz e à boca, ela continua

— Era um queijo que vinha em uma lata. Na época parecia-me que a lata levava cinco quilos de queijo, hoje não sei, devia ser um quilo, mas eu era pequena, hoje não sei…

Fiquei a pensar nessa questão da quantidade e do peso das coisas versus nosso tamanho e força que aumentam com o tempo, coisas que eu…

 

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Sozinho, durante a madrugada, olhando as casas e as ruas da minha janela, eu fico imaginando as pessoas dormindo. Olho para os postes, pontos de luz que deixam os caminhos em sépia (…)

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Ando cá fechado em minha torre, meio isolado do mundo em um momento de transição, daqueles em que são estendidas no varal notas de solidão querida, desejada, como se a única coisa que importasse fosse ruminar a vida em silêncio.

Há roupa para lavar, mas finjo que me esqueço; há-de haver um tempo certo para cada coisa, um momento específico, exato, então passo os dias tentando alcançá-lo, ruminando, e lembrei-me do sonho que tive faz algumas semanas, um sonho bom nas formas, nos cheiros, nas lembranças. E talvez ruminar a vida seja isto.

Voltava ao tempo de minha adolescência, mas era a consciência e a minha forma de hoje que lá estavam; ali ao lado (…)

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Chegar à aldeia (capital do mundo) e encontrar os amigos enevoados por causa do tempo e da distância, desanuviar as feições, forçar a rouquidão que é a rusga da pressa no falar e logo todas as vozes em uníssono saindo pela boca do Miguel

— Parece que foi ontem, pá

enquanto o outro que leva o mesmo nome que eu

— Pega o violão que já perdemos foi tempo

e que é fruto da mesma infância que a minha (apenas dos domingos na casa da tia Celeste, o que é quase o mesmo) a abrir os ouvidos ao passado, os acordes que ainda ecoavam pelas ruas de Trancoso

— Lembras-te?

(…)

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Acho que os cães entediam-se em certas madrugadas e põem-se a latir, resmungando para outros cães. Pode ser que exista uma linguagem (de certo que há) e percebo que eles se comunicam a outros mais distantes (ou se desentendem?) em alguma disputa indecifrável para nós, humanos.

Estão lá os cães a latir…

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chuva janela— O que importa o lugar, Dane-se! Cale-se!, pois trago todo o peso do mundo comigo, minha filha está morta, se fosse viva dois mundos apoiavam-se em meus ombros mais a minha filhinha a bater-me, a gritar-me, jogando coisas e deixando marcas de suor nas paredes, os dedos dela a perfurarem o abdômen ferido e eu a cuidar inventando mil remédios, e eu forte, e eu mais feliz, a brigar com o tempo e a esquecer da morte (…)

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